Livro didático: Um instrumento essencial para o processo de ensino-aprendizagem

O livro didático é representante de uma conquista política que alicerça a nossa educação e necessita de um processo contínuo de reatualização para o estabelecimento de uma educação mais libertadora.

Por Eduardo Morais

A formulação de um livro didático perpassa por um longo processo, envolvendo pesquisadores, autores, editores, revisores, diagramadores e uma gama de especialistas centrados na construção de um material teórico que forneça suporte aos educadores e estabeleça, na sala de aula, diferentes formas de ensinar por meio de propostas inovadoras para dinamizar a prática pedagógica.

Seja por meio de batalhas de “slam” nas aulas de Língua Portuguesa ou criação de produções audiovisuais nas aulas de Artes, o material didático apresenta, para o professor, múltiplas abordagens que inserem o aluno como sujeito ativo no processo educacional.

O livro didático é um bem cultural fundamentado em largas pesquisas que visam acessibilizar a sua compreensão baseado no nível de ensino e público atendido, norteado por documentos cruciais na educação brasileira, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCN) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), pactuados socialmente após extensos debates integrando os mais diversos setores.

Uma produção que envolve uma metodologia séria, compondo parte significativa dos materiais pedagógicos da educação brasileira, sendo um dos únicos livros que milhares de pessoas terão acesso ao longo da vida.

No Brasil, a Associação Brasileira dos Autores de Livros Educativos (ABRALE), é uma das maiores entidades no assunto e agrupa profissionais que desenvolvem a parte teórica dos livros didáticos, além de agenciar o processo de compra de livros didáticos e viabilizar articulações no setor.

Vídeo que apresenta a trajetória dos livros didáticos em nível nacional

Desde 1985, o Brasil promove o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), um projeto que democratiza o acesso do livro didático para estudantes de toda rede pública de ensino nacional. A ação consolida a busca por uma educação que pretende capilarizar o seu acesso e conceder oportunidades em larga escala.

Desafios futuros

Vídeo que analisa as atualizações dos livros didáticos no Brasil

Com a repaginação do Ensino Médio público brasileiro, o agrupamento das Áreas do Conhecimento em grandes núcleos reconfigura totalmente o livro didático: suprime aspectos importantes de serem inseridos na grade curricular e aumenta, substancialmente, o volume de páginas e o peso de um livro didático.

O que era um sonho de democratização, converte-se num grave entrave em um país com uma mobilidade urbana precária e entranhado em múltiplos desafios na educação pública, como a precarização do magistério e a evasão escolar. A situação dos alunos ribeirinhos, dos que habitam os rincões do território brasileiro ou vivem em espaços apartados de alguma instituição de ensino, pode se tornar ainda mais difícil.

Uma educação que precisa ser repensada, um projeto de ensino que não beneficia a educação pública e produz mais desigualdades. Um sistema de opressões que objetiva promover a sua manutenção, em contraponto aos livros didáticos que, em tese, deveriam almejar uma educação libertadora.

Vídeo produzido pelo Instituto Claro que propõe perguntas acerca dos livros didáticos no cenário nacional

A junção de todos esses desafios é o ponto focal para onde os profissionais da educação devem destinar a sua atenção:

Como desenvolver um livro didático que “mergulhe” em novas narrativas sem cair nas armadilhas do revisionismo e da pseudociência?

Como desenvolver uma educação que acolha as diversas realidades e absorva-as ao cotidiano escolar?

Como formar sujeitos críticos e capazes de desenvolver novos modos de vida em sociedade?

Como propor novas formas de ensino e instigar os professores a utilizá-las?

Como direcionar os livros didáticos para atuarem enquanto aliados da educação pública brasileira sem suprimir conteúdos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)?

Como selecionar livros didáticos sem haver interferência política?

Essas são algumas das indagações que devem rondar o debate acerca do livro didático no contexto da educação pública brasileira. Novos pensares são essenciais para a compreensão das nossas pluridimensionalidades nacionais, e para a elaboração de um livro didático que não se dissocie dos nossos desafios enquanto nação, uma educação que pense no sujeito e suas inúmeras capacidades.

Para finalizar, pontuo que apesar do livro didático abranger toda a camada educacional do país, tanto instituições públicas, como privadas, pretendi focar na educação pública, por ser a mais complexa e a que apresenta maiores desafios nessa área do livro didático. Mesmo assim, as observações quanto aos critérios de produção de um livro didático atendem ambas modalidades: a de ser um material pedagógico que proponha a reflexão e pense na integração efetiva do aluno com o espaço escolar.

Criança e livros. Fonte: SEDUC/MT, 2019.

Quer saber mais? Leia também:

  1. O mercado do livro didático no Brasil do século XXI: A entrada do capital espanhol no Brasil do século XXI”; de Célia Cristina de Figueiredo Cassiano publicado pela Editora Unesp. Analisam-se as políticas públicas voltadas para o livro escolar e o mercado editorial brasileiro a partir de 1985. Mostram-se as tensões de um mercado milionário e investigam-se as relações entre os fenômenos extra escolares inerentes à política e à economia do livro didático, onde as disputas por espaço são agressivas, numa abordagem clara e instigante sobre os vínculos entre Estado, economia, cultura e educação.
  2. “Dos tempos imperiais ao PNLD: a problemática do livro didático no Brasil”; produzido por Aline Aparecida e Laura Laís, navega pelo universo do livro didático desde os tempos imperiais e aponta o papel do livro didático na construção nacional.
  3. “O mercado do livro didático no Brasil: da criação do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) à entrada do capital internacional espanhol (1985-2007)”; busca explicitar que processos globais vinculados à política e economia do livro didático, numa dimensão nacional e internacional apesar de extrapolarem os portões escolares, resultam em determinações de mercado para o currículo desenvolvido nas escolas.
  4. Infográfico sobre a trajetória do livro didático no Brasil desenvolvido pelo CENPEC

Ver +

2 Comentários

  • Gostaria de saber como denunciar uma escola que não entrega o último volume do livro didatico do ano, alegando não existir, o que é uma grande mentira comprovada.
    PS: proprietários dando golpes e estão de mudança para outro estado.

    • Quezia, acreditamos que se for uma escola pública, você pode tentar contato com a diretoria de ensino da sua cidade/região. Se for escola privada, você pode tentar buscar orientações na defensoria pública ou mesmo na secretaria de educação. Esperamos ter ajudado!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *