Militância versus (ou não) religião? Aqui, sim, se discute!

Vou começar confessando que eu quase desisti dessa matéria. Acho que as forças ocultas do mal estavam tentando me convencer de que “política e religião não se discute”. Mas exorcizei essa ideia, afinal o mundo precisava ter uma revelação do que minhas fontes divinas têm a dizer aqui.

Milito por direitos humanos há 18 anos e tendo uma formação cristã protestante (não me julgue. Ainda! Kkk), comecei, de uns Fóruns Sociais, Festivais Emergências e Utopia pra cá, a me atentar para o fato de que muitos religiosos lidam com a religião de forma militante e muitos militantes, por mais que critiquem certas religiões (ok… vamos jogar na mesa… só a religião cristã evangélica), lidam com a militância de forma religiosa. Isso parece razoável?

O teólogo Breno Alonso, considera que “tanto a religião quanto as demais formas de militância têm suas cartilhas, seus usos e costumes, seu modus operandi. E, em ambos os casos, há também uma forma de desclassificar o que não se enquadra na mesma forma de agir e/ou pensar. Na religião este é chamado de incrédulo, na militância política uns de coxinhas, outros de petralhas, e por aí vai. Me parece que todos esses sistemas, no fundo, querem se estabelecer como sistema dominante”. De fato, já disse Sartre que “o inferno são os outros”.

Em minhas observações e reflexões pessoais eu já dava conta de que as semelhanças realmente eram muitas. Mas ao participar agora em junho, em Maricá (RJ), do Festival Internacional da Utopia, que já traz no nome certa exigência de fé, outras semelhanças saltaram ainda mais aos meus olhos.

Numa das tardes aconteceu uma roda de conversa sobre Política e Religião, com a presença de Ronilso Pacheco, que foi insultado várias vezes nas redes sociais no final de 2015, por ter sido anunciado como “militante cristão” numa mesa mediada pelo idealizador do site “Quebrando Tabu”, sobre Desarmamento, no Festival Emergências, ocorrido no Rio de Janeiro.

Na roda do Utopia, Ronilso falava que “a Bíblia deveria ficar fora das nossas discussões políticas”, declaração que causou polêmica entre os crentes presentes. Na ocasião, contribuiu com uma reflexão sobre a luta LGBT, ao questionar com quantas travestis dividimos espaços corriqueiros no dia-a-dia e ao demonstrar o quanto essas pessoas são invisibilizadas pela sociedade, tendo seus direitos negados.

 

festival internacional da UTOPIA

Alheios ao teor da conversa, próximo à roda, que acontecia em local aberto, militantes da mesma bandeira, porém não evangélicos, se manifestavam de forma a tentar inviabilizar o debate, por saber que os que estavam sentados ali eram adeptos à religião protestante.

Na manhã seguinte, levantei ao som destas palavras, que vinham de uma festa rave, que durou a noite toda ao lado do acampamento: “Olha pro irmão que tá do seu lado! Vamos celebrar o que construímos juntos… Uma nova vida! Uma só família!”

Qualquer pessoa que já passou um tempo numa igreja evangélica vai reconhecer essas palavras. Mas elas não foram proferidas por um pastor, mas por um dos militantes do Festival, que se autodenominava “Gnomo Brasil”.

Em outro momento, um jovem preto que tinha o microfone nas mãos, numa roda em que as juventudes negras compartilhavam experiências e faziam denúncias, desabafou: “Eu já fui líder de jovens numa igreja evangélica. Eles falam que você tem poder, mas não é nada disso. Muitas vezes eu fui discriminado por essa religião de brancos, europeus”. E as pessoas presentes aplaudiram e apoiaram.

Logo depois dele, uma jovem preta pediu a palavra e disse: “Me desculpe, meu irmão. Mas eu ouvi a sua fala enquanto eu passava, e preciso dizer que eu sou mulher, preta e cristã. E, embora não seja divulgado, hoje a religião mais preta do Brasil é a cristã evangélica pentecostal. É ela que está presente na maioria das nossas favelas e em maioria nelas. E nessas comunidades os negros são, sim, empoderados. Eles vestem seus ternos e suas melhores roupas nos dias de culto, e lá tanto os homens quanto mulheres negras têm o microfone e o poder da palavra nas mãos e são respeitados. Grande parte de nossa população mais pobre aprendeu a ler porque queria ler a Bíblia. E se não fosse isso tudo, ainda tem o fato de que muitas vezes dizemos que o cristianismo é uma religião europeia e branca, mas Cristo era judeu. E Israel nunca foi na Europa. Precisamos tomar de volta esse discurso que foi sequestrado pelos brancos. Além disso, a última coisa que Jesus era, era branco. Israel é mais perto da África do que de qualquer outro canto. Se não formos nos respeitar por nenhuma outra motivação, e se o mais importante para termos o respeito um do outro for a nossa cor, respeite os cristão então, porque Jesus era negão”. E todas as pessoas aplaudiram e apoiaram.

