Neste mês amarelo, falo de minha avó

Estamos em um mês em que muito se fala de saúde mental, mas estamos falando de todo mundo?

Por Vitória Rodrigues de Oliveira

Eu estava na minha última semana de aulas totalmente virtuais da escola. É às dez e quarenta da manhã e estava na minha aula de inglês com entusiasmo, porque é uma das minhas favoritas. De repente, mesmo com o fone no volume 100, ouço um barulho que foi muito estranho.

Mandei um aviso para a professora via mensagem privada que voltaria rapidinho, mas não imaginava que aconteceria aquilo diante dos meus olhos.

Abri e fechei as duas portas que me levam do meu quarto até a entrada da casa, que é pela sala. Lá, eu tomei um susto porque achei que não seria nada, ou se fosse apenas um objeto caído com o vento: na verdade, era uma pessoa caída pelo devaneio dos pensamentos que a levou a estar no chão pelo que chama de ‘flash muito branco’.

De lado, o andador imóvel, e do lado dele, na entrada da porta da sala, havia uma mulher que passou por muita coisa nessa vida caída. Essa não era a primeira (e que sei que não será a última) vez que a via daquele jeito. Deu muita vontade de chorar na hora, mas resolvi engolir as lágrimas para não deixar a minha avó ainda mais nervosa.

A dona Raymunda veio com cerca de 16 anos de idade pro Rio de Janeiro. Sem pai e sem mãe, largou o Piauí para tentar uma vida aqui – e teve. Criou cinco filhos sozinha, vendeu cocada na rua, trabalhou em hotel, foi babá, cozinheira de mercado. Sempre cuidou muito bem das coisas, teve uma vida muito independente. Mas de uns anos pra cá, nem tanto.

Dona Raymunda no espelho

Ela também teve três acidentes vasculares cerebrais. Com o tempo, parou de ir ao centro comercial da cidade, de administrar seu dinheiro, de simplesmente andar sozinha. Seus filhos também já não eram todos mais tão presentes, nem todos os netos.

Mesmo com os problemas, ela sempre quis saber de tudo e sempre fala que quando melhorar quer ir ao centro de São João de Meriti. Mesmo com a vontade de voltar à vida que levava antes, a idade passa, e cada vez fica mais difícil para a minha mãe e a minha tia, que cuidam dela, lidar com isso. Minha avó também não sabe, e naquele 13 de setembro, ela queria ir até a varanda, mas não conseguiu e caiu.

Sozinhas em casa, eu não seria capaz de levantá-la só e então gritei a vizinha que veio com o seu neto, e ajudaram a levantá-la. Agradeci pela ajuda, e foram embora. Vi o final da minha aula de inglês do lado dela, e quando minha tia ligou pra saber se estava tudo bem, eu disse que estava. Quando chegou, ficou desesperada de preocupação, assim como a minha mãe.

Pelo resto do dia a minha filha (como eu a chamo imitando a voz da mãe da minha mãe) ficou cabisbaixa, triste por não ter conseguido ir até a varanda. Em um dos únicos momentos sozinha, ela caiu.

E pelos seus pesadelos, sonha que cai quase sempre pelo contexto da vida.

Como todo mundo, ela tem seus dias e dias. Além da minha mãe e da minha tia, eu e meu irmão a acompanhamos. Em alguns dias ela brinca muito, responde, me manda calar a boca pelas brincadeiras que faço com ela. os tudo de perto, assim como a minha prima e o seu namorado. Em outros, a dona Raymunda só nos olha e não abre a boca, como se não quisesse mais estar ali.

Várias vezes ela fala dos filhos, de memórias passadas, ou até de como quer morrer. Desde que seu Alzheimer começou a se desenvolver, ficou assim. Eu deixo ela falar sempre: muitos amigos já se foram, e num contexto pandêmico, mal podemos passear no shopping da cidade, algo que gosta muito de fazer.

Mas Vitória, por que você tá falando da sua avó? É um artigo para falar da vida dela? Não exatamente. Tamo no Setembro Amarelo, mas sinto que pouco se fala da saúde mental dos mais velhos.

Segundo o último relatório epidemiológico do Ministério da Saúde, enquanto a taxa de suicídio da população geral é de 5,8 para cada 100 mil habitantes, esse número sobe para 8,9 quando a gente olha para os idosos. Coisas que vejo muito na minha avó e que são bem preocupantes é a perda de apetite, irritabilidade, dificuldade em se concentrar, esquecimento, desinteresse. 

Se essas coisas estão acontecendo, não é só porque o idoso quer chamar atenção. Se a gente pensa assim ou cogita ter essa linha de raciocínio, é porque tem algo muito errado na nossa sociedade sobre como lidamos com o envelhecimento. E a gente precisa mudar e ficar de olho em relação a como estamos agindo. Isso não muda individualmente, sei disso, mas precisamos fazer o que podemos para proteger os nossos.

No dia em que levou um tombo, minha avó me disse que ela era inútil: não é. Ela é uma das minhas melhores amigas: quando acho que ela vai reproduzir algo ruim da sociedade comigo, ela sempre me acolhe. Frita peixe quando dá, faz fisioterapia, faz a gente soltar boas gargalhadas com as frases que solta.

De vez em quando minha mãe traz biscoito de polvilho, que ela ama. Eu faço brincadeiras com eles!

Meu texto deste mês pode parecer meio raso por não trazer um embasamento tão forte de dados ou algo do tipo, mas não é. Adoro falar da minha avó, passar meu tempo com ela. É realmente uma pena que o resto de seus filhos não veja essa necessidade tão forte de ficar com ela, mas tudo bem. Tudo bem.

Você não é obrigado a amar ninguém da sua família, tampouco passar todo o seu tempo com essa galera: se você não gosta, esse texto não é pra você. Mas se você gosta do seu velhinho, que está na agora chamada de melhor idade, dê atenção pra ele quando puder, nem que seja uma vez por semana, por uns cinco minutinhos.

Sua festa de 80 anos.

Aproveitei pra falar disso agora porque o Setembro Amarelo tá em alta, né, mas eles muitas vezes, assim como a dona Raymunda, precisam de atenção o ano todo: não é só nesse mês, tampouco quando fazem aniversário ou só no natal. Sentem-se esquecidos quando não recebem uma ligação, quando não perguntam por eles.

Cantar Roberto Carlos ou contar piadocas ruins faz toda a diferença na vida dessas pessoas. Fazer graça de esquecimentos e confusões também é algo engraçado: no mês retrasado, ela disse que um dos meus melhores amigos da escola iria emprestar 10 mil reais para um implante dentário. Ela ficou meio envergonhada pela confusão, mas a gente riu muito.

Pequenas atitudes como essas fazem com que eles tenham força para se levantar não só da cama ou do chão, mas pra vida. No dia que ela caiu, mais do que nunca senti vontade de fazê-la ter força para levantar não só do chão, da cama ou do sofá, mas pra vida, que é bonita, é bonita e é bonita.

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1 Comentário

  • Texto incrível! Só quem já cuidou de avó sabe como é…

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