Natureza, perspectivas do feminino e mais um conto da pandemia

Hoje, dia 04 de março de 2021, a cada 45 segundos uma pessoa é assassinada por negligência da existência do vírus. Porém, quantas estatísticas destas temos no Brasil, como o fato de que a cada 9 horas uma de nós morre por feminicídio? A pandemia, além de ceifar vidas sem ar, abre chagas purulentas, infecções que carregamos desde a invasão há mais de 500 anos, violências contra os povos originários, contra a juventude negra, contra a população trans.

Posso lhes contar um pouco do meu ponto de vista, do que vivi, mas sei que é nosso dever resgatar o que todas nós vivemos, em uma pandemia que revela o machismo, a eugenia o racismo em sua forma mais turbulenta e escancarada.

Eu, uma jovem adulta da classe média, branca, protegida em seu individualismo, eu entendi que, diante desse fato, sou desprovida emocionalmente para viver em uma zona de guerra. Mimada e protegida. Aliás, ninguém deveria ser provido disso, ninguém deveria ser provido de viver o caos causado por mãos humanas, não deveriam existir guerras, violências contra seres; porém, naquele momento todos do mundo tínhamos sido sequestrados de nossa própria vida, mas antes disso já não existiam pessoas no cativeiro? Dentre eus e não eus, e dilemas de ego típicos da classe média, haviam hiatos de massacres, que vieram antes de um vírus global; eu tinha que me manter sã, mesmo que meu transtorno generalizado de ansiedade e meu diagnóstico de pânico vivessem à tona, minha mãe estava com COVID-19, e nesse momento eu é quem estava lá. Cuidei da minha mãe, ela sim muito mais forte, pela noite ela também professora não fora dispensada das aulas. Tinha medo, por se tratar de uma instituição particular, de ser mandada embora, fato esse que não iria acontecer em primeiro lugar por ela estar com COVID-19 e em segundo lugar por ter acabado de se aposentar. Mas nós, mulheres cis ou trans, sempre achamos que fizemos pouco demais, dominadas mentalmente por um pensamento de que nunca somos suficientes. Esses crimes foram cometidos por todo o standard do mercado, eu via que estávamos diante de um extermínio anunciado com cara e nome dos algozes. O vírus neste caso era o último a gerar uma síndrome de Estocolmo coletiva.

O torpor insano de fazer tabelas de remédio, de entender sobre remédios e xaropes ancestrais, de cultivar plantas medicinais para fazer chás por não existir nada que pudesse dar pra fazer aquilo parar, a situação de ter que enfrentar as tosses constantes sem saber se iriam parar, o horror de ver minha mãe sem ar e de ainda vê-la trabalhando, e o egoísmo do ouvinte, de quem é dono da produção, ao não perceber a posição daquela professora, da minha mãe, a apreensão de vê-la preocupada com meu mau sono, tudo isso culminou em uma cena específica desse constante afligir, quando ela acordou de madrugada e com o acesso de tosse desmaiou e torceu a mão. Eram 4 horas da manhã. Quando acordei, seu braço estava inchado, e ela não queria ir ao hospital; tive que lembrar de coisas que aprendi durante a vida para criar uma tala. Meu irmão, não posso julgá-lo: ele ajudou a fazer compras e trazer remédios, mas deixava na porta, tocava a campainha e saía correndo. Ele é fumante e tem pressão alta. Mesmo que eu não tivesse nenhuma comorbidade, apenas uma fibromialgia, eu cuidei dela, mas como isso fosse natural para minha posição como corpo lido como feminino. E, nessa situação, depois de 17 dias ela conseguiu sair daquele estado e logo depois eu parei no hospital, por meio dia fiquei lá tomando Valium, e dopando o que restava da mente destruída pela situação. 

Outro fato: eu voltei a ter Transtorno Obsessivo Compulsivo e minhas mãos ficaram em carne viva por conta da higienização constante, mesmo que ela não fizesse sentido em alguns momentos. Não consegui me isolar por completo da minha mãe pois a COVID-19 é uma doença muito solitária, mas assim que tive que voltar a pegar metrô e ônibus a situação de lotação era tão absurda que acho que criei um mundo que só funcionava na minha cabeça, onde eu era imune à doença, pois mesmo com toda a proteção possível, o distanciamento no transporte público era impossível.

