O mito da cidade maravilhosa

Um desabafo sobre a mentira que inventaram da “cidade” que na verdade também é nome de Estado

Por Vitória Rodrigues de Oliveira

Depois de algumas horas no avião, finalmente o seu destino está na sua cara.

É a cidade maravilhosa e cheia de encantos mil, coração do seu Brasil.

É aquele lugar que você sempre viu nas telas de TV, na novela das nove, naquele filme cult. É muito bonito ver o Pão de Açucar, o calçadão da praia de cima. Porque de fato, o que vê é de cima.

Imagem de David Mark por Pixabay 

Pegando o táxi, você passa por obras bonitas. Mil teatros, mil museus, mil cinemas. Parece tão bonito ir por aquele caminho. Mas você pula, sai do carro e resolve comprar uma passagem – muito cara por sinal – da SuperVia.

Depois de muitos minutos esperando o trem sair da plataforma, aquele Rio do avião parece tão, mas tão… distante…

Apareço novamente aqui pra te dizer que, de fato, porém nem tanto, é distante. E eu vou começar a te contar o que eu acho, porque você é só mais um turista.

Esses dias, a minha mentora de um preparatório me perguntou “Vitória, você é a melhor em quê?”. Demorou uns segundinhos para eu pensar em algo que sou realmente boa, em que me destaco, que tenho expertise. Depois desse tempo que parecia uma mistura do curto infinito, consegui responder:

Eu sou a melhor falando de onde sou.

Mesmo tão cansada (e um pouco dispersa) no horário da nossa reunião, a minha resposta ficou ecoando na minha cabeça. Ficou girando, ficou sussurrando. Até que agora, fui levada a chegar gritando na escrita desse texto, porque acho que de fato me aproprio da minha vivência, e eu quero que mais pessoas saibam dela.

Eu cresci achando que o Rio de Janeiro é o mesmo Rio que você que, não é do Rio vê na TV, até porque sempre tratei quase tudo relacionado a minha saúde no que chamamos de ‘Centro’ do Rio.

Ir até aquele lugar me empolgava, porque via os prédios chiques, as casas antigas e gostava de andar de metrô. Mas por alguma razão, eu sabia que havia um clima pesado ali. E essa sensação, na verdade, se espalhou para a cidade toda. Para todo o estado.

Por ali, no Centro, é onde tudo começou. A venda de corpos, de vidas, de gente. Pessoas pobres andavam pelas ruas, enquanto os donos da parada viviam aos custos da dor de quem tinha pele diferente da sua. Origem distinta, processo de apagamento. Mesmo anos depois do que aconteceu, o Centro continua a mesma coisa. O Brasil, na verdade, continua, mas não tô aqui pra falar dele todo, mas sim da sua viagem.

Conforme as estações passam, você percebe porque pulou daquele maldito carro amarelo: não queria ver o que todo mundo vê. Você não tava muito afim de tirar foto no Museu de Arte Moderna, tampouco no Parque Lage ou no clássico Cristo Redentor. É tão monótono, tão cruz credo. É o que todo mundo faz. É o que gente que nem você faz. Que nem eu. É o que todo mundo que visita uma cidade grande faz.

Passam as estações e dá pra ver que não existe apenas as locações dos clássicos do Manoel Carlos, tampouco a mesma vista de favela da Glória Perez. O Rio é um lugar singular, mas ao mesmo tempo metamórfico. Ele não é aquilo que você vê na TV, apenas. O Rio é muito mais, mas parece que o seu mais não tem a devida atenção.

Mas mesmo no meio dessa viagem, você se pergunta:

Essa garota tá reclamando do que se mora num lugar com visibilidade?

De fato, meu leitor:

a gente tem visibilidade pra caramba. Se você comparar com outros estados, sabemos que estamos no centro dos olhos dos poderosos, pois é aqui que muitos deles moram. Mas acho que ninguém nunca para pra pensar de qual Rio é contado pra quem tá de fora. Você acha que os bairros do Rio são apenas os cantados nas canções?

Eu pelo menos achava. Cresci defendendo o meu Rio, e vou seguir assim. Numa briga entre paulistas e cariocas, não vou me segurar! Gosto das ruas com morros, das nuances d’onde a gente pisa, do céu do fim de tarde. Amo aqui. Mas depois de tanto investigar com os sentidos o lugar da onde vivo, não sei se gosto tanto assim.

E bem, te falei de canção, não falei? Pois é. Eu amo tocar violão. E uma das músicas que mais gosto de tocar, porque a melodia é boa, é Carta ao Tom 74, do Toquinho e de Vinicius de Moraes.

Nossa famosa garota nem sabia

Que ponto a cidade turvaria

Esse Rio de amor que se perdeu

Essa parte pra mim é bem importante nesse texto, sabe por que, pessoinha que tá do meu lado no trem?

O imaginário de que um Rio de amor glamoroso existe era muito forte e ainda é. Um Rio de amor jamais se perdeu porque nunca foi de amor. O Rio foi e é construído a base de sangue. Não tem como você chegar me questionando se não era como você assistiu em Coisa Mais Linda, se você nunca viu de fato o que rola aqui.

A história é poder e quem conta a história daqui sabe o que faz. Faz isso pra você pensar que nossas favelas se resumem apenas às mais citadas, que não existe isso, que não existe aquilo. Que eu não posso reclamar da onde vivo, que eu não posso fazer um programa de educação climática pras periferias daqui, que eu não posso fazer nada porque você acha que o que eu vivo é só o que você acha que vivo.

O que lhe contam é o mito da cidade maravilhosa. Se é tão boa, qual a razão da demora nos ônibus, o sucateamento dos transportes, o IDH baixo longe da zona sul, o saneamento básico que não chega, a Baixada que é ignorada? Pode parecer bobagem reforçar as desigualdades daqui, mas há quem diga que isso é desnecessário porque está num lugar com atenção.

Se há a devida visibilidade para todo o Rio, meu caro, por que estou escrevendo este texto? Caso queira, continue comigo nesta jornada, fique ouvindo o que tenho a dizer sobre o lugar em que vivo. Mas se não estiver mais afim, solte dessa estação e pegue o próximo trem superlotado: a nossa gente quer ser ouvida.

Foto: Vitória Rodrigues de Oliveira

Lembro-me de uma certa vez em que convidei uma amiga para uma peça no que eu te contei que te chamamos de Centro. Ela não pôde ir, porque onde ela mora, o trem foi programado para parar de funcionar às 14h. Ela do lado escuro, os ricos de lá sendo apenas os que apreciam bom ballet. Um bom de tudo, um bom rio de riso no Rio.

O Centro é a gente que sobrevive. Já o Rio, a cidade de braços abertos que sufoca quem nela resiste.

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