Cidade linda ou cidade limpa?

|Por: Timóteo André da Agência Jovem de Notícias, Vitória (ES)| Foto: Rovena rosa / Fotos Públicas (26.06.2017)

É noite. Umas 22h30 ou 23h. É tarde. Estou na condução em direção ao meu longínquo município, passando pelo centro da cidade de Vitória, Espírito Santo. Estou cansado. O dia foi longo e exaustivo, tendo que me dividir entre o trabalho e os estudos. É tenso.

De repente, olho pela janela. Já estávamos saindo do centro e nos aproximando da margem da cidade. Vislumbro caminhões pipas, estão molhando as calçadas.

“Engraçado”, pensei, “estão molhando em apenas alguns pontos da calçada”.

Fiquei curioso com aquilo. Pensei por muitos dias até que, conversando com um amigo, ele me revelou qual era o sentido: “é para afastar as pessoas em situação de rua que transitam pelo centro à noite, o objetivo é espalhá-los”.

“Estranho”, retruquei, “quem faz isso? Alguma empresa privada?”

“Não, a prefeitura.” Ele respondeu.

No dia 21 de Maio de 2017, na cidade de São Paulo, a gestão do Prefeito João Dória, em parceria com a gestão governamental de Geraldo Alckmin realizou uma mega operação anti-crack em que a polícia civil e polícia militar entraram na região conhecida como “Cracolândia”, expulsando os indivíduos que ali viviam.

O termo Cracolândia, reconhecido popularmente, faz associação ao crack, droga conhecida por sua ação no sistema nervoso central e danos físicos e psicológicos de curto e longo prazo.

As cenas são chocantes. Tiros, bombas, demolição de prédios, destruição de pertences dos moradores da região… uma verdadeira expulsão.

A psicóloga e mestre em psiquiatria Heloísa Dantas, conta que a adoção de medidas brutas relacionadas aos usuários de crack é muito perigosa. Heloísa acredita que a política pública deve contemplar todos os setores da sociedade. “Não adianta achar que o consumo, é o único problema, precisamos pensar em toda uma política de habilitação e trabalho para pensar em redução de danos”, explica.

Além disso, a maioria das pessoas associadas à cracolândia se encontram em situações de vulnerabilidade social. “Existe um ‘perfil’ comum relacionado a  cracolândia, em que as pessoas geralmente vulneráveis, moradores de rua, e minorias raciais, sofrem por preconceitos, discriminação e estereótipo aos olhos da sociedade”, conta Heloísa.

O atual prefeito da cidade de São Paulo, com a ação na Cracolândia, aprofunda a compreensão de para quê veio este gestor do setor privado que hoje desempenha uma função tão importante da vida pública.

 

Cidade linda, cidade limpa?

E para que veio este homem? Veio com uma atitude “redentora” da pior possível, com o desejo de construir uma outra São Paulo, a sua imagem e semelhança, se achegando no mais vil populismo, anunciando status de Messias purificador de todo o pecado da cidade paulista.

Afinal, este é nome de seu programa, “Cidade Linda”, em que a tônica é limpeza de todo o patrimônio, passando pela limpeza de determinados corpos. Em resumo, estamos diante de um “faxineiro social”.

Me parece que se espelhou em Jânio Quadros e seu desejo de limpar o Brasil, trazendo consigo o símbolo da vassoura. Dória, como o primeiro, se “aproxima” da população trajando roupas de Gari e limpando as ruas, como Jânio e suas visitas às fábricas, com roupas simples e seu cabelo com “caspa”. Um populista e dos piores, devo dizer.

Em seguida, não bastando “limpar” as ruas, Dória parte para limpar as paredes. A cidade cinza de fumaça recebe o cinza da tinta também das paredes. O grafite e o pixo não mais gritam, tudo está cinza.

E esse povo, esse corpo, não cabe na cidade que o então prefeito Dória deseja construir. Não cabe esse tipo de arte – o pixo e o grafite -, sendo melhor as paredes cinzas do que as coloridas e vibrantes.

Eis a cidade que Dória deseja: Uma cidade limpa. Mas limpa de que? De cultura periférica, de corpos periféricos, das vozes dos excluídos. Eis a cidade de Dória, um lugar criado à sua imagem e semelhança, com sua lei e moral. Realmente, Criolo está certo, não existe amor em SP.

 

Jefferson Rozeno
21 anos, estudante de jornalismo, estagiário de comunicação e marketing

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