Nós, amazônidas, podemos falar? Reflexões sobre a crise climática nas Amazônias

Quando falamos da relação entre a crise climática e a Amazônia, precisamos entender as histórias e a trajetória de luta dos povos que habitam a região.

Por Ana Rosa Calado Cyrus

A crise climática precisa ser vista também como uma crise civilizatória, justamente por ser um resultado das inúmeras ações que foram realizadas pelo modelo que rege a sociedade atualmente.

Os problemas socioambientais que surgem por conta desta crise são inúmeros e não podemos afirmar que todas as pessoas são atingidas da mesma forma pelos efeitos;, afinal de contas, precisamos pensar em recortes distintos que surgem a partir de diferentes realidades. Vivemos um tempo em que os eventos climáticos se tornaram cada vez mais corriqueiros e extremos. A gente não pode esquecer de falar sobre o recorte de GÊNERO, CLASSE E RAÇA quando começamos a falar disso, pois afinal de contas corpos distintos sentem a crise de formas diferentes.

A crise está bem aí: consome o Pantanal e a Amazônia com chamas, viola territórios e perpassa por muitos outros setores da sociedade que só mostram com maior intensidade que nossos passos estão levando a humanidade para um caminho que em determinado momento não será possível encontrar um retorno. 

Quando fala-se da crise climática na Amazônia, é preciso então se realizar um exercício de entender histórias e trajetórias que configuraram a região.

Porto-Gonçalves (2017), discute que a Amazônia está sendo sujeitada a alterações significativas devido aos acontecimentos que se desenharam nas últimas décadas. O padrão colonial e hodierno de desenvolvimento ameaça constantemente as diversidades da região, ocasionando em problemáticas socioambientais das mais complexas que atingem os sujeitos locais, suas vivências, saberes e práticas que estão interligadas com a natureza.

A Amazônia é posicionada dentro de uma gama de países periféricos do ponto de vista capitalista, de forma que suas minúcias são submetidas a um processo de silenciamento, lhe retirando até mesmo a autonomia de narrar suas próprias andanças, preponderando, acima de qualquer saber, a definição e visão de quem silencia, coloniza e violenta.

Quando se busca falar sobre a Amazônia. não são os seus sujeitos os protagonistas.

Imagem mostra indígenas em ato contra avanço da exploração. Um homem com o rosto pintado segura um cartaz escrito "diga não". Um homem com rosto pintado usa cocar de penas pretas, azuis, vermelhas e amarelas e segura artefatos indígenas.
Foto: Anderson Barbosa / Fotoarena 

O poder de voz que permite falar da terra, das vidas, anseios e narrativas é destinado a quem está fora, raras as vezes a quem pertence. O autor reitera que enquanto Natureza, a Amazônia previamente já está destinada a ser objeto de domínio do Homem. Essa dominação não vem de todos os homens, mas dos que estão dentro das normativas que são estabelecidas pelo padrão colonial – europeus, brancos e da elite burguesa.

Essa questão, movimentada por uma série de opressões e segregações, assola trajetórias e também diz muito sobre quem são as pessoas que sentem a crise com maior intensidade e quem são as que podem falar sobre ela.

Diante deste quadro que busca a manutenção do poder, é possível afirmar que existem, segundo Souza (2015), a existência de práticas espaciais insurgentes, sendo estas ações desenvolvidas em  por sujeitos em meio coletivo que são desenhadas em uma gama de sentidos e visões nas quais as dimensões espaciais são latentes e particularmente notórias, enfatizando que esta dimensão aqui está para além de um instrumento neutro, pois representa uma realidade condicionante por meio do material, das relações de poder existentes, que estão inscritas em limites e fronteiras, somados aos significados e saberes incrustados neste por meio dos processos realizados pela sociedade.

A existência de práticas que representam resistências e a busca pela superação de sistemas opressores,  de forma que lutam contra a soberania de um determinado grupo são recorrentes, como coloca o autor.

Então, sabendo que existem lutas que ocorrem em territórios diferentes e que estas geram mecanismos de resistência, é possível afirmar que existem ativismos climáticos, que são justamente formas de lutar pelos territórios, práticas e saberes que a crise busca engolir diariamente e tentar silenciar a diversidade!

Importante dizer que não podemos ler essas práticas de resistência a partir de uma única lente.

 São plurais, carregam histórias, trajetórias e não há como colocar todos em uma única caixa e dizer que possuem as mesmas essências. São pautas que surgem de diferentes lugares, que reivindicam determinadas questões. Mudam cidades. Mudam campos. Mudam vidas. Mudam mundos.

Por meio de práticas de resistência, a Amazônia – com todos os saberes e dimensões – se mantém construindo histórias que se contrapõem à lógica capitalista, e assim concebe novas alternativas de ler-se as realidades. Nos revela possibilidades de construir novos mundos com base nos mundos que ali se fazem concretos.

imagem mostra vista aérea da floresta amazônica e Rio Amazonas.
Foto: Sidney Oliveira / Agência Pará

Se vocês fizerem silêncio é possível escutar a solução pra crise climática sendo sussurrada pelos ventos, sendo cantada pelos povos e narrada pelos mais antigos. 

A solução está aqui na minha terra, na raiz do meu povo. Mas o mundo insiste em dizer que não devemos falar. E você… acha que podemos falar?

Arte em fundo branco. Na lateral, linhas finas coloridas e foto de uma jovem negra sorrindo. Texto "Ana Rosa Calado Cyrus. Pedagoga, pesquisadora e ativista de Belém-Pará/Brasil. Coordenadora do GT de Gênero do Engajamundo e Mestranda em Geografia-PPGG/UEPA. Membra dos Grupos de Pesquisa Educação e Meio Ambiente e Planejamento, Gestão Ambiental e Ensino de Geografia - Plangea. Pesquisas relacionadas a ativismos urbanos,. movimentos socioambientais e juventudes na Amazônia."

Esse texto foi escrito a partir das reflexões geradas durante a Maratona Dia do Profissional do Clima, que aconteceu no dia 24 de novembro de 2020, da qual a colunista participou de forma remota em respeito às regras de distanciamento impostas pela crise sanitária provocada pelo avanço da Covid-19.

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2 Comentários

  • Parabéns para a autora, excelente reflexões. Os problemas enfrentados pelo povo da Amazônia, precisa precisa ser discutido e colocado em evidência. Não podemos calar nossas vozes. 👏👏👏🌳

  • […] Nós, amazônidas, podemos falar? Reflexões sobre a crise climática nas Amazônias – Por Ana Rosa Calado Cyrus […]

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