“Maid” e a importância de se falar sobre outros tipos de violência doméstica

A nova série da Netflix no contexto patriarcal e de violências de gênero da nossa sociedade.

Por Bel Pessoa

Sinopse 

A minissérie “Maid” novo sucesso original da Netflix estreou no último mês contando a história de Alex (Margaret Qualley), uma mãe solo que precisa recomeçar a vida como faxineira após deixar o marido abusivo Sean (Nick Robinson) e a casa em que vivia carregando apenas alguns pertences, a sua filha pequena e a esperança de um futuro melhor para as duas. Além de todas as dificuldades de se manter e arrumar um lugar para ficar, Alex ainda tem que enfrentar uma batalha judicial contra seu agora ex-companheiro pela guarda de sua filha enquanto tem de lidar com a mãe (Andie McDowell) que sofre de distúrbio bipolar.

A série aborda de forma realista e dramática a situação de muitas jovens mães que precisam tomar controle de suas vidas após vivenciarem relacionamentos abusivos, tendo que encarar um sistema que muitas vezes dificulta mais do que auxilia. Fala sobre a dedicação e sacrifícios de uma mãe solo, passando por questões de saúde mental e relações sociais e de trabalho. 

Maid usa de recursos visuais para tentar, com sucesso, imergir a audiência nas dificuldades da personagem até terminarmos com um nó na garganta, torcendo a cada minuto para algo de bom acontecer em sua vida. Um ótimo exemplo é o uso de um contador na tela, que mostra o dinheiro que Alex ainda tem pra se manter, que vai caindo a cada compra feita, e uma sequência de notícias ruins acontecendo em constância. Sem quase nenhum alívio entre as cenas, os episódios podem deixar o público com uma sensação de impotência, como se estivéssemos acompanhando esses acontecimentos de alguém próximo e não pudéssemos fazer nada a respeito. 

Zona de spoilers!

Antes de entrarmos nesse assunto, vale ressaltar a relação entre classe social e questões raciais presente na narrativa da série. Mesmo a maioria dos protagonistas sendo brancos, todos os personagens em posições de poder são negros, como a dona da mansão em que a Maid trabalha, a Juiza, o amigo classe média, a dona do abrigo, entre outros personagens. Mostra, assim, uma outra perspectiva suburbana, poucas vezes explorada nas grandes produções, com uma população branca passando por dificuldades ao invés das populações geralmente retratadas em comunidades como a negra e a latina.

danielle-episode-2-recap-maid. Divulgação Netflix

Maid revela o lado oposto do famoso American way of life, apresentando uma população menos favorecida dependente de um sistema burocrático e contraditório de políticas assistenciais para pessoas de baixa renda nos Estados Unidos. Assim que Alex entra com os processos para buscar auxílio e recursos em um programa de assistência social, se depara com uma série de requisitos e exigências, como a necessidade de ter um endereço fixo e vínculo empregatício, coisas que a mesma não possuía. Alex teria que arrumar um trabalho, tendo uma filha pequena para cuidar e sem poder colocá-la em uma creche, justamente por não ter um emprego.

Preciso trabalhar para provar que preciso de creche para conseguir um trabalho?

A “solução” então seria se encaixar como vítima de violência doméstica, e assim conseguir uma vaga em um abrigo para mulheres. Ao ser relembrada da opção, a protagonista afirma: 

Eu odiaria pegar a vaga de alguém que sofreu violência de verdade.

E é então então que entramos em uma das principais temáticas que a série busca abordar: O que é de fato uma violência? 

A série busca apresentar, de forma realista, como a violência doméstica e relacionamentos abusivos estão muito além da violência física. Maid faz isso através de uma narrativa que apresenta a mesma situação sob diferentes óticas. A personagem Danielle (Aimee Carrero) é uma vítima de violência doméstica que saiu do abrigo após voltar para seu antigo abusador. A protagonista. num primeiro momento, não consegue entender como isso pode acontecer e a responsável pelo abrigo (BJ Harrison) lhe afirma que isso é mais comum do que se imagina.

Alex-maid. Divulgação Netflix

Então nos episódios finais, Alex entende da pior forma essa realidade ao acabar fazendo o mesmo que a amiga, e nos mostrando na prática o ciclo da violência familiar e doméstica: emocional, psicológica e patrimonial, e todos os seus vieses. Muitas vezes esses homens são retratados de forma agressiva cem por cento do tempo, e fica difícil compreender os motivos e os gatilhos para as vítimas reatarem seus relacionamentos, mas Maid consegue fazer isso com sucesso ao apresentar o abusador de uma forma menos detestável e até mesmo compreensível em alguns momentos. Sean tem momentos bons e gentis com Alex, com a filha e até mesmo com sua mãe, demonstrando que o abusador não é ruim o tempo todo e que isso também faz parte do ciclo de violência – o que torna muito mais difícil o processo de independência, fazendo mulheres se questionarem se estão certas em rompê-los. 

A falta de entendimento sobre violência emocional não impede apenas mulheres de se entenderem como vítimas mas de terem acesso e assistência jurídica e legal e isso é evidenciado na série, em todos processos burocráticos desde o abrigo até o tribunal.

Alex é posta à prova o tempo todo, seus interlocutores duvidam de seus relatos e é até mesmo acusada de mentir sobre os abusos, pois é alegado que não existem provas suficientes para caracterizar uma agressão. O machismo institucional dificulta e reduz todas as possibilidades de Alex se manter sozinha e descredibiliza as condições de cuidado que Alex pode oferecer à filha; isso faz com que ela seja constantemente posta em um rótulo de mãe ausente e irresponsável, que expõe a filha ao perigo, chegando ao ponto da guarda da criança ser dada a Sean, mesmo ele apresentando tendências à agressividade e pouca participação ativa na criação da filha.

Isso só afirma o papel simbólico de super-heroínas muitas vezes exigido de mulheres mães, no qual basta um erro para serem acusadas, enquanto pais que fazem o mínimo não são questionados e, pelo contrário, são aplaudidos.

Por último, a história da mãe de Alex com o ex-marido e sua relação com seu atual companheiro trás à tona a triste perspectiva geracional com relacionamentos abusivos, que está muito ligada à falta de conhecimento sobre o que é de fato um abuso e sua banalização, que é passada adiante de mãe para filha. Como um ciclo de violência que atravessa gerações. O pai, O marido, O filho.

É preciso de atos de coragem e força de mulheres para romper esses ciclos, e a série apresenta a história de apenas uma delas. Mas quantas Alex existem por aí? 

Indicações 

Se você gostou de saber mais sobre Maid, recomendo que dê uma olhada em outras histórias que abordam esse tema de forma parecida:

  • É assim que acaba 
  • Inacreditável
  • Smilf

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *