Saneamento básico em Maceió

O ativismo climático não curte muito os pobres

Você deve saber que falar de clima é algo relevante, mas já parou para pensar em quem está no centro desta pauta?

Por Vitória Rodrigues de Oliveira

Em janeiro de 2021, passaram-se dez anos desde a minha memória mais marcante relacionada ao jornalismo e meio-ambiente. Naquele tempo, eu só tinha seis aninhos de idade: segundo a sociedade adultocêntrica, eu era “pequena demais” para entender coisas “grandes demais”. Mas de certa forma, a pequenina Vitória sabia que algo de muito errado estava acontecendo e que, o que meus olhos viam, com dor, poderia ter sido evitado.

A imagem daquela mulher tentando segurar aquela corda junto de seus vizinhos, nunca saiu da minha cabeça. Na época, eu tinha um companheiro canino chamado Pulguinha e fiquei me perguntando o que faria se ele morresse daquele jeito, arrastado pela água, que assim como pode nos dar vida, pode acabar com ela em questão de minutos. Comecei a chorar e fui pro quintal, dar um carinho nele. Nunca me esqueço disso. Como algo que pode nos dar vida, também pode acabar com ela em questão de minutos?

A tragédia a qual me refiro é a da Região Serrana do Rio de Janeiro, onde, os dias seguintes a 11 de janeiro foram marcantes. Mesmo sendo a maior catástrofe climática de todo o Brasil, tendo 918 mortos, sinto que foi apenas mais um evento triste para a história do país. É como se ninguém ligasse, mesmo! E apesar de mais de 30 mil pessoas terem ficado desalojadas, muitas delas ainda aguardam auxílio do governo, o qual ainda não chegou. É como se essas pessoas não fossem, simplesmente, ouvidas.

E assim como essa e tantas outras tragédias climáticas, como a do Morro do Bumba em Niterói no ano de 2010, são ignoradas. Eu não ouvi falar do que aconteceu na escola, e nem se ensina às pessoas que o que rola não é um mero acidente. É resultado de um sistema que não liga pra você que perdeu seus imóveis para enchente, e não sabe o que é racismo ambiental. Quem se importa se você vê notícias sobre a situação atual do meio-ambiente no Brasil e percebe os efeitos da eco ansiedade, um sentimento crônico ligado à crise ambiental, no seu corpo?

Foto: Climainfo

“Enquanto você quer ser escutado por ter crescido com os efeitos da crise climática em São Gonçalo, as mesmas pessoas de sempre vão estar decidindo o seu futuro em Glasgow.”

A gente que vive nesses lugares que mencionei aqui, não é ensinado a pensar criticamente na escola da esquina. Se isso rola, é raridade! Mas não é nada difícil ver seus vizinhos se acostumarem com os picos de queda de luz no verão, sua família com um boleto de valor alto mesmo com a falta de água da companhia de abastecimento, e, acima de tudo, ver o teu próprio pensamento naturalizar suas crises de asma devido à queima de montanhas recorrentes de lixo pelos próprios moradores da sua cidade.

De tanto ficar cansada, eu comecei a fuxicar coisas, mandar e-mails. Eu queria fazer alguma coisa pelo lugar em que moro, que parece ser ignorado todo santo dia em diversos espaços.

Se eu via que na TV a Greta poderia, por que eu não?

E descobrindo um tanto do ramo do ativismo climático, vi que, com toda a certeza, o porquê eu não poderia saber como poder. É que, infelizmente, não nasci em uma família de classe média, nem estou estudando Relações Internacionais na faculdade, muito menos moro em um lugar afastado do centro da cidade e tampouco tenho uma lista infinita de contatos. Ignorada, eu?!

Mesmo vendo a Greta sendo uma das principais faces de um movimento que puxa manifestações no mundo todo, arrastando multidões junto a ela, eu, Vitória, não chego perto dela. Não chego. E quando você puxa a pauta do ativismo climático para o nosso ‘Brazil’, se você é um corpo sem privilégios, as coisas desanimam. E muito. Sempre vejo muita gente do ramo se perguntando:

“como fazer com que mais pessoas se juntem ao movimento?”

