O mito do amor materno

Reflexões sobre a ilustração da mãe ideal, naturalmente devotada, que vive para o prazer do filho, investindo apenas nisso em meio a uma vida sem ambição, paixão e sexualidade.

Por Reynaldo de Azevedo Gosmão

Segundo Badinter (1985), há alguns séculos, houve uma revolução de mentalidades. O lugar, a importância e a imagem da mãe modificaram-se radicalmente. Após 1760, diversas publicações fizeram recomendações às mães e ali estabeleceram o mito do instinto materno de toda mãe para com o seu filho.

Tal mito constitui nosso imaginário sociodiscursivo, de modo a estereotipar o papel da mulher mãe ainda hoje.

Se acionarmos os diversos construtores que começaram a girar em torno deste lugar maternal tanto naquela época quanto atualmente, encontramos muitas semelhanças. Temos, por exemplo, o construtor religioso que traz a ideia de lugar sagrado, santificado e que tem como “vocação” o cuidado; temos também o discurso, em que mãe é a mulher que cuida, que gera e que abdica dos seus desejos para cuidar de outra vida etc. Percebemos, então, uma exaltação do amor materno, sendo esse considerado um valor natural, social e, a partir de um olhar mercantil posterior, uma riqueza econômica.

Para autora, em meados do século XIX, ainda não existia um comportamento materno unificado. Questões econômicas, ambições, as classe sociais condicionavam o comportamento materno, sendo problema, imposição, necessidade e opção para umas ou nada disso para outras

Ou seja, a chegada de um filho à família, é experienciada de maneiras diferentes para cada mulher.

A maternidade depois adquiriu um novo sentido, pois era a mãe também que deveria agora cuidar da educação do seu filho para formá-lo em um bom cidadão, em um bom cristão e em um homem, na busca de obter o melhor lugar no centro da sociedade, sendo a responsável pela felicidade de seu filho e também pelo destino de sua família e da sociedade.

A ilustração da mãe ideal, da mãe naturalmente devotada, busca mostrar que ela vive para o prazer do filho, investindo apenas nisso em meio a uma vida sem ambição, paixão e sexualidade.

Todavia, foi na década de 1960 que houve um importante movimento feminista colocando em questão algumas concepções freudianas da feminilidade. O movimento mostrou que uma outra prática feminina era possível e desejável, depois de tanta rejeição e discriminação.

Colocava-se, assim, segundo Badinter (1985) o questionamento do mito freudiano da mulher normal, passiva e masoquista e também a teoria da mãe devotada, nascida para o sacrifício, de modo a pôr em dificuldades as teorias da psicanálise e, consequentemente, o nascimento de uma nova conduta entre os desejos femininos e os valores dominantes.

Mudanças ocorreram, e ainda sim a maternidade causa diferentes experiências para cada mulher. Contudo, ainda se fala do instinto materno, instinto esse que se manifesta em certas mulheres e em outras não, o que não deixa de ser questionável. Sendo assim, a autora questiona e nos faz pensar sobre uma relevante pressão social em que mostra que a mulher só se pode se realizar na maternidade.

Imagem de Mohamed Hassan por Pixabay 

Portanto, Bandinter (1985) conclui que o instinto materno é um mito e que esse amor é adicional a mulher. Verificamos que os discursos que circulam nas instituições fomentam o lugar de construção desses imaginários com fins identitários independente dos tempos, sejam eles velhos ou atuais.

Referência: BADINTER, E. B. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Tradução de: Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Texto fragmentado do estudo: OS IMAGINÁRIOS SOCIODISCURSIVOS E O MODO ENUNCIATIVO NOS DIÁLOGOS DE UMA MULHER NO TINDER. Realizado pelos pesquisadores e pesquisadoras: Reynaldo de Azevedo Gosmão; Luana Cristina de Oliveira Santos; Luciana Soares da Silva

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