O Ignorante comprou um colchão novo

Leia o primeiro de uma série de três artigos que pensam a história da saúde no Brasil, o sistema SUS como direito e outras questões e expectativas para o futuro

Por Victor Capellari

Se você abrir a torneira e colocar sua mão embaixo da água, ela vai se molhar. Algo óbvio, pois vivemos em um mundo real e não numa realidade “ideológica”.

Mas na época em que vivemos, a “verdade” está se tornando um conceito individual, se transformando quase que no sinônimo de “opinião”, para que cada um tenha a sua verdade. E todas têm o mesmo peso, independente da fonte ser um vídeo no Youtube ou uma pesquisa científica.  

Só que às vezes não percebemos a falha desse modelo: afinal, para construir uma casa, você procura um engenheiro, para fazer uma cirurgia procura-se um cirurgião. Isso evidencia que precisamos da opinião e ajuda de especialistas, podemos oferecer um exemplo.

Em 1888 o Brasil passava por uma epidemia de febre amarela, que inclusive matou a filha de Rodrigues Alves, na época presidente do Estado de São Paulo (o termo governador ainda não era usado).

Fora isso, Rodrigues Alves era um abolicionista, que queria a vinda de imigrantes europeus para o Brasil, que passariam a trabalhar nas plantações de café. Mas esses imigrantes não tinham interesse, ainda mais quando surgiram casos de cólera e em 1900 um navio com peste bubônica chega no Brasil.

Curioso citar que nessa época os cafeicultores, que precisavam de mão de obra para as suas fazendas, passaram a negar a existência da peste bubônica no país, apesar dos relatórios do médico Vital Brazil (qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência). 

Por sorte as autoridades tomaram uma atitude, talvez por causa da perda de sua filha. E para combater os casos de peste o Brasil começar a produzir o soro antipestoso, antes só produzido na França. Com essa tarefa surge o instituto Butantan. 

Em 1902 Rodrigues Alves vira Presidente do Brasil e passa a defender a bandeira sanitarista, ainda com a intenção de atrair imigrantes, criando o Departamento Geral de Saúde Pública, que seria dirigido por Oswaldo Cruz.   

Aparelho Clayton utilizado para lançar gás sulfuroso nas galerias de águas pluviais e esgotos, no combate aos mosquitos da febre amarela. / Reprodução Revista História, Ciência e Saúde Manguinhos

Para combater a febre amarela ele criou uma “brigada mata mosquito” – na prática, uma verdadeira “polícia médica” com poderes coercitivos, que invadia casas com o intuito de eliminar o mosquito responsável pela propagação do vírus.

Fotografia dos “mata-mosquitos paulistas” — Foto: Acervo Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

Mesmo que essas práticas fossem imorais e duvidosas, ele resolveu o problema e a febre amarela foi extinta. Mas na época as pessoas ridicularizavam essa campanha e duvidavam se era realmente um vírus transmitido por mosquito que causava a febre (Novamente, a semelhança não é mera coincidência).

A população até mesmo chegava a organizar fogueiras para queimar colchões, lençóis e outros pertences de quem tinha a doença – prática que foi proibida pelo Oswaldo Cruz, para que as pessoas não pensassem que a queima de colchões tinha acabado com a doença, fazendo uma falsa ligação.

Nessa mesma época também se modernizava a capital, Rio de Janeiro, com a destruição dos cortiços, que eram antigos casarões dos ricos, que depois de abandonados passaram a ser usados como moradia por famílias das classes baixas, muitas vezes de maneira ilegal e insegura. 

Juntamente com a melhoria dos portos, a construção da Avenida Rio Branco, onde antes se localizavam os cortiços, ajudou a trazer os europeus para o Brasil, mas deixou famílias sem um teto sobre a cabeça. 

Óbvio que os cortiços tinha poucas práticas de higiene, mas abandonar as pessoas à própria sorte levou ao surgimento das favelas – em outras palavras, somente tiraram o problema do centro e jogaram para os cantos. 

Brigada de combate ao mosquito, do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, em 1905 — Foto: Acervo Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

Essas atitudes, mesmo não ajudando a população, serviram para diminuir o número de pessoas doentes; isso porque tinham fundo na realidade. Se você considerar as opiniões das pessoas da época, estaríamos até agora queimando colchões e morrendo de febre amarela. 

Imagem de um colchão sendo queimado.
Imagem: reprodução internet

Essa é uma base para começar a conversar sobre o SUS, que será tema de próximos textos. 

Deixo um vídeo no qual eu falo um pouco mais sobre esse assunto:

Deixo também uma recomendação de leitura: Cidade febril: cortiços e epidemias na corte imperial, um livro do Professor de História Sidney Chalhoub.

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