Luta permanente: reflexões sobre o processo de tornar-se negro

Karine Silva dos Santos, Letícia Pinheiro Vidinha, Vitória Soares do Monte Pereira, da Plataforma dos Centros Urbanos de São Paulo (PCU/SP) | Fotos: Gabriela Santos

O processo de formação de identidade é, sem dúvida, muito tortuoso para o jovem.

O racismo pode influenciar gravemente na formação, aceitação e reconhecimento da negritude dos adolescentes e jovens, gerando insegurança e problemas de autoestima. “Construir minha identidade foi um processo longo, bem longo. Você se ver como negro é um peso muito grande”, conta a estudante Suzana Nascimento, 19 anos, moradora da zona leste de São Paulo.

O peso de se reconhecer fora dos padrões de beleza, impostos pela sociedade, faz da adolescência uma fase dolorosa e muitos adolescentes negros tentam, de alguma forma, se enquadrar. “Pra ser bem sincera, ninguém quer ser negro. Nenhum jovem, nenhuma criança quer ser negra. É um peso você se aceitar. Eu comecei a alisar o meu cabelo com 12 anos. Tem a exclusão que a gente vê na teoria, mas quando acontece com a gente é difícil. A gente não quer passar por isso. Você não quer sair para arrumar um emprego e não arrumar por ser negra, por ter um cabelo crespo. Você não quer não arrumar um namorado por ser negra e ter o cabelo crespo. Então, você vai e alisa o cabelo. Você se mata naqueles produtos horríveis. Mas seu cabelo não é liso, ele não vai ser liso, por mais que você queira”, diz Suzana.

Além disso, a falta de representação e o pouco conhecimento sobre a cultura africana faz com que o processo de identificação com suas origens seja prejudicado. “A gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha, dentre outras, mas tornar-se negra é uma conquista”, diz uma frase célebre da militante feminista Leila Gonzales.

Definitivamente, o emponderamento de jovens negros é um ato crucial para a preservação e a sobrevivência da cultura africana e afrobrasileira. Algo que muitas vezes a sociedade não incentiva. Por isso, é importante encorajar jovens negros a amar suas raízes.

Representação importa: a Lei 10.639

Já imaginou nunca ver ninguém parecido com você nos livros, na TV, no cinema? Pois é, a falta de representação é algo grave. Na literatura brasileira, por exemplo, quando há uma representação do negro, eles são retratados em situações ruins.

“O protagonismo negro não é um tabu só nas editoras. É um tabu na sociedade brasileira. Ainda somos vistos como cidadãos de segunda classe, de menor desenvolvimento intelectual. Em produtos midiáticos somos folclorizados. Nossos personagens em novelas são solitários, não têm família, são escravizados ou trabalhadores em função meramente braçais”, avalia o escritor e jornalista Oswaldo Faustino.

Para tentar garantir maior conhecimento e representação do negro, foi criada a Lei 10.639/03 que prevê o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana dentro do sistema de educação formal. “Essa legislação pode e deve trazer à tona as riquíssimas e valorosas contribuições do negro para o pensamento científico e social brasileiro. A ocultação do protagonismo dos negros contribui para uma autoimagem maligna de grande parcela da população e para disseminação de preconceitos”, explica Christian Moura, mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Mas, apesar de ter completado dez anos de existência, a Lei ainda não é plenamente implementada. Segundo Denise Vitoriano, professora da Escola Estadual Dr. Alarico Silveira, não há material adequado para a aplicação do que prevê a Lei na realidade das instituições de ensino. Para ela, é preciso material que ajude a desconstruir a abordagem degradante do negro na literatura. “Tem que mostrar o lado heroico do negro, que não é mostrado em lugar nenhum”, diz.

