Literatura para todos

Quanto e por quanto tempo eu tenho que ler? Leitura tem de ser sempre por prazer?

Esse texto traz uma reflexões sobre o hábito da leitura e a relação que temos com a literatura.

Por Lucas Schrouth

A literatura de forma geral é tida como a arte de lidar com a linguagem, portanto é uma representação da realidade tratada de forma artística. Este conceito de arte e literatura é muito importante, pois nos leva a entender a escrita literária e a leitura literária como ações em contato de produção ou contemplação de arte.

Muitos não sabem mas ‘Literatura’ é um termo recente que remonta ao século XIX, antes quando se queria referir ao que hoje entendemos por literatura usava-se os termos Arte Literária, Belas Artes ou Poesia.

Isso nos traz luz que ler literatura é uma forma de experimentar arte de uma nova forma – que no momento em que é mencionada nos remete imediatamente à arte física de museus e exposições. 

Para se compreender e ampliar a sua própria leitura literária é preciso entender a função da literatura – a fim de entender o que o autor quer – em virtude do caráter imaginativo e simbólico o bom escritor utiliza de diversos recursos a envolver o leitor. O som, a métrica, a forma, a narrativa e enredo são fatores que ao ler deve se prestar atenção para que se enxergue o todo maior que o autor deseja que você experimente de forma o mais consciente possível.

A importância da Literatura

A experiência literária é antes de mais nada arrebatadora e acima de tudo transcendente, quem nunca se deparou à situação de estar lendo um livro que você precisa desesperadamente saber como terminará ou um livro que você lê e aquelas cenas ficam perpassando sua mente por vários momentos. O texto quando bem escrito, quando transcreve a realidade de uma forma tão clara textualmente que nos faz ir além de nossa vida imediata.

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— Eu lhe juro, Aurélia. Estes lábios nunca tocaram a face de outra mulher, que não fosse minha mãe. O meu primeiro beijo de amor, guardei-o para minha esposa, para ti…

Soerguendo-se para alcançar-lhe a face, não viu Seixas a súbita mutação que se havia operado na fisionomia de sua noiva.

Aurélia estava lívida, e a sua beleza, radiante há pouco, se marmorizara.

— Ou de outra mais rica!… disse ela retraindo-se para fugir ao beijo do marido, e afastando-o com a ponta dos dedos.

A voz da moça tomara o timbre cristalino, eco da rispidez e aspereza do sentimento que lhe sublevava o seio, e que parecia ringir-lhe nos lábios como aço.

— Aurélia! Que significa isto?

— Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.

— Vendido! exclamou Seixas ferido dentro d’alma.

José de Alencar, Senhora

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Acima, o trecho de um diálogo de Senhora de José de Alencar onde o jovem casal Aurélia e Seixas estão em seu quarto para consumar a noite nupcial. Seixas declara voluptuosamente seu amor e Aurélia que agora não mais pobre mas muito rica, se recorda com amargura quando fora deixada por Seixas que se comprometia com uma moça que na época lhe daria melhor recompensas e estilo de vida. Neste momento, neste exato instante onde Seixas está totalmente entregue a Aurélia, ela o rejeita – consuma o plano que tanto esperava – e apresenta a Seixas o fato de que este casamento é um acordo, uma transação e ele agora é o produto adquirido por sua senhora. 

Para quem acompanha uma obra e faz esta experimentação de mergulhar-se na história, de sentir o que sente os personagens e consegue por força imaginativa se interpor nas paisagens e cenários ali descritos, somente para quem se entrega a este mar de letras que a Literatura alcança seu sentido ultimo.

A concretude do objeto literário não consuma-se nas páginas dos livros ou nas estrofes dos poemas, mas também na interação do sujeito leitor – um diálogo literário. 

Mesmo não sendo propósito natural da literatura esta também informa, denuncia, pois mesmo que ficcional nela há uma carga de realidade – os sentimentos que os personagens demonstram a nós também já nos balançou, as situações que eles passaram são passiveis de acontecer, os seus pensamentos podem já nos ter ocorrido. Esta realidade simbólica ou prática transcrita em palavras é o que nos deixa absorto em um novo mundo.

Questões Práticas

Ler é habito e portanto é uma construção, o povo brasileiro em geral quando tenta se introduzir à vida intelectual ou dos estudos logo se frustra ao descobrir que não se aprende todo conhecimento do mundo em uma semana. Não enxergue a leitura como obrigação de planilha, ler tem de ser uma experiência plena na qual você refugia-se e encontra todo um novo mundo, você pode devorá-la com fome, comer por mera questão nutricional ou degustá-la entendendo suas várias nuances. 

Quanto e por quanto tempo eu tenho que ler? Esta dúvida pode surgir mas não é uma questão realmente relevante, o importante é ler e se possível “TODOS OS DIAS”. Leitura tem de ser sempre por prazer? Não, esta ideia pode levar ao extremo de “enjoei na metade do livro, vou largar”, muitas vezes nos deparamos com situações que não nos interessam, não compreendemos, nos revoltam ou pelo vocabulário dificulta a leitura, ante a isso devemos nos lembrar do compromisso que assumimos com o livro e o honremos.

Para construir essa cultura de literacia literária constante é preciso ter paciência, pense que lendo 15 páginas de um livro por dia em um mês teremos 450 páginas lidas, o que pode acarretar em mais de 20 livros por ano. Como eu disse não se prenda a números e gráficos, você deve construir este sentimento leitor. Crie esta constância e abandone preconceitos.

O preconceito literário pode lhe prejudicar muito, algumas pessoas acerca de determinados temas segue listas de leituras pré-determinadas por outros. Nada contra listas leituras, mas advogo para que você confie em seu potencial, quando se deparar com uma leitura difícil não desista e recorra a todos os recursos que possa. Não confie cegamente em tudo que ouvir sobre um livro, LEIA.

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Ele ergueu o livro. 

– Lerei para você. Como distração.  

– Fala de esporte? 

– Duelos. Lutas corpo a corpo. Tortura.  Veneno. Amor verdadeiro. Ódio. Vingança.  Gigantes. Caçadores. Pessoas más. Pessoas boas.  Mulheres belíssimas. Serpentes. Aranhas. Dor.  Morte. Homens corajosos. Covardes. Homens  fortes como ursos. Perseguições. Fuga. Mentiras.  Verdades. Paixões. Milagres.  

– Soa bem – eu disse.

William Goldman, A princesa noiva

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Em suma transforme a leitura obrigatória em leitura de deleite, construa o hábito de ler e isso só é possível lendo. Leia tudo o que puder e sobre tudo que puder, quando você se fizer presente no meio literário irá se surpreender, sua lista de livros em algum momento vai ser maior do que poderá ler em 10 vidas – neste momento você filtra melhor o que lerá e neste ponto você não se vê mais não sendo um leitor.

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