Mulheres gordas e o “assédio gentil”

Em vídeo, a ativista Luana Carvalho comenta o assédio gentil que mulheres gordas sofrem cotidianamente em uma sociedade que insiste em conter corpos fora do padrão

Por Monise Berno

Gordofobia: Aversão a pessoas gordas que se efetiva pelo preconceito, intolerância ou pela exclusão dessas pessoas.

Pessoas gordas enfrentam cotidianamente uma série de atitudes, comportamentos e padrões sociais preconceituosos. É uma violência que se expressa no formato de móveis e planejamento de espaços públicos, na moda, na publicidade, nos relacionamentos amorosos e familiares, na medicina e no mundo do trabalho.

Corpos gordos são lidos como doentes, incapazes, fracos, infelizes.

A pessoa gorda precisa provar, o tempo todo, que é saudável, que está ativa, que é produtiva e competente. A mulher gorda precisa provar, a todo tempo, que é bonita, que é empoderada e que pode ser desejável para além do fetichismo. Para mulheres gordas e negras, tudo fica ainda mais difícil, por conta do racismo estrutural que perpassa todos os campos da sociedade.

A gordofobia é socialmente validado em nome de preocupações com a saúde, bem-estar e autoestima.

Recentemente viralizou um episódio de assédio gordofóbico transmitido ao vivo: uma advogada gorda, convidada para discutir violência doméstica e familiar durante a pandemia em um programa de TV, foi abordada por uma médica que, fugindo completamente do tema do quadro, ofereceu ‘ajuda’ à advogada para emagrecer.

A partir deste episódio claramente constrangedor, ativistas da liberdade corporal e anti gordofobia usaram as redes sociais para tratar do tema, que durante o isolamento social provocado pelo avanço da Covid-19, acabou tornando-se essencial. A ativista e influenciadora digital Luana Carvalho falou sobre mulheres gordas e o assédio gentil em seu IGTV.

Assédio gentil que mulheres gordas sofrem é sobre a forma violenta que as pessoas e a sociedade insistem em querer conter o corpo gordo, de maneiras diversas mas principalmente com a tentativa de emagrecer essas mulheres a todo custo em forma de gentileza e ajuda.

A Luana comenta que, na grande maioria das vezes, a reação da mulher gorda que passa por situações de assédio gentil é reagir em tom de brincadeira, numa tentativa de suavizar o peso do constrangimento. Ela destaca que o assédio gentil e outras atitudes gordofóbicas são táticas para controlar o corpo das mulheres gordas:

Existe uma ideia no inconsciente coletivo das pessoas de que pessoas gordas são absurdamente infelizes por serem gordas, e que todas as pessoas gordas vivem uma vida em volta de emagrecer. Ou seja, todas as pessoas gordas querem ser magras. Porque ser magro é lido como o ‘normal’, como o bonito, como o inteligente

A pressão estética trabalha com a lógica da correção: todas as pessoas têm ‘defeitos’ que podem ser corrigidos através de intervenções. O capitalismo atua nessa lógica oferecendo uma série de ‘soluções’ para corrigir estes defeitos. Para os corpos gordos, a pressão é imensamente maior, e o tamanho das pessoas é tratado como epidemia:

o corpo gordo é um corpo que precisa ser corrigido, precisa de soluções estéticas, de soluções médicas, porque ser gordo significa ser doente, feio, incapaz, deprimido, preguiçoso

Ela conta uma uma verdade incômoda direcionada às pessoas magras:

Nem todas as pessoas gordas querem emagrecer. Nem todas as pessoas gordas precisam emagrecer. Emagrecimento não é a solução dos problemas das pessoas gordas. Eu sei que isso parece muito impossível, mas é verdade!

E por que acontecem episódios como o da advogada na TV? A Luana explica:

Porque mulheres gordas não são vistas como intelectuais, não são vistas como inteligentes. Não interessa o quanto uma mulher gorda seja inteligente, seja competente naquilo que ela está fazendo profissionalmente, seja intelectualmente capaz: uma mulher gorda não tem o direito de ser lida como uma pessoa inteligente, competente, porque não interessa a nossa competência profissional; nós sempre seremos fracassadas e subjugadas pelo nosso corpo. Porque o corpo gordo, ele não representa capacidade intelectual e inteligência. Inteligência e competência estão intimamente ligados com magreza e branquitude. Porque ser uma pessoa branca e magra te dá a validação de inteligente e intelectualmente capaz

Assista o vídeo completo e siga a Luana no Instagram:

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