Nativos da era digital

A Internet hoje é o maior banco de dados da história humana – a biblioteca que contém as maiores bibliotecas – mas em contrapartida ainda é preciso defender que a Terra é redonda e que não há como implementar um chip espião por meio de vacina

Por Lucas Schrouth

O mundo em linguagem binária

A evolução tecnológica é uma constante da história humana, pois é próprio da humanidade criar meios para expandir sua atuação neste planeta – e agora em outros. Entende-se tecnologia como tudo aquilo criado a fim de melhorar, tornar mais eficientes as tarefas e ações humanas, portanto, desde um pregador de roupas até um banco gigantesco de armazenamento de dados digitais, tudo isto é tecnologia.

A guerra, mais especificamente o medo da morte e o repúdio a vergonha de aparentar ser inferior a outras nações foram fatores que impulsionaram decisivamente o avanço tecnológico.

Isso mesmo: o avanço digital não foi algo pensado num desenho universal para melhorias das condições de vida, mas para atacar, defender, expandir e retalhar. Nisso encontra-se a impessoalidade dos dados eletrônicos, que tecnicamente não passam de estalos positivos ou negativos de energia.

Tendo tudo isso em vista, diversas pesquisas têm sido feitas nas áreas de psicologia das redes e dados, a filosofia das inteligências artificiais e a digitalização consciente.

É preciso pensar na garantia dos direitos fundamentais neste ambiente todo em expansão, visto que as grandes corporações seguem atuando e aperfeiçoando suas técnicas de manipulação em massa – implicações legais e morais se incluem nesta questão. Como poderei exercer o livre exercício de expressão se este é influenciado por fatores que não conheço?

imagem mostra tela de programação de sites em linguagem HTML.
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay 

Esta é uma facilidade que tem preço e é bem alto: nossas vidas são diariamente controladas por algoritmos invisíveis programados por pessoas que provavelmente nunca veremos.

De fato, a tecnologia tem suas vantagens – e não são poucas – mas também tem seu custo que muitas vezes não é capital e sim comportamental.

Cada vez mais nossas ações giram em torno e se tornam dependentes do meio digital, é preciso pensar uma educação que promova um verdadeiro pensamento computacional – não há mais a absoluta necessidade de se ensinar a usar um smartphone, mas sim a deixá-lo de lado de vez em quando.

Efeitos Sociais

Ao contrário da sociabilidade, é isto que encontramos nesta era digitalizada. Na contramão do que muitos que estudam o comportamento das sociedades acreditavam, a nossa geração que pode se comunicar com pessoas do outro lado do mundo, por vezes ignora quem está ao lado.

Não é que ninguém se fala mais ou se cumprimenta olhando nos olhos, é que quando as relações pessoais tornam-se totalmente mediadas por tecnologias há a tendência de se esquecer que existe uma pessoa por trás da tela – a realidade não se constitui de bytes.

imagem mostra mão feminina segurando um celular fotografando um globo com várias fotos de pessoas.
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay 

O linchamento virtual, a perseguição em massa e o assassinato de reputações têm crescido, o ambiente virtual é próprio para a distribuição de ódio gratuito por parte daqueles que entram na rede já com este propósito ou que são facilmente levados pela onda de lama.

O porquê da ira descarregada está no fato da impunidade (em razão do anonimato) e na ideia inconsciente de que não se causa um dano real, pensamento este que só fomenta o cyberbullying com o pretexto de justificá-lo. Há diversos relatos e histórias de como o uso nocivo de redes sociais e afins destruíram áreas das vidas de muitas pessoas e situações piores ainda, onde o dano se tornou irreversível.

As redes sociais e seus adereços atrativos são o que podemos nomear de “a maior vitrine embaçada da história”.

O motivo disto é que todo debate promovido nas redes tem a tendência de não produzir nada, isso porque a maioria das pessoas que estão ali num debate informal entram nestas discussões com a pior vontade possível de ouvir e entender o outro – quando ambas as partes entram num debate sem a mínima intenção de ouvir o outro, o que há ali é apenas um monólogo compartilhado carregado de pré-julgamentos.

Informação ou desinformação

As redes sociais estão para a mentira, como o álcool está para o fogo.

Não se trata de qualquer mentira que pode ser facilmente desmentida – a mentira sobre coisas ou entes públicos – mas do processo de desinformação. A inverdade fundamentada na mais profunda distorção de fatos reais, conclusões que surgem de bolhas e que logo se espalham – no fim ninguém sabe de onde veio, mas todos tomaram por verdades.

A prática da desinformação – como é provado hoje – é algo sistemático e assim financiado, pois é um recurso de capital social poder influenciar as pessoas a agirem como você precisa.

Distorção dos fatos, forjamento de provas, colher e divulgar testemunhos falsos, disparo em massa e o uso de robôs, todos estes são recursos e estratégias a fim de impulsionar o propago de mentiras – mesmo que desmentidas, muitos dos estragos deixam marcas no imaginário coletivo.

imagem mostra tela de celular com atalhos para redes sociais e notificações.
Imagem de Thomas Ulrich por Pixabay 

A preguiça de ir atrás da verdade e a ânsia de fazer parte do debate público, empobreceram a discussão num nível absurdo.

A Internet hoje é o maior banco de dados da história humana – a biblioteca que contém as maiores bibliotecas – mas em contrapartida ainda é preciso defender que a Terra é redonda e que não há como implementar um chip espião por meio de vacina.

A mentira é tão popular e inflamatória pois normalmente é agressiva e a rede adora se voltar contra um alvo, quando o discurso não apela para o ódio se volta para a emoção vazia.

Tudo isso quebra os padrões de normalidade para um bom diálogo, os extremos se revelam e se estabelecem: total apatia a todas situações e pessoas, ou o espumar de raiva de tudo que difere a si.

É possível manter a independência nas redes?

imagem mostra dedo apontando para símbolo de conexão em um quadro com diversos símbolos relacionados à internet.
Imagem de Gerd Altmann por Pixabay 

É preciso entender que os recursos digitais são ferramentas que podem ser utilizadas a fim de facilitar a conquista de objetivos; mesmo que usada como meio de trabalho, não é ali que se encontra sua essência. Ninguém vive – ninguém não patologicamente afetado – vive em função de seu carro por exemplo, mesmo este podendo ser um objeto que lhe facilita muitos objetivos.

É preciso seguir alguns passos para um bom uso das redes e recursos digitais:

  • disposição para ir além da superficialidade e procurar ler mais do que a manchete;
  • desenvolver a capacidade de relembrar que por trás das palavras de um tweet/post existe outro ser humano;
  • ficar mais de horas a deslizar pelos feeds não classifica-se como ócio produtivo;
  • não ter NENHUMA rede social para alguns nichos é um privilégio distante, mas é preciso lutar e criar novamente a independência que continuamente perdemos.

O bom caráter, a cordialidade, a ética que deve estar presentes na vida prática, real e analógica devem ser transpassadas para a vida digital – esta que mesmo trazendo a segurança do anonimato deve ser tratada como uma parte do real, que traz danos ou positividades reais à vidas REAIS.

Mesmo que pareça, o ambiente digital – a Internet – não é um mundo concreto que transcende a realidade humana e dela vive independente; dito isso, a civilidade é fundamental se quisermos manter a essência e raiz humana entre o nosso mundo digital.

imagem mostra duas pessoas segurando celulares.
Imagem de Dean Moriarty por Pixabay 

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