Livre é o povo armado?

Uma reflexão sobre liberdades individuais e os argumentos utilizados por quem defende a liberação do porte de armas no Brasil

Por Victor Augusto Capellari

Muitas pessoas já debateram sobre o significado de liberdade. Para esse texto, eu escolhi a minha definição preferida, a do filósofo francês Jean-Paul Sartre, segundo a qual nossa liberdade não pode ser tirada.

Um escravo pode tentar fugir, assim como um prisioneiro que tecnicamente, já escolheu desrespeitar a lei estabelecida anteriormente, e agora responde por esse ato. 

Estamos condenados a ser livres, isso significa que devemos escolher e aceitar as consequências de nossos atos, mesmo que nossa escolha seja não escolher, pois essa já é uma escolha.

O problema é que muitas pessoas têm dificuldade em aceitar essa responsabilidade, e permitem que outros guiem suas escolhas, e nessas de passar a responsabilidade para terceiros, corremos o risco de perder nosso senso crítico.

Imagine tal cenário:

um guarda de estacionamento está no final do seu expediente quando um carro estaciona em lugar proibido. O guarda já fica triste por ter que lidar com a situação, tinha sido um dia cansativo e ele queria ir para casa, jantar, ver a esposa e os filhos. Mesmo assim ele se aproxima do carro e informa o motorista que aquele era um lugar proibido, afinal esse é o seu trabalho. Nesse ponto o motorista responde, você sabe com quem está falando, eu sou o Presidente da empresa. O guarda fica feliz, pode ir para casa, afinal o dono do carro e autoridade. 

Mas porque será que era proibido estacionar naquele lugar? Poderia ser uma vaga para deficientes, por isso proibida para o Presidente, que estava se apropriando de algo que deveria auxiliar uma parcela necessitada, em benefício próprio, ou poderia fazer parte de uma rota de fuga para incêndio, algo que geralmente podemos não dar tanta importância até que seja tarde demais e infelizmente não tenha escapatória. 

Acontece que, ao passar a responsabilidade para o outro, sentimos ao mesmo tempo uma sensação de controle, mas sem a responsabilidade, afinal não precisamos nos preocupar a autoridade vai resolver. Entretanto esquecemos de uma regra primordial, ninguém está acima da lei. 

(Importante ressaltar o contexto: sei, por exemplo, que existiam leis racistas que, através de muito esforço e luta, foram abolidas, mas esses são casos de leis construídas para manter a desigualdade e não a justiça).   

O risco é de se abrir uma brecha e nunca mais conseguir fechá-la. Como evidencia a teoria da janela quebrada, independente do bairro, cidade ou país, qual carro você acha que tem mais chance de ser roubado, um carro intacto ou um com a janela quebrada? Como já existe uma brecha, é muito mais fácil roubar o carro com a janela quebrada; além dele passar a mensagem de descaso, que o dono não se importa, então não teria problema se o equipamento de som ou o estepe desaparecessem.

De que adianta armar a população nesse sentido? Com o argumento de que assim nenhuma ditadura se levantará, se afinal até nossas próprias opiniões e memórias podem ser manipuladas? 

Aqui não falo da minha opinião sobre porte de armas; seria necessário uma explanação a parte sobre o assunto, minha opinião é sobre o quão acho irracional esse argumento.

Afinal, mesmo em uma ditadura que seja contra o porte de armas, a revolução conseguiria armas por outras vias – vamos lembrar que já existe o mercado ilegal de armas de fogo. 

É muito mais benéfico para o estabelecimento de uma ditadura ou para a manutenção da corrupção, ter uma população que desconhece e desrespeita a constituição do que uma população desarmada e preparada para o debate de ideias.

O que nos leva a mesma tecla: a principal ferramenta para o desenvolvimento é a educação. Precisamos conhecer nossos direitos e deveres, e arcar com nossas responsabilidades em prol da democracia.

Imagem destacada: Portal Justificando / Reprodução

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