Liderar não é pra todes

Crescem as iniciativas de liderança jovem que afirmam que liderar é pra todo mundo, mas o que significa esse todo mundo de todo o mundo?

Por Vitória Rodrigues de Oliveira

É o dia de encerramento de uma mentoria que me trouxe muitos ensinamentos, inclusive de ter mentores que não vivem a mesma realidade que eu. Foram dois meses de caminhada, toda quarta-feira às 18h. Mesmo que eu soubesse que ser mentorada por pessoas maravilhosas e motivadas a me ajudar fosse incrível, sempre tive uma angústia dentro de mim que falava muito mais alto do que toda a satisfação.

A mulher maravilhosa que acompanhou todo esse processo deixou muito explícito tanto pra mim, quanto para os outros jovens que estavam na mesma, que assim como tivemos um encontro inicial que me agonizou – e você já vai entender o motivo disso, que teríamos um encontro geral para comemorar o fim desse processo de aprendizado.

Digam como vocês entraram aqui e, agora, como vocês saem.

Transparente do jeito que sou, falei para os mentores sobre o que eu falaria nos cinco minutos que tinha disponível. Quando chegou, finalmente, o dia, eu suava: achei que falaria tudo errado, que iria gaguejar, que meu fone falharia, que meus vizinhos iriam brigar na hora da minha fala ou que a minha internet cairia, o que é algo muito normal visto que o acesso a internet no Brasil ainda não é de qualidade, muito menos global.

“Pronto, Vitória: teu momento chegou! Apresenta esses slides cheios de gifs correndo e cala a boca” foi o que pensei quando chamaram meu nome. Liguei meu microfone, a câmera e comecei a exibir a tela. Falei de muitas coisas muito boas: meu projeto andou, aprendi com meus mentores, fui até convidada para palestrar fora do Rio de Janeiro. Sem dúvidas, sou grata pra caramba por todas as oportunidades que surgiram, principalmente pelos amigos que fiz ao longo disso tudo.

Acabei. Ufa, respirei. O clima festivo e animado que acontecia no fim da fala de cada um daqueles jovens, tão determinados e com vontade de mudar pelo menos uma partezinha do país, não aconteceu comigo e o motivo foi muito simples: coloquei a boca no trombone. Não, não literalmente! Mas eu falei o que me incomodou e que não representa nada da minha vivência enquanto uma adolescente que vive de tudo um pouco dos problemas que a sociedade insiste em tapar.

Se todos os mentores aqui são brasileiros, onde mais da metade da população é negra, onde estão essas pessoas no meio dessa sala deste aplicativo de conferência virtual?

Kabum! Silêncio! Não perguntei com a intenção de falar só de quem tava ensinando a gente, os jovenzinhos da parada, mas também querendo saber porque todo mundo achava tão normal isso tudo, até o fato da maioria dos mentorados serem pessoas brancas?

Depois da minha breve apresentação, a qual quase ninguém aplaudiu além do meu mentor que disse que também aprendeu muito comigo, fiquei mal. Fiquei muito mal. Questionava-me o tempo todo se ter soltado isso no ar era loucura, drama meu, ou se era ‘problematização demais’, como muitos dizem por aí. Não era, na verdade.

O que rolou é que foi um grito de desespero por estar cansada de estar presente em espaços que não representam o meu próprio espaço, o meu próprio bairro, o meu próprio Brasil.

Nesse um ano que tô nesse ‘mundinho de impacto social’, eu vi que os que representam a verdade dos problemas são poucos, e quando aparecem são para preencherem simplesmente cotas. É como se essas pessoas não importassem para além da imagem de preocupados que certos espaços de liderança querem mostrar que tem.

Ah, é um neguinho pobre? Vamos postar a foto dele aqui, pra mostrar que a gente se importa sim com a diversidade, apesar dele ser o único deste espaço majoritariamente branco e de classe média alta!

