Marilena Chauí fala sobre participação dos jovens e se diz favorável a uma nova Constituinte para reforma política

entrevista com Chaui

Caterine Soffiati, Maria Carolina Arruda Branco, Mariana Coiro e Nathalia Rodrigues, jovens comunicadoras da Agência Jovem de Notícias, de SP

Durante a cobertura do 1º Seminário Marista de Direitos Humanos e Educação, a equipe da Agência Jovem de Notícias conversou com a professora de filosofia da USP Marilena Chauí. Confira abaixo os principais pontos da entrevista.

AJN: Em sua opinião, qual o papel do jovem na sociedade atualmente?

Marilena Chauí: Vejo com um misto de preocupação e de esperança. A minha preocupação é o fato de que o desenvolvimento econômico do Brasil, de ter se tornado a oitava economia do mundo, e de praticamente ter a liderança dos BRICS (bloco político e econômico formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), levou a uma situação de muito privilégio e de uma enorme capacidade de consumo em todas as formas, sobretudo, da classe média e da classe dominante, desde o consumo na alimentação, no vestuário, em cosmético, na viagem. De um lado, os jovens que têm essa passividade e esse conformismo estão bem graças ao consumo. De outro, você tem uma juventude muito diferente e dividida, o que chamo de novos trabalhadores brasileiros, que são os trabalhadores precários, sobretudo do setor de serviços e ligados às novas tecnologias de informação, que vivem uma situação de angústia permanente, porque os conhecimentos que eles possuem são conhecimentos que permitem a eles manter um emprego durante certo período, mas a mudança tecnológica é muito rápida, muito violenta e eles logo acabam se tornando descartáveis e desempregados estruturais. Então, você tem uma juventude muito apavorada com o futuro. Finalmente você tem outro grupo de uma juventude que não foi absolvida pelo consumo e que ainda não está mergulhada nos problemas do mercado de trabalho e que é o que chamo de ‘juventude estudantil’, aquela que está mais capacitada a fazer mudanças neste País. A gente tem visto de várias maneiras a criação de formas de organização, de participação social, cultural, política. Então diria que nós temos três grupos de jovens: os do consumo, os trabalhadores, apavorados com o futuro, e os estudantes, que estão se organizando pra mudar este País.

O que você acha do Plesbicito Popular para uma Nova Constituinte?

Sou absolutamente a favor. Fiquei muito contente quando a presidente Dilma no ano passado propôs o plebiscito para esta constituinte, porque desde pelo menos o ano 2000 eu venho batalhando, seja nos meus escritos, nos meus cursos, nas minhas discussões, venho batalhando pela necessidade da reforma política no Brasil. O nosso sistema partidário foi feito pelo general Golbery do Couto e Silva (período de Ditadura Militar), em meados dos anos 1970, quando começou a chamada transição democrática ou abertura democrática. Naquela época, havia só dois partidos políticos, Arena, que era do governo, e o MDB, a oposição. E o que aconteceu? O MDB começou a crescer e o general Golbery disse que se nós fizermos a abertura democrática com o MDB crescendo, a Arena perderia poder. Então, ele criou alguns instrumentos que foram chamados de ‘salva-guardas’ para garantir que a Arena conservasse o poder. Ele dividiu os Estados, criando o Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, para que houvesse (mais) senadores e governadores. Com isso, ele ampliou e aumentou o poder da Arena contra o MDB. Só que ao criar esse sistema, logo em seguida propuseram também o pluripartidarismo, (na lógica de que) se você tiver vários partidos, você também enfraqueceria o MDB. O resultado desse sistema montado tem vários problemas. Há, então, uma deformação da representação, sub-representação e super-representação. Outra questão é o modo de funcionamento do pluripartidarismo, que faz com que ninguém eleito para o Poder Executivo, seja no município, no Estado ou na República, tenha poder, pois depende inteiramente de negociações com o Congresso e negociações com essa pluralidade de partidos, o que força o governante a fazer alianças que o seu partido não gosta, que os eleitores não gostam. São alianças sempre muito complicadas, problemáticas, que levam a colocar pessoas que não estão afinadas com o programa de um determinado partido como parte do governo, além das negociações ininterruptas com o Poder Legislativo. Se você não fizer uma mudança na estrutura política partidária brasileira, você não vai acabar com a corrupção. A corrupção não é um problema moral, está ligada a uma questão de falta de caráter das pessoas. A corrupção está ligada aos defeitos institucionais do sistema político brasileiro. A reforma política é aquilo que vai finalmente introduzir no Brasil uma ética republicana.

Jornalista, professor e educomunicador. Responsável pelos conteúdos da Agência Jovem de Notícias e Revista Viração.

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1 Comentário

  • Foi a primeira vez q acessei,achei super interessante,é muito importante e temos que cada vez mais participar envolver toda a sociedade, portanto quero participar p/ contribuir com algo, pode enviarem.

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