Missão brasileira na ONU: Como ser um diplomata –ou quase- por três meses

Texto e fotos por Lucas Valente, do Engajamundo

Colaborador da Agência Jovem de Notícias

DEPOIMENTO – De fevereiro a abril deste ano, em Nova York, eu entrava na Organização das Nações Unidas (ONU) sem passar pela segurança. Assistia a reuniões lá dentro, muitas vezes atrás da plaquinha do Brasil, e escrevia telegramas diplomáticos para Brasília. Sou diplomata? Não.

A Missão Permanente do Brasil junto à ONU oferece três vezes por ano um programa de capacitação acadêmica em que os selecionados auxiliam os diplomatas em algumas tarefas. Fazem pesquisa de apoio e acompanham o andamento geral de determinados temas dentro da Organização, como direitos humanos, segurança internacional e desenvolvimento sustentável. O programa dura apenas três meses e podem participar estudantes de graduação ou pós-graduação, além de recém-formados. Eu participei entre fevereiro e abril deste ano.

Na Missão do Brasil estão alocados cerca de 30 diplomatas, número considerado elevado em comparação com outras missões. As maiores missões, claramente, são as dos membros permanentes do Conselho de Segurança e de outros países ricos. As menores são de países que eu nem mesmo sabia que existiam, como Tonga, Palau ou Nauru, com apenas dois ou três diplomatas. Kiribati é um país-arquipélago com pouco mais de 100 mil habitantes (população similar à de Caraguatatuba, no litoral paulista) que nem mesmo mantém uma missão em Nova York. Bem próximo à Assembleia Geral fica a Missão dos Estados Unidos, em um prédio com um sistema de resistência a explosões em que os primeiros seis andares do edifício não possuem janelas. No sétimo andar as janelas existem, mas são bem estreitas e vão gradativamente aumentando de tamanho até o último andar. Peculiar.

Dentro da ONU, participando das reuniões, percebe-se o lado prático e humano da Organização. Os Estados Membros, afinal, são seres humanos – às vezes nos esquecemos disso. Pude ver como os diplomatas trabalham e chegam (ou não) nos acordos e resoluções que tem, ou melhor, deveriam ter, impactos no mundo todo.

Assim, da próxima vez que você ler em uma notícia do tipo “Na ONU, Brasil pede mais respeito aos direitos humanos na Síria”, lembre-se: isso quer dizer que um diplomata brasileiro fez um discurso em uma reunião formal, possivelmente seguindo instruções de outros diplomatas da Divisão de Nações Unidas do Itamaraty, em Brasília. O que é dito nesse discurso acaba sendo a posição do Brasil sobre tal tema, daí a importância em se medir bem as palavras que serão utilizadas. Quando lemos que uma negociação está travada dentro da ONU, que não se chega ao consenso, quer dizer que algum país reluta em aceitar a proposta de linguagem para a Resolução em questão; este país já atingiu sua “red line”, como eles dizem, e não pode, por instruções de sua Capital, conceder mais nada para tornar o texto mais flexível.

Foi interessante observar, também, o posicionamento dos países em blocos, sejam eles regionais como o GRULAC (América Latina e Caribe) ou de desenvolvimento/afinidades como o Grupo dos 77 (do qual o Brasil faz parte, com 132 países), por exemplo. Os Estados Unidos, sempre um caso à parte na ONU, não se filiam a nenhum grupo. A União Europeia, na maioria das vezes, inicia seus discursos falando em nome dos membros do bloco e complementa dizendo que “o país entrante Croácia, os países candidatos Turquia, antiga República Iugoslava da Macedônia, Montenegro e Sérvia, o país do Processo de Estabilização e Associação e candidato potencial Bósnia e Herzegonvina, bem como a Ucrânia, alinham-se com este discurso”.

Vivenciar o dia a dia da ONU quase como um diplomata foi muito interessante, porém triste ao mesmo tempo. Ficou claro que a ONU funciona como uma grande empresa, enorme, com milhares de funcionários e um orçamento de 12,4 bilhões de dólares (7,3 bi para operações de manutenção da paz e 5,1 bi de orçamento regular, para o ano fiscal 2012-2013). Quem banca essa grande empresa são os Estados. Sendo bem reducionista e simplificando o processo, quanto mais rico o Estado, mais ele contribui… e menos ele quer pagar. Por isso notam-se constantemente tentativas de se reduzir custos da Organização para diminuir os gastos dos Estados. E quem paga a conta destes cortes? Sim, quem mais precisa desse dinheiro.

Saiba mais:

Mais informações sobre o estágio na Missão do Brasil em Nova York podem ser encontradas aqui.

A Missão do Brasil em Genebra também oferece um programa similar, mais informações aqui.

Para informações de estágio no Secretariado da ONU, clique aqui.

Dicas de filmes:

“A Informante” (The Whistleblower) – 2010, de Larysa Kondracki

A história, baseada em fatos reais, conta a história da agente de manutenção da paz na Bósnia, Kathryn Bolkovac, que denuncia a Polícia Internacional, a ONU e diplomatas por encobrirem um escândalo envolvendo corrupção, tráfico e prostituição de mulher sérvias na Bósnia.

“ONU e Eu”, em trad. livre (U.N. Me) – 2009, de Matthew Groff e Ami Horowitz

Documentário à la Michael Moore, o filme é uma crítica à ONU como um todo e a seus maiores fiascos recentes, valendo-se de entrevistas a diplomatas e funcionários civis e militares da Organização, tanto em Nova York quanto em campo.

*sim, os dois filmes apresentam duras críticas à ONU, mas há um motivo real para isso, infelizmente.

Liderada por jovens, Engajamundo é uma organização que acredita no poder da juventude para superar os desafios contemporâneos. Por isso busca informar, capacitar e engajar os jovens brasileiros, tornando sua participação em negociações internacionais mais efetiva e inclusiva. A proposta é trabalhar com alguns dos temas mais importantes para a juventude, meio ambiente, gênero e desenvolvimento social, aproximando do cotidiano as decisões tomadas nas conferências internacionais. O Engajamundo está aberto a todos os jovens interessados em agir por um mundo mais participativo, inclusivo e sustentável. Entre em contato pelo e-mail engajamundo@gmail.com e curta nossa página www.facebook.com/engajamundo

 

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3 Comentários

  • Oi Matheus,

    Você pode entrar em contato com o Lucas através do email lucas@engajamundo.org ou com a Débora,coordenadora de comunicação do Engajamundo que está lá na missão agora (debora@engajamundo.org)!

    Bjs,
    Raquel

  • Oi Matheus, acho que seria legal você entrar em contato direto com a galera do Engajamundo.

    O e-mail deles está no post, mas eu copio aqui também: engajamundo@gmail.com

  • Adorei o artigo! Estava procurando informações sobre as missões diplomáticas brasileiras, e esse texto é exatamente o que eu estava procurando. Porém eu gostaria de saber mais informações acerca da estadia e dos custos de vida em NY, já que de acordo com o site repassado fica tudo por conta do próprio acadêmico! Será que vocês poderiam me passar o contato do Lucas Valente, que escreveu o artigo? Obrigado!

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