Quando não é assim, o racismo é escancarado, mesmo. No começo deste ano, de 2020, em Davos, cinco ativistas climáticas estavam em uma foto. Todas elas brancas, nascidas em países europeus, menos uma: Vanessa Nakate.

Entretanto, a ugandense foi a única que foi cortada da fotografia pela Associated Press. Greta Thunberg, grande líder do movimento Fridays for Future, jamais seria cortada dessa maneira. Já Nakate, que vive em um país dentro de um continente extremamente violentado ao longo dos séculos, não tem a mesma importância para os mais poderosos. A resposta para isso, a gente já sabe.

Ilustração representa uma jovem negra, a ativista climática Vanessa Nakate. Texto "Respect"
Reprodução Internet

Isso me desespera, sinceramente, ainda mais quando eu vejo algumas pessoas que representam a opressão de quem é mais aceito socialmente falando que todo mundo pode ser líder. Não, todes não podem liderar. É isso.

Nem todo mundo pode liderar enquanto a gente ver os mesmos projetos de liderança juvenil dedicado às mesmas pessoas que atuam nos mesmos projetos de liderança juvenil. Confuso, né? Mas não é. A realidade é essa, e são poucos os que têm visibilidade pra fugir desse discurso elitista no qual todo jovem é considerado agente de mudança independente do que ele faça.

Até o meu início de atuação em projetos, eu achava que não ia dar conta porque minha prioridade sempre foi estudar pra dar uma vida melhor pra mim e pra minha família. Depois disso, achava impossível criar um projeto sem ter grana. No meio desse caminho, acreditei por muito tempo que precisava passar por um curso muito caro de liderança, que extrapola a renda mensal da minha família, para poder ser considerada uma jovem líder.

Atualmente, eu me enxergo como uma pessoa preocupada com o básico. Ponto. Todo mundo que é criança, adolescente, jovem, pode ser uma liderança, isso é fato. O que não dá é pra falar que todo mundo pode transformar, porque isso só rola até a página dois.

Tenho consciência que esse discurso, apesar de ter o belíssimo intuito de empoderar as mais diversas juventudes, também tapa seus olhos para o que tá acontecendo na realidade. Nem todo mundo pode transformar se não tem visibilidade, dinheiro, estudo, contatos, projetos, amigos, apoio, disponibilidade, internet, família, vida.

Eu digo isso porque na minha rua a maioria das crianças estuda ou num colégio estadual completamente sucateado que tem aqui perto ou em algum colégio particular de bairro, onde a mensalidade é relativamente baixa e que os pais se matam de trabalhar para conseguir custear.

Tenho certeza que não estaria onde estou hoje se estivesse em uma destas escolas, mas atualmente tô numa instituição federal – que apesar de todos os desmontes, ainda tem seus privilégios. Seria muito difícil ser uma líder se eu não  tivesse passado em um concurso público ou se estivesse fora das principais escolas de elite que incentivam a realização de trabalhos voluntários de alunos.

E olha, nada vai mudar se apenas poucos se mobilizarem pra fazer coisas muito brabas com pouco.  É isso, sabe? Ainda vai ser difícil ver todo jovem sendo um transformador quando jovens fora da escola são 12%, quando os jovens que estão matriculados na escola não conseguem acompanhar a aula virtual porque estão trabalhando, quando crianças pretas estão morrendo por projéteis de balas de fogo frequentemente e quando um adolescente trans tiver medo de falar para a sua família que é o que é. E olha, vai muito além disso tudo.

Sei muito bem que os projetos de protagonismo jovem são importantes, e foram inclusive eles que fazem com que eu esteja publicando textos mensalmente na Agência Jovem de Notícias.

O rolê deste texto é fazer com que as pessoas vejam que não basta ter jovens em espaços considerados importantes, mas que elas se perguntem exatamente que jovens são esses, o que elus representam, de onde vem e o que querem para poderem viver num país onde tenham que resolver coisas que são, nada mais, nada menos, um dever a ser cumprido por quem colocamos no poder e que deveria, em tese, proteger a todes.

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *