Narrativas contra desigualdades

Hoje a gente retoma a série Jovens Transformadores pelo Futuro da Democracia, apresentando a trajetória de uma jovem que une dados e narrativas na defesa do direito à memória e representação de mulheres negras na política institucional.

Por Juliana Marques*, Jovem Transformadora pela Democracia

Foto: Safira Moreira

Me chamo Juliana Marques e faço parte do Movimento Mulheres Negras Decidem, uma organização que pauta a maior representação de mulheres negras na política institucional. A escolha dessa pauta não é por acaso. Observamos na representação política uma das dimensões onde se verifica as maiores desigualdades entre gênero e raça. Ao mesmo tempo, ultrapassar estas desigualdades nos espaços da política institucional é uma das mais difíceis tarefas, considerando que é no âmbito político que se exerce o poder em sua maior hierarquia.

Minha trajetória até chegar ao Mulheres Negras Decidem não foi exatamente calculada, apesar de eu ser estatística. Sou formada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e meus primeiros passos na carreira foram no mercado privado. Aos 28 anos, conheci Mário Miranda, antropólogo que trabalha com Teatro do Oprimido e liderava um projeto focado na juventude na Maré. Meus conhecimentos estatísticos me fizeram integrar a equipe formada para avaliar o projeto, para além dos indicadores quantitativos, buscando modos de mensurar a importância do projeto para a Maré. Nos anos seguintes, acabei integrando um grupo de mulheres do Teatro do Oprimido, uma experiência que ampliou horizontes.

Em 2017, buscando uma formação mais reflexiva, fiz um curso de extensão com foco em etnografia, aprimorando alguns aspectos mais qualitativos da pesquisa. Estas experiências me levaram a sair do mercado privado e passar a trabalhar para o DataLab, laboratório de dados incubado no Observatório das Favelas e que havia se institucionalizado no ano anterior. A formação da Rede Umunna, que criou inicialmente a Plataforma Mulheres Negras Decidem e viria a se tornar movimento, me fez integrar a militância feminista com minha atuação como estatística.

A partir de uma seleção da Ashoka, me juntei a outros nove jovens que, assim como eu, acreditam que um novo modelo de sociedade precisa ser construído para que possamos, enfim, ter gosto em afirmar: somos um país democrático. Esse novo modelo de sociedade que defendemos só poderá ser construído sob a liderança dos grupos que historicamente tiveram seus direitos e humanidade negados: negros, quilombolas e povos originários.

O nosso primeiro encontro com mais tempo para articulação, que aconteceu na Bahia, na sede do Olodum, reforçou a convicção de que um dos caminhos para que isso seja possível passa diretamente por nossa busca e esforço para mantermos a memória de luta e estratégias de sobrevivência desses grupos. Uma ideia que está no centro do Movimento Mulheres Negras Decidem: levantar e tornar públicos dados que mostrem que nós, mulheres negras, sempre nos interessamos e sempre fizemos política.

Há alguns meses, pude refletir novamente sobre memórias e lutas e sobrevivências em uma visita ao Museu do Amanhã. Apesar de morar no Rio, apenas recentemente tive a oportunidade de estar na instituição.

Estive lá para um laboratório sobre sustentabilidade ambiental e consumo consciente. Fiquei entusiasmada com a possibilidade de me conectar com pessoas que são especialistas no tema. Mas, confesso que também voltei a sentir o desprezo que criei pelo local por saber que a construção do museu fez parte de um plano de revitalização da zona portuária que, mais uma vez, buscava beneficiar uma parcela privilegiada da população carioca. Lembrei dos empreendimentos imobiliários milionários que só apontavam para uma gentrificação do entorno, mas enfim…

A proposta narrativa do museu é interessante. Para fazer o público refletir sobre “Que futuro queremos?”, indica que, antes de mais nada, é preciso que nos debrucemos sobre a tentativa de responder outras perguntas. Uma proposta que revela, em alguma medida, que o caminho para falarmos de futuro é, a princípio, de mais questionamentos e menos certezas.

Mas a primeira pergunta — “De onde viemos?” — traz como elemento principal, aquele que busca apontar para a resposta ao questionamento, uma estratégia de apagamento. Um totem de povos originários! Um totem de povos originários da Austrália.

As estratégias desses grupos “apagados” pelo direito à memória é parte fundamental para desvelar os mecanismos sociais e políticos que os afastam de uma representação política mais igual e que podem ser potencializadas pelas civic techs. Me interesso particularmente por esses arranjos: o uso de dados e narrativas para apontar as barreiras de elegibilidade desses grupos.

Juliana Marques idealizou o Movimento Mulheres Negras Decidem, que atua na formação política, no reposicionamento de temas na agenda pública e em pesquisas centradas em dados para aumentar a representatividade de mulheres negras nas esferas de poder. É estatística de formação e mestranda do Programa de Gestão Urbana da PUC-PR, além de Conselheira do Data_labe, laboratório de dados e narrativas do Complexo da Maré.

SOBRE O PROGRAMA

Re-imaginar a participação cidadã dos jovens e um futuro no qual todos, independentemente de sua origem, tenham voz na formulação de políticas e na tomada das decisões que impactam suas vidas. Este é o propósito do estudo Jovens Transformadores para o Futuro da Democracia, realizado pela Ashoka em parceria com a Open Society Foundations.

O programa Jovens Transformadores pela Democracia identifica e apoia jovens cujas iniciativas incentivam o engajamento político, principalmente por parte de populações marginalizadas, que não têm seus direitos respeitados ou que necessitam de apoio para conquistar representatividade no âmbito público.

SOBRE A ASHOKA

A Ashoka é a pioneira e maior rede global de empreendedorismo social. Congrega pessoas e organizações que promovem mudanças sistêmicas para o bem de todos. Dedica-se a consolidar um movimento onde todas as pessoas se entendam como agentes na construção de sociedades justas, sustentáveis e igualitárias. Criada em 1980 e presente desde 1986 no Brasil, a comunidade Ashoka reúne mais de 3.800 empreendedores sociais no mundo (384 no Brasil), além de 300 Escolas Transformadoras e dezenas de Jovens Transformadores. Saiba mais em https://www.ashoka.org/pt-br

Este texto foi originalmente publicado no canal da Ashoka Brasil no Medium.

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