Roda de Conversa Utopia

 

Essa foi a gota d’água que fez transbordar o mar das minhas reflexões. Quais seriam as reais afinidades e divergências entre Religião e Militância, então?

A escritora Eliane Brum em um de seus artigos diz que “na política, mesmo os crentes precisam ser ateus”, porque, segundo ela “não se constrói um projeto político com crentes. Mas a angústia, no Brasil de hoje, se dá também pela vontade de acreditar que algo é verdadeiro num cotidiano marcado por falsificações. O perigo é que, quando o roteiro dos dias parece ter sido escrito por marqueteiros, não cabe razão nesse acreditar. Exige-se fé”.

Nesse caso, então, ninguém fica imune. Essa exigência acaba por tornar os que lutam por um ideal, de certa forma, crentes.

Ronilso Pacheco, que além de “militante cristão” é graduando em Teologia na PUC Rio, colaborador de formação na Igreja Batista Redenção em São Gonçalo e interlocutor social da ONG Viva Rio, concorda quando diz que “as aproximações entre religião e militância acontecem na medida em que a dimensão da esperança, da utopia, do se deparar com o que está dado e não se permitir se limitar a ele, é uma força que exige a transcendência, exige projetar, sair de si mesmo, ter uma “instância” subjetiva de renovo de ânimo e motivação. Isso está no campo da fé. Há gente que milita há anos naquilo que acredita e nunca viu a transformação efetiva, mas continua insistindo, pois mudar uma situação se tornou sua fé. Militância e religião podem se encontrar na não materialidade daquilo pelo quê se luta”.

Já Flávio Conrado, antropólogo e editor na plataforma Novos Diálogos, considera que “embora religião e militância sejam palavras de campos aparentemente distintos, a primeira semelhança é que ambas têm é uma dimensão teleológica, de transformação da realidade. As formas mais politizadas de religião ou as propostas políticas mais ‘religiogizadas’ são muito similares em construírem-se de modo totalizantes”. Mas, para Flávio, a questão da transcendência que Ronilso aponta como o principal ponto de ligação entre a militância e religiosidade, “é, talvez, uma diferença notável. Se para o militante cristão é a dimensão transcendente que o motiva a lutar por transformação social, o militante político é motivado pela força das categorias ideológicas que ele mobiliza na sua visão de mundo”, analisa.

O pensamento de Flávio está afinado com as ideias do teólogo Leonardo Boff, quando remonta, em um dos textos de seu blog, a história do papel da religião nos movimentos sociais. Diz Boff:

“Fundamentalmente o cristianismo colonial e imperial educou as classes senhoriais sem questionar-lhes o projeto de dominação e domesticou as classes populares para se ajustarem ao lugar que lhes cabia na marginalidade. Por isso, a função do cristianismo foi extremamente ambígua, mas sempre funcional ao status quo desigual e injusto. Raramente foi profético. (…)

Somente a partir dos anos 50 do século passado, setores importantes de sua institucionalidade começaram um processo de deslocamento de seu lugar social  no centro, rumo à periferia, onde o povo pobre vivia. (…) Pelo fato de serem simultaneamente pobres e religiosos, tiraram de sua religião as inspirações para a resistência e para a libertação rumo a uma sociedade com mais participação popular e mais justiça. Emerge um cristianismo novo, profético, libertador  e comprometido com as mudanças necessárias”.

O que teria gerado então, apenas 60 anos depois, tamanho retrocesso em relação ao caráter social da religião, nesse que Boff chama de “cristianismo novo”, a ponto de que parte dos militantes do movimento negro, sequer consegue se lembrar, atualmente, de que Martin Luther King, pioneiro na  luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, era um pastor protestante, por exemplo?

