Mercedes Sosa: Com vocês, La negra!

Cantora Mercedes Sosa foi a voz que politizou uma geração na Argentina

Fernanda Garcia, do Virajovem Campo Grande (MS)

Ilustração de Novaes, colaborador da Agência Jovem de Notícias

Mercedes Sosa era mais do que uma cantora argentina, Mercedes era toda ela alma latina. Pontuou a música de uma geração que ajudou a politizar por meio da música. É símbolo de uma época em que a Argentina clamava por liberdade. La Negra, como era conhecida, cantou a liberdade em tempos de ditadura militar em seu país.

Descoberta aos 15 anos em um concurso de rádio, consagrou-se internacionalmente nos EUA e Europa em 1967, e em 1970, com Ariel Ramirez e Felix Luna, gravando “Cantata Sudamericana” e “Mujeres Argentinas”. Gravou um tributo também à chilena Violeta Parra.

Censurada e perseguida na década de 1970, seus discos, carregados de crítica social, se converteram em um referencial durante o último governo militar argentino (1976-83). Sosa ainda demonstrou oposição durante os governos militares de diversos países da América do Sul nas décadas de 1970 e 80. A prisão aconteceu em um show para universitários. Libertada 18 horas depois, Sosa foi embora para a Espanha e depois para a França. O diretor musical da cantora, Popi Spatocco, disse que o exílio foi excessivamente difícil para uma mulher que amava a Argentina. Sosa voltou para casa apenas em 1982, nos meses finais do regime ditatorial.

Dona de uma voz imponente de contralto, sua presença no palco bastava-se pelo talento e pelo visível prazer de interpretar grandes compositores latinos. Com poesia, La Negra foi a voz de tantos oprimidos.


Nova Canção

A preocupação sócio-política marca o repertório de Mercedes, tornando-a uma das grandes expoentes da Nueva Canción, um movimento musical latino-americano da década de 1960, com raízes africanas, cubanas, andinas e espanholas.

No Brasil, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, entre outros artistas, são expressões da Nueva Canción, marcada por uma ideologia de rechaço ao que entendiam como imperialismo norte-americano, consumismo e desigualdade social.

Fez parcerias com cantores brasileiros, como Fagner, Beth Carvalho e quase no fim da vida gravou a canção “La Maza” (A Marreta) com Shakira. Além de muitos outros nomes que compartilharam do talento de Mercedes.

Sosa teve três de seus discos considerados os melhores álbuns de folk na premiação do Grammy Latino – “Misa Criolla”, em 2000, “Acustico”, em 2003, e “Corazón Libre”, em 2006. Ela também atuou em filmes como El Santo de la Espada, sobre o herói da independência argentina, José de San Martin. A cantora gravou mais de 70 discos, sendo o mais recente um álbum duplo, “Cantora”. Morreu em outubro de 2009, aos 74 anos, de problemas renais e respiratórios.

Texto publicado na edição nº 64 da Revista Viração, em agosto de 2010

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