Simultaneamente, participei como maker da construção de um respirador mecânico para o tratamento da COVID-19. Eu e meu amigo Marcos, junto com pessoas do mundo todo, criamos essa máquina, hoje com muitos downloads principalmente na região da Argélia e Mali. É um hardware livre, foi o que bolamos para tentar ajudar a situação que também poderia ter sido a da minha mãe caso ela não tivesse se curado.

Imagino que estou em um contexto muito privilegiado, onde tenho acesso a psiquiatras e analistas, hospitais particulares. Sou com certeza uma exceção. Imagino sem sentir na pele o que acontece nos corredores dos Prontos Socorros públicos, onde meus educandos estão, conduzidos por televisões e muitos deles confiando em teorias conspiratórias, ou até mesmo agindo de forma fatalista sem enxergar o presente do futuro, sem máscara, sem dor, entendendo que todo o minuto é o último, alguns logicamente se protegendo ao máximo, alguns tendo que carregar Rappi, iFood, essas empresas sem nenhuma preocupação real em relação à precarização que causam, para festa clandestina de blogueira. Essa era a situação das minhas crianças, dos pais delas, que não tinham nem internet suficiente para ver minhas oficinas. Algumas mães mandavam seus filhos para a ONG pois os recursos, inclusive para alimentação, estavam escassos; não tinham mais o auxílio, ou, graças a um sistema falho, não o receberam, e também não tinham como manter outras pessoas que acolheram durante a pandemia…

Um retrato da pandemia – Amanda Pellini/arquivo pessoal

Fiquei sem emprego durante 5 meses da pandemia. O primeiro que aceitei foi para dar aulas e robótica e informática em uma ONG, onde a princípio as proteções eram extremas, ainda não tínhamos as crianças lá. Porém, o governo do município autorizou o retorno de 30% delas. Antes disso, gravava pequenas vídeo-aulas que alguns conseguiam assistir e outros não. Para alguns, tínhamos que mandar material didático e apostilas impressas. Mais ou menos 30% não tinham acesso à internet. Quando alguns puderam voltar ao local, eles não tinham muita disciplina com máscaras nem nada, mas aos poucos fomos ensinando. Quando algum aparecia com febre, nem poderia entrar na instituição, mas às vezes aquela criança tinha sido deixada pela mãe e não tinha quem pudesse buscá-la se estivesse com febre: a mãe estava trabalhando, às vezes em dois empregos. Outra coisa curiosa dentro dos grupos de pais da instituição é que quase não havia pais, e sim 97% de mães. Os pais iam às vezes buscar as cestas básicas, mas na maioria das vezes eles não existiam de forma presente na vida daquelas crianças. Quem lidava com todo o resto eram as mães, mesmo com suas jornadas triplas.

O que me faz pensar em uma chama de esperança. Pode ser loucura, mas vendo ações como essas  e pensando nas Mães da Favela da CUFA, a minha esperança é que todos leiam a Carta da Terra escrita em 1992. Vamos pensar comigo: a devastação e a poluição fazem o ecossistema todo se desestabilizar e assim animais mudam de habitat. Foi assim que um vírus de morcego veio parar na cidade, assim como todos os outros dessa proveniência. Precisamos cuidar da forma como usamos a palavra mãe e ampliar esse conceito.

Vendo a força que minha mãe fez para se manter esperançosa, vendo o coletivo de mães unidas, vendo a ação de encararmos todos os filhos como filhos nossos, e isso que a mãe terra é, ela está sendo abusada. A terra está em uma relação abusiva com “O” ser humano.

Temos que retomar a relação de cuidado, de afeto, de amor; amor esse que julgo não ser só das mães, mas todes nós temos que ser mães independente do que somos, na relação mais profunda da palavra, no seu senso de proteção, no cuidado com si e com o próximo, como se todes tivessem carregado todes por 9 meses. Não somos melhores que as outras espécies, nossa evolução não é o pinçar dos dedos; nossa evolução deveria ser a compaixão. E é isso que me dá a esperança, o retorno da nossa espécie de forma humilde à natureza.

Amanda Pellini (@prof_amandacmp) é educadora social e professora do ensino médio e técnico na cidade de São Paulo – SP. Co-fundou e integra o coletivo sanga de educação criativa e democrática.

Essa crônica foi editada a partir da íntegra da entrevista que Amanda concedeu à AJN para a composição do material Especial 8M: mulheres no front, produzido pela redação da redação para marcar o dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras de 2021.

Edição: Luiza Gianesella

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