Assim como na literatura, na música, o artista negro é também inviabilizado, e os estilos que se associam com a comunidade negra também, como o rap e como, durante muitos anos, foi o samba. Segundo Alexandre Rodrigues, do Grupo de Rap Sem Massagem, “pro Rap é sempre mais difícil. Na realidade, se nós formos pegar todos os estilos musicais que nós temos aqui no Brasil, que não são poucos, e comparar com o rap, este é mais complicado, porque sempre foi marginalizado, por ter um cunho protestante, político, com grupos como Facção Central, A286, Trilha Sonora do Gueto, entre outros. Há um cunho político que agride o sistema e que mostra a realidade”, analisa.

Do luto à luta: O racismo mata!

Não há como falar de racismo sem citar uma de suas faces mais cruéis: o genocídio da população negra. Em 2012, o Brasil registrou 30.000 homicídios de pessoas entre 15 e 29 anos, destes, 77% eram negros. Um jovem negro tem três vezes mais chances de ser assassinado do que um jovem branco. A cada, dia sessenta e dois jovens negros são mortos no país.

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Nem sempre esses assassinatos são estampados nos jornais, mas estão presentes no nosso dia a dia. As denúncias têm sido cada vez mais frequentes. Ainda assim, há quem defenda a hipótese de que as mortes de jovens negros são apenas homicídios. Outros acreditam que o que ocorre é um genocídio, que denomina o extermínio parcial ou total de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso.

Ao longo da última década, algumas ações governamentais têm tido foco no enfrentamento aos altos índices de homicídios de jovens negros, como o Plano Juventude Viva, criado em 2014, pelo governo federal. No entanto, os dados mostram que as ações ainda não conseguem estancar o que hoje é um dos mais graves problemas do país. “Eu acredito que as políticas públicas auxiliam no combate a esse extermínio, mas elas não têm sido tão eficazes. Elas não têm dado conta de fazer com que a sociedade pare e pense que os jovens estão sendo mortos, estão sendo mortos em quantidades assustadoras”, comenta a cineasta e ativista Renata Martins.

Além da morte física, a educadora social Thais Rosa defende que existem muitas formas de mortes da população negra. “Genocídio não é só o que mata com bala, mas também quando, todo mês de maio, a professora pega uma criança negra e diz que ela é descendente de escravo”, diz.

“O racismo é estrutural e mata de várias formas. A morte física do jovem negro é uma das etapas do genocídio da cultura negra”, completa Renata. 

 Feminismo Negro

As particularidades das demandas da população negra feminina trouxeram à tona uma nova vertente do movimento feminista. O feminismo negro é um movimento social que vem lutando no Brasil desde 1980. Iniciou-se com o protagonismo das mulheres negras, com o objetivo de promover e trazer visibilidade às pautas e reivindicar os seus direitos. A opressão enfrentada pela mulher negra nunca foi apenas o machismo, abrange também o preconceito e o racismo pelos seus fenótipos negros.

“Ser mulher e ser negra me trazia outras demandas para além da luta com relação ao gênero… A mulher negra, além de lutar pelo seu direito a ter o mínimo de equidade com o homem, luta por sua humanidade. Ela luta para que o filho tenha direito à creche, para que os seus fenótipos negros sejam respeitados; seu cabelo, sua pele e seu corpo”, explica Thais.

As pautas das mulheres negras dialogam com outras demandas da população negra, por representatividade, empoderamento, reconhecimento. “A mulher negra luta quando entra na universidade e ela não encontra referências positivas da sua história. A mulher negra, hoje, alcançou um lugar de visibilidade muito grande, com muita luta. Essa mulher está em construção, está em um processo de empoderamento”, conclui.

 

Esse texto faz parte da Campanha #ResistirParaExistir, realizada pelos jovens da Plataforma dos Centros Urbanos (PCU), uma iniciativa do Unicef em parceria com Viração Educomunicação. O projeto também contou com fotos, vídeo e gifs

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2 Comentários

  • Excelente matéria. Parabéns a vocês.

    • Oi Denise! Se gostou, dá uma curtida ou compartilhamento nas redes sociais. Assim, mais pessoas podem ver esse texto! Também achamos que você vai gostar dessa matéria sobre os desafios enfrentados pelas mulheres negras no cinema >>> https://goo.gl/cijwzb

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