O caso do carvão na COP26

Uma análise do papel fundamental do carvão como causa das mudanças climáticas e os pontos críticos do acordo sobre carvão alcançado na COP26.

Por Enrico Chiogna

Tradução: Patrícia Jatobá

AS NOTÍCIAS

As notícias da semana passada podem parecer encorajadoras: conforme relatado por vários jornais internacionais e pelos rumores nos corredores da conferência, delegados de mais de 40 países que participaram da COP26, em Glasgow, chegaram a um acordo para eliminar o carvão como fonte de energia fóssil de sua matriz energética até 2030 para os países desenvolvidos e 2040 para as economias em desenvolvimento.

Até aí tudo bem, pode-se até gritar um milagre dados os precedentes, não fosse pelo fato de que os principais produtores e consumidores de carvão, notadamente China, Índia, Estados Unidos e Austrália, decidiram optar por não aderir à meta.

O RÉU

O carvão desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do mundo como o conhecemos no Ocidente: a Primeira Revolução Industrial inglesa, no final do século 18, um dos principais pontos de inflexão na história da humanidade, foi impulsionada pelo uso do carvão como um combustível para geração de energia mecânica. As inovações desse período, que se alimentavam das pedras negras resultantes da sedimentação das gigantescas árvores do Carbonífero (nomen omen!), prometiam possibilidades inesperadas e surpreendentes de substituição do trabalho humano.

Assim, elas foram bem exploradas.

Com o passar do tempo, o uso de combustíveis fósseis permitiu que a humanidade desfrutasse de condições materiais de vida muito melhores do que seus ancestrais. Desde a eclosão da Revolução Industrial, o fascínio da humanidade pelo carvão não mostrou limites por pelo menos 200 anos.

Apesar das inovações tecnológicas e da descoberta de novas fontes de energia, começando com o ouro negro (Petróleo) do século 20 e continuando com o desenvolvimento de tecnologias de energia de baixo carbono na virada dos séculos 20 e 21, o carvão atualmente é responsável por mais de um quarto da produção global de energia e ainda é a maior fonte de geração de eletricidade em termos relativos. 

A eliminação gradual do carvão parece muito distante, embora em termos absolutos, um platô pareça ter sido alcançado na última década, à medida que a consciência de seu papel na produção de gases que alteram o clima foi aumentando lentamente.

OS EFEITOS DO CARVÃO NO CLIMA

O carvão é a fonte de energia mais prejudicial para o clima e a saúde humana, e não só por causa de suas emissões de dióxido de carbono, que são 164 vezes maiores do que a energia solar (que também é mais barata) para a mesma produção de energia. Na verdade, estima-se que a produção de um TWh (Terawatt-hora) – a unidade de medida de eletricidade que encontra na sua fatura de eletricidade, multiplicada por mil milhões, representando o consumo médio anual de eletricidade de 27.000 cidadãos europeus – de eletricidade de carvão gera 1.230 vezes mais mortes prematuras do que a energia solar e 350 vezes mais mortes prematuras do que a tão alardeada energia nuclear. Essas estimativas levam em consideração tanto as mortes geradas por acidentes nas diversas etapas da produção de energia, quanto as mortes geradas pela poluição do ar, prevalentes no caso do carvão.

Se considerarmos as emissões totais de dióxido de carbono, o principal gás das alterações climáticas, nos últimos 170 anos, o carvão é certamente responsável pela maioria relativa destas, dado o seu uso extenso e contínuo ao longo de dois séculos e a sua elevada intensidade carbônica.

O DESAFIO

É evidente que as tentativas de reduzir o uso de carvão, dados os lados negativos e a disponibilidade de alternativas, foram numerosas, mas quase sempre obtiveram resultados ruins: dependência de planos nacionais causados ​​pela má coordenação internacional e o lobby das indústrias de carvão nos principais países produtores levou a desenvolvimentos lentos e insignificantes. Ver, por exemplo, a capital australiana, que tem um enorme potencial na produção de energia solar, mas está presa no círculo vicioso do carvão por pressão política do lobby. 

Além disso, nenhum deles foi motivado por questões ecológicas ou éticas, mas principalmente por avaliações econômicas cinzentas que estão nos levando à beira da catástrofe. Paradoxalmente, nos últimos 10 anos as energias renováveis ​​têm sido a fonte de energia mais barata para a produção de eletricidade e estão finalmente ganhando o espaço dos combustíveis fósseis, apesar do fato de as empresas de combustíveis fósseis receberem trilhões de dólares todos os anos para garantir a produção contínua de energia (o que não é viável, por exemplo, com energia solar e eólica), sufocando o planeta com o CO2 que eles produzem.

AS CONSIDERAÇÕES

A COP nunca brilhou pela eficiência dos seus resultados, sendo importante sublinhar que pela primeira vez foi assinado um acordo internacional para a eliminação gradual do carvão, colocando uma questão fundamental e complexa na mesa de negociações dada a fascinação irresistível do homem pelo carbono, apesar de ele ter poluído e matado tanto.

É impossível, no entanto, não ser muito crítico em relação aos atores que anularam este acordo, visto que ele não inclui os principais produtores e usuários de carvão (cada um dos quais teria, em qualquer caso, espaço de manobra suficiente para contar com os outros fontes de energia renováveis), e da escolha de palavras, uma vez que não estão previstas metas vinculativas.

Assim, embora seja pelo menos um ponto de partida, o acordo carece de substância e linhas operacionais. Por enquanto, na verdade, esse acordo é um desperdício de papel.

Há, no entanto, motivos para esperança: há poucos dias os países do G20 definiram um acordo para eliminar os investimentos estrangeiros na indústria do carvão (aceito também pela China) e a grande participação de economias emergentes no acordo de Glasgow pode indicar sua intenção de fundamentar seu desenvolvimento em bases diferentes da ocidental, que em sua opulência acabou intoxicando o globo inteiro.

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