O anormal é no fundo um monstro cotidiano

O estranhamento demonstra que nunca temos tantas certezas do que somos, basta uma crítica para as inseguranças aparecerem. Quando a ridicularização das diferenças se torna espetáculo, é uma tentativa pura de desvanecer questões que são do Eu e não exatamente do Outro, mas em nós, no Eu.

Por Reynaldo de Azevedo Gosmão

Por que evitamos olhar o “estranho”? Foucault, em sua obra Os Anormais (1975), realiza um percurso histórico sobre as organizações sociais no século XIX, principalmente sobre a questão das deformidades humanas que eram exibidas publicamente em feiras populares, momentos esses que eram encarados como diversão popular por evocar os olhares curiosos dos espectadores. 

Na década de 1880, chegou- se ao auge da exibição do anormal em exposições dos “extraordinários”. Foucault (1970, p.70-71) conceitua que o “monstro é o modelo ampliado à forma, desenvolvida pelos próprios jogos da natureza, de todas pequenas irregularidades possíveis. E, nesse sentido, podemos dizer que o monstro é o grande modelo de todas as pequenas discrepâncias”. 

No filme lançado em (2017) com o nome de Extraordinário, a narrativa principal é sobre uma criança chamada Auggie Pullman que nasceu com uma deformação facial e que lida constantemente com a sensação de ser sempre observado e avaliado por todos à sua volta.

Cena do filme ‘Extraordinário’ / Reprodução

Este filme nos permite interrogar sobre qual é a ordem da experiência estética: É o belo que visamos?

A partir da obra freudiana O Estranho (1919), podemos questionar se o ideal de belo na experiência estética denuncia a ilusão narcísica perpetuada pela arte mimética (com a representação da perpetuação da vida) omitindo-se nas qualidades do sentir.

A estética que nasce da experiência com o estranho, permite conjecturar uma experiência da estética despida da ilusão do belo, da harmonia e do bom, pode-se dizer que o estranho faz ver a dimensão pulsional da experiência da arte.

O estranhamento demonstra que nunca temos tantas certezas do que somos, basta uma crítica para as inseguranças aparecerem. Quando a ridicularização das diferenças se torna espetáculo, é uma tentativa pura de desvanecer questões que são do Eu e não exatamente do Outro, mas em nós, no Eu, “o anormal é no fundo um monstro cotidiano”

Referência:

FREUD, Sigmund. O Estranho. (1919) Edição Standard Brasileiras das Obras Completas de Sigmund Freud, v. 17. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

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