Muitos carnavais de história e militância

No quarto artigo da série especial em parceria com a Ashoka, a gente conhece mais uma jovem transformadora pelo futuro da democracia no Brasil.

Por Aquataluxe Rodrigues*, Jovem Transformadora pela Democracia

Foto: Ricardo Sanches Tomazoli/Ashoka Brasil

Sou orgulhosamente neta de Dona Odete Figueira Queiroz, filha da sua caçula, doutora Martha Rosa Figueira Queiroz, com seu João Jorge Santos Rodrigues. Sou mulher, negra, pernambucano-baiana, administradora e produtora cultural e minha história começa no encontro de jovens negros do norte/nordeste, meus pais, e um ano depois com meu nascimento no glorioso carnaval de 1987 (marcado pelo lançamento do primeiro sucesso do Olodum — Eu Falei Faraó!).

Nasço no auge dos blocos afros e afoxés e passo minha infância imersa no Movimento Negro Unificado de Pernambuco, mais especificamente, no Afoxé Alafin Oyó, agremiação carnavalesca na cidade de Olinda-PE da qual minha mãe era a presidente. Eu, minha mãe e sua companheira morávamos em Arthur Lungrend I, bairro do município de Paulista (PE). Ali, vivi meus primeiros felizes 10 anos de vida e formação de militância. Porque, sim, minha formação de consciência racial, luta de gênero e os ensinamentos dos fundamentos das lutas por igualdade e direitos foram promovidos em casa.

É importante ressaltar que é em Pernambuco que estão meus pilares da vida. Minha consciência e conhecimentos afetivos, religiosos e familiares. Foi na convivência com afoxés, maracatus, frevo, coco, ciranda e outras manifestações culturais que vivenciei a complexa diversidade da cultura negra e aprendi as múltiplas maneiras de resistência do povo negro nordestino.

Mas ainda na adolescência mudamos para Salvador (BA). Lá, ingressei no grupo de jovens negras As Quilombolas. Algum tempo depois, nos tornamos alunas do projeto Bahia Street, que atende meninas em situação de vulnerabilidade buscando quebrar o ciclo da pobreza por meio da educação, da arte e da cultura. O nosso grupo foi o primeiro da longa e linda jornada da organização.

Foi no Bahia Street que desenvolvi minhas habilidades de liderança, vivência em grupo e a compreensão da feminista negra que eu desejava ser no futuro. Mais tarde, quando morei em Brasília, continuei essa caminhada de militante e empreendedora social, participei do Enegrescer, grupo de jovens negros da Universidade de Brasília (UnB), no qual tive a vivência de cinco anos de militância negra universitária, mesmo sendo secundarista na época.

Em paralelo à militância, busquei uma formação profissional voltada para melhoria da minha atuação como liderança nas ações transformadoras em que já estava envolvida. Consegui concluir a graduação de Administração e prossegui com os estudos, sempre buscando o que pudesse apoiar minha trajetória de empreendedora social.

Ao voltar para Recife, tive a honra de produzir o carnaval oficial da cidade junto com as agremiações populares, e estive com o Comitê de Combate à Tuberculose do Fundo Global, projeto que contemplava a participação da sociedade civil dentro do sistema único de saúde do Estado de Pernambuco.

Mesmo distante, sempre estive em contato com o Bloco Afro Olodum, com o qual tenho uma relação familiar e amor profundo. Quando a vida me levou de volta a Salvador, propus ao bloco a criação do Conselho de Juventude para estreitar o diálogo com as diversas juventudes que estão no bloco. O conselho foi pensado para gerar ações de conscientização sobre cidadania, combate à violência, educação sexual e combate ao machismo envolvendo as jovens e os jovens do Olodum. Atualmente, o Conselho de Juventude do Olodum transformou-se em um conselho geral com novos integrantes de diferentes idades e camadas sociais para colaborar com o bloco no combate ao racismo e todos os tipos de discriminação.

Hoje, também uso as redes sociais para ampliar o alcance da minha militância. Desenvolvo a live #Negócios de Rainha$, voltada para visibilidade, troca de conhecimento e prospecção das mulheres, principalmente negras, ao universo do empreendedorismo. Realizo, também, a live #Trocando Ideias, sobre cultura, história e protagonismo de homens e mulheres negras emblemáticas da nossa sociedade.

* Por meio da Comissão da Juventude do Olodum, Aquataluxe fortalece iniciativas inovadoras para aumentar o potencial empreendedor dos jovens e conectá-los à política. É conselheira do Olodum, criadora do Negócios de Rainhas e do Trocando Ideias, e Produtora do Festival Yakurinxirê.

SOBRE O PROGRAMA

Re-imaginar a participação cidadã dos jovens e um futuro no qual todos, independentemente de sua origem, tenham voz na formulação de políticas e na tomada das decisões que impactam suas vidas. Este é o propósito do estudo Jovens Transformadores para o Futuro da Democracia, realizado pela Ashoka em parceria com a Open Society Foundations.

O programa Jovens Transformadores pela Democracia identifica e apoia jovens cujas iniciativas incentivam o engajamento político, principalmente por parte de populações marginalizadas, que não têm seus direitos respeitados ou que necessitam de apoio para conquistar representatividade no âmbito público.

SOBRE A ASHOKA

A Ashoka é a pioneira e maior rede global de empreendedorismo social. Congrega pessoas e organizações que promovem mudanças sistêmicas para o bem de todos. Dedica-se a consolidar um movimento onde todas as pessoas se entendam como agentes na construção de sociedades justas, sustentáveis e igualitárias. Criada em 1980 e presente desde 1986 no Brasil, a comunidade Ashoka reúne mais de 3.800 empreendedores sociais no mundo (384 no Brasil), além de 300 Escolas Transformadoras e dezenas de Jovens Transformadores. Saiba mais em https://www.ashoka.org/pt-br

Este texto foi originalmente publicado no canal da Ashoka Brasil no Medium.

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