Valquíria Santos, militante do Movimento de Mulheres Negras e Gerente de Políticas de Promoção da Igualdade Racial no Espírito Santo, diz que “hoje se faz necessária a militância em prol das religiões que são demonizadas e marginalizadas socialmente, como um ato de resistência. A sociedade é um espelho. Se alguém não consegue se ver nesse espelho, algo de errado está acontecendo… Atualmente vivemos numa sociedade em que não existem, de fato, espaços ecumênicos. Tudo sempre tende para uma só religião e aí a face da intolerância se mostra nitidamente”.
Para Morgana Boostel, que é presidente do Observatório Capixaba de Juventude, presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos do ES e secretária de engajamento missionário da Aliança Bíblica Universitária do Brasil, esse retrocesso não deveria acontecer no caso da fé cristã, porque:

“Os ensinamentos de misericórdia, de justiça, de cuidado de amor ao próximo não permitem a um verdadeiro cristão permanecer parado diante das angústias e ansiedades do mundo. O cristão deve pensar na dignidade daquele que é seu irmão, buscando restaurá-la. A chave é a afirmação do ‘próximo como a mim mesmo’. É um exercício de alteridade muito forte e persistente. Mas quando essa perspectiva do outro é perdida, e a militância se torna um movimento de favorecimento próprio, ou do seu grupo religioso, ou político, ela se torna ineficaz, a partir da compreensão cristã”.

Então, é possível destacar afinidades positivas entre esses dois campos. Meyrielen de Carvalho Silva, assistente social e diretora técnica do Instituto Das Pretas, ressalta que “religiões, em geral, geram uma formação humana e cidadã, propondo estudo da sua fé, bibliografias, crescimento. E os espaços de militância, nas suas variadas formas, também provocam isso. Ambos geram um conjunto de conceitos dos quais os adeptos se apropriam que não há como defender ou propor um estilo de vida que não seja aquele”.
E nessa trajetória de lutas, há conquistas que foram resultado de empenho de apenas uma das partes e que hoje beneficia a todos, como a defesa do Estado laico, de que militantes de movimentos sociais de várias frentes se valem em seus discursos e reivindicações, mas foi um esforço de cristãos protestantes para garantir a liberdade religiosa.

meu quarto

Por falar nisso, voltando a Sartre… gosto da interpretação que o Professor Vinicius dá em seu blog. Ele diz que:

“‘O inferno são os outros’, para Sartre, significa justamente isto: porque o outro também é livre, não podemos controlar completamente o que ele pensa, o que ele nos diz, o limite que ele impõe à nossa liberdade (o que frequentemente gera conflito); mas, ao mesmo tempo (daí vem a tensão), preciso dele, de seu olhar (ainda que, muitas vezes, esse olhar veja algo em nós que não gostamos), para me conhecer e poder agir no mundo, pois apenas por nossas ações (sobretudo as que interferem positivamente na vida dos outros), e no nosso contato intersubjetivo autêntico (que ocorre quando encaro o outro como um ser igualmente livre, e não como um simples objeto), que podemos superar nossa situação e dar um sentido legítimo à nossa existência”.

Portanto, no fim…, suspeito que tenhamos muito em comum. Talvez todo mundo precise crer em algo. Ainda que seja na própria razão. Para cristãos, “a fé é a certeza das coisas que se esperam e a convicção das coisas que se não veem”. E quem não tem “certezas” e “convicções” desse tipo? Então, sejamos tolerantes com a fé e a luta do outro. Porque, por mais desonestos que alguns possam ser, no fundo, todos acreditamos em algo e merecemos respeito por nossas crenças e convicções.

Leandra Barros
Leandra Barros, 34 anos
Mulher. Preta. Cristã. Militante por Direitos Humanos. Jornalista. Bailarina. Poetisa. Roadie (a únicA do ES!). Documentarista. Conselheira em Sexualidade. Apresentadora. Produtora Cultural. Missionária. Fotógrafa. Microempresária. Editora. Modelo. Promoter. Repórter. Técnica Metalúrgica. Cenógrafa. Iluminadora. Mochileira. Radialista. Atriz amadora. Videomaker. Blogueira...

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3 Comments

  • Não há determinismo! A liberdade do homem produz a fé e convicção… Esses valores sempre estarão juntos, porém nem sempre do mesmo lado, a tolerância faz uma ponte entre eles.

    Excelente matéria!

  • Filha, sem querer ser partidária, mas já sendo….arrebentouuuuuuuu

  • Texto urgente num momento de intolerância generalizada, política e religiosa!

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