A resposta para essa pergunta é extremamente simples: colocando pessoas como elas no centro do rolê. Se você não tiver isso, não vai ter adesão e ponto.

Acho que descobri isso e muitas outras coisas de uma maneira bem chata, sabe por quê? Porque se você é apenas um adolescente da periferia e não um ativista branco de classe social privilegiada ou europeu,  você não importa tanto. Não fala inglês? Poxa, que pena pra você. Se tu não tem dinheiro pra ter uma carteirinha de ativista climática, você não vai ser isso. Se você mora na periferia de um Estado famoso, o que você relata não tem relevância porque na visão de quem tá de fora, você tá num espaço privilegiado.

E de fato, o Rio de Janeiro tem holofotes gigantes, imensos. Porém, esse Rio que todo mundo conhece é o da televisão. Se você é de fora, vai conhecer Copacabana, Ipanema, Leblon, coisas das novelas da Globo. A periferia que você vai conhecer pode ser até o Méier, também por conta de uma produção da Globo. Mas cara, tu conhece Magé, de alguma coisa da Globo?

É como se o Rio de Janeiro que as pessoas conhecem fosse APENAS uma das praias famosas e ponto. Mas se você mora num lugarzinho ruim, éhhh… bom, vamos te chamar pra esse evento, pra você falar como é pobre e falar das tristezas climáticas do ponto de vista de um pobre. Além disso, também vamos usar suas imagens para nos divulgar, pois aqui é #diversidade, rapaz!

E tudo isso é um absurdo. As pessoas de fora querem falar sobre o que você supostamente vive, sem você, e isso é nojento. A verdade é que tem muita gente legal no ativismo climático e que amo de coração, mas tem outra parte que “só Jesus na causa”. É disputa de narrativa, palanque, vitimização, desmerecimento, dedo na cara e gritaria. Esse texto, inclusive, também tem um tanto disso.

Ignorando todos os problemas, você vai naquele evento, com aqueles jovenzinhos bonitos e fofinhos palestrando, vendo a potência deles, é tudo de uma forma mágica, linda, xuxu beleza! É bonito até você perceber que poucos tão ali por questão de sobrevivência real oficial, alguns querem fotos e extracurriculares, daí outros que querem apagar quem sofre a verdade da crise do clima na pele.

E mesmo sendo muito hipócrita da minha parte (reconheço meus erros), o que você espera daquelas pessoas comprometidas pelo clima na viagem X?

Eu digo todas essas coisas porque eu sempre senti que a minha voz foi invalidada pelo fato da periferia ser um puro imaginário na cabeça das pessoas que não vivem a especificidade do meu lugar. Foi e ainda é muito difícil tentar resistir nesses espaços.

Atualmente, enquanto escrevo, o meu ânimo de resistir em espaço x já não é o mesmo de antes, porque se o que eu e outros experienciam não importar para quem decide, já era.

Apesar de tudo, todavia, mas, porém, nesse mês de março eu e mais quatro amigos finalizamos a primeira plantação do Brota no Clima, projeto do Engajamundo e financiado pela Samambaia Filantropias.

Esse foi o primeiro projeto de educação climática de comunicação no Brasil voltado para a juventude periférica.

Considero esse programa uma revolução, mas é triste pensar que se a população de baixa-renda é a que mais sofre com a crise do clima, por que isso só está acontecendo agora?

Depois de seis meses com encontros, oficinas, kits na casa dos participantes, reuniões, capital-semente, discussões internas, mentorias e etc etc, nossos Brothers estão plantando suas próprias coisas: o podcast socioambiental Pod Passar A Visão; o documentário O Preço do seu Luxo; o jornal Clima de Perifa; a conta no Instagram Marcha Periférica.

Assista o documentário O Preço do seu Luxo:

Ouça o podcast Pod Passar a Visão:

Foto: Carolina Gonçalves / Agência Brasil

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