Porto Velho Rondonia 07 08 2020 Imagem aérea de área preparada para monocultura ou pecuária, próximo a Porto Velho. 07 de agosto de 2020. (Foto Bruno Kelly/Amazônia Real)

“Made in Brazil”: commodities e ofensas

Nosso país tem uma bela trajetória diplomática, mas nos últimos tempos estamos exportando uma imagem negativa do nosso país.

Por Victor Augusto Capellari

Isso pode ser surpreendente, levando em consideração a quantidade de coisas “Made in China” que encontramos por aí, mas a verdade é que a China compra muita coisa do Brasil, ou para ser mais preciso, compram uma coisa em quantidade colossal.

Soja em grãos. Foto: Valter Campanato

O Brasil exporta basicamente commodities, com preço uniformemente determinado pela oferta e procura internacional, nesse caso soja.a China exporta itens manufaturados, prontos ou em peças a serem montadas aqui, além de outras tecnologias.

Essa relação pode lembrar o tratado de panos e vinho, assinado entre Portugal e Inglaterra, criado para facilitar o comércio de vinho lusitano e produtos têxteis ingleses. Acontece que, com isso, os portugueses não investiram na industrialização e sua economia se tornou presa aos britânicos.

A industrialização, além de abrir novas oportunidades de emprego, traz espaço para a mão de obra especializada junto com iniciativas como a do Sistema S, com o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), que qualifica a mão de obra, e o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), que dá suporte para iniciativas empreendedoras. 

Outra atitude inteligente seria investir nas pesquisas universitárias, como aquela que está tentando desenvolver um ventilador pulmonar aberto de baixo custo para a crise do coronavírus, ou investir em pesquisas para o desenvolvimento de remédios e produtos cosméticos aproveitando a biodiversidade nacional, no lugar de destruir tudo para plantar soja.

Desmatamento e Queimadas 2020 RONDONIA 07 08 2020 Imagem aérea de queimada próxima à Flona do Jacundá, em Rondônia (Foto Bruno Kelly/Amazônia Real – Fotos Públicas)

Também poderíamos investir nas redes básicas de ensino, para que mais gente consiga chegar à faculdade. E melhorar a qualidade de vida e saúde básica para abrir espaço para empreendedores. Afinal, tudo o que movimenta a economia e desenvolve a nação. 

Mas, apesar de tudo, a relação comercial com a China tem seu lado positivo: estamos em superávit, isso significa que, fazendo as contas entre exportação e importação, estamos no lucro.

Uma estratégia seria investir, nem que seja parte desse dinheiro, nas pesquisas universitárias, educação e industrialização nacional.

Mas o caminho escolhido, pelo menos pelo filho do presidente, foi ir às redes sociais falar do “vírus chinês”, sem se importar com as advertências da OMS (Organização Mundial de Saúde).

A “gripe espanhola” só tem esse nome porque a Espanha foi o primeiro a reconhecer a existência da doença que já existia em outros países. Dar o nome de uma cidade ou país funciona como imposição, pode atrapalhar o comércio e turismo, levando as cidades no futuro a esconder a existência de novas doenças, vírus e bactérias. 

Infelizmente esse não é nosso único problema nas relações internacionais – depois de anos negociando, estamos jogando fora o possível acordo entre o Mercosul e União Europeia.  

Algumas pessoas tinham medo de, com esse acordo, o Brasil virasse de vez a fazenda do mundo, e um dos preocupados com isso é a França, que alinhou seu medo de ter que concorrer com produtos brasileiros no mercado europeu com seu histórico posicionamento em questões ambientais. 

A estratégia tomada foi pedir uma diminuição do uso de agrotóxicos, já que o Brasil utiliza até mesmo aqueles que são barrados no resto do mundo.

Nossa resposta foi queimar uma floresta e falar da esposa do presidente francês.

Nossa indústria também sofre com isso, afinal os carros brasileiros já são os mais usados em todo o Mercosul, e esse acordo poderia levar nossos veículos ao mercado europeu e incentivar a indústria nacional. Nosso país tem uma bela trajetória diplomática, mas nos últimos tempos estamos exportando uma imagem negativa do nosso país. Se não tomarmos cuidado e desenvolvermos uma estratégia para o desenvolvimento nacional, pode ser que isso também seja destruído para virar pasto.

Porto Velho Rondônia 07 08 2020 Imagem aérea de área preparada para monocultura ou pecuária, próximo a Porto Velho. 07 de agosto de 2020. Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real-Fotos Públicas

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