Juventude e crise climática: dossiê Brasil

O projeto político de destruição dos biomas brasileiros e as iniciativas de jovens pela preservação do meio ambiente.

A exploração e destruição dos biomas brasileiros sempre esteve presente na nossa história, da colônia aos tempos atuais. E, nos últimos tempos, principalmente a partir de 2018, com a eleição do atual presidente, Jair Bolsonaro, o desmatamento voltou a crescer em altas taxas. Além disso, o empenho do governo federal em avançar no desmonte dos órgãos ambientais brasileiros, com diminuição de verbas, cortes efetivos de fiscalização, tentativas de manipular e mentir sobre esses dados e exoneração de especialistas na temática, entre outros, tem acelerado a destruição do que ainda nos resta.

Com o desmatamento na Amazônia, queimadas no Pantanal, contaminação de água no Cerrado, exploração irregular na Caatinga, diminuição na já escassa Mata Atlântica, erosão do solo nos Pampas, essa coletânea de textos, escrita pelos jovens comunicadores Lívia Gariglio, Luis Miguel da Costa e Amanda da Cruz Costa, que fazem parte da rede da Agência Jovem de Notícias no Brasil, trará um panorama da questão ambiental no país, com foco no atual projeto político que vem negligenciando e contribuindo para a destruição dos biomas nativos.

Os textos se apoiam em fatos, questões históricas, reflexões e iniciativas de jovens brasileiros engajados na luta pelo clima, para que seja possível entendermos o contexto desse cenário brasileiro que beira ao apocalíptico.

O Brasil está em chamas!

Por Livia Gariglio

Vetor por Freepik / upklyak

COMEÇANDO DO COMEÇO

Quando o caos começou?

Durante o século XVI, os europeus (principalmente portugueses, mas não só) invadiram o Brasil. Eles não o “descobriram”, porque já havia civilizações indígenas aqui, que foram postas entre a cruz e a espada, literalmente: ou se convertiam ao cristianismo, ou eram escravizados e dizimados.

Além disso, esses estrangeiros tinham um intuito extrativista e bulionista (metalista), sem pensar no impacto disso na natureza. Essa visão se prolongou por muitos séculos e ainda hoje é possível perceber reflexos disso, como a diminuição da Mata Atlântica, que atualmente tem apenas 7% do seu tamanho original.

E como está atualmente?

Nós estamos inseridos em um sistema de produção e de consumo desenfreado, que visa lucro acima de tudo. É óbvio que isso é insustentável a longo prazo, porém… a curto prazo, também é.

A industrialização em massa, seus rejeitos, o desperdício causado pelo consumo excessivo e desnecessário, a poluição que isso gera… tudo isso contribui para a insustentabilidade.

E a urbanização impensada também, já que pode acarretar em: ilhas de calor, enorme queima combustíveis fósseis, lixões ao invés de aterros sanitários, pouca arborização, aumento de albedo, esgotos tratados de forma incorreta e contaminação dos cursos d’água, etc.

No Brasil, há um problema com a mineração.

Existem dois tipos: a úmida e a seca. Embora já exista tecnologia para implantar a mineração a seco, ainda se utiliza a mais barata, que culmina em água suja, destinada às barragens de rejeitos. E duas dessas barragens se romperam nos últimos 6 anos, gerando não só dano material, mas também mortes, pessoas feridas e dano ambiental.

Até hoje grandes partes dos rios Paraopeba e Doce estão contaminadas. Atualmente, as mineradoras vêm implantado a via seca, entretanto o ritmo está ainda bem lento e, enquanto isso, fica-se suscetível a um novo rompimento de barragem.

A maior parte da energia elétrica brasileira advém de hidrelétrica, que inegavelmente possui muitas vantagens: não emite tanto carbono, vem de uma fonte renovável (a água) e tem alta durabilidade. Porém, toda a área de construção precisa ser alagada e aí surge um problema: muitas pessoas perdem suas moradias, a vegetação local é perdida e quando essa se decompõe, libera muito metano. Além disso, o fluxo do rio muda e pode alterar os níveis de oxigênio na água.

Diagram showing hydroelectric energy illustration. Vetor por Freepik / brgfx

Ou seja, se não ocorrer um bom planejamento, pode se tornar um desastre e um exemplo disso é a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que afetou diretamente as comunidades indígenas e ribeirinhas da região.

Falando em rios, a pouca preservação de rios, oceanos, mares e lençóis freáticos é um enorme problema no país, que tem um dos maiores litorais do mundo (16° lugar) e o rio Amazonas, o rio mais extenso do mundo, como apurado pelos Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com uma extensão de 6.992 km.

O latifúndio (vasto domínio rural) é uma baita adversidade ambiental. Como eu já expliquei no meu texto sobre pessoas em situação de rua, a concentração de terras foi um processo histórico no Brasil, que tem reflexos atualmente, como prejuízos sociais e ambientais.

Dentre os prejuízos ambientais se tem: o grande uso de agrotóxicos, a polêmica dos transgênicos, o empobrecimento do solo, redução da biodiversidade, só para citar alguns. O desmatamento (como o que está acontecendo na Amazônia nesse exato momento), por exemplo, está diretamente ligado com a produção agropecuária, atividade desenvolvida no espaço rural, no qual se destacam a agricultura, a pecuária e as atividades extrativistas. E é sobre esse desmatamento, há séculos em curso e em recente ascensão no Brasil, que falaremos no texto a seguir.

O problema histórico do Brasil e a atual (des)política ambiental

Por Luis Miguel da Costa

Apesar do Brasil ser o país com a maior floresta nativa em pé no século XXI, atualmente temos um problema grave com a questão do desmatamento. 

O nosso problema é histórico: a destruição dos biomas vêm desde a colonização do Brasil, e a causa principal dele é para expansão de áreas agrícolas, extração de madeira e minério.

O maior exemplo disso é a Mata Atlântica, que foi degradada ao ponto de hoje restar apenas cerca de 7,6% de todo o território que ela ocupava originalmente. Apesar disso, a Mata Atlântica ainda resiste e abriga cerca de 8.000 espécies de angiospermas exclusivas do Brasil.

Fonte: Morellato & Haddad, 2000. Cinza = área original em 1500, preto = área remanescente até 2000

Mas como sabemos, o problema não acontece somente na Mata Atlântica, mas se repete  em todos os biomas brasileiros. Dados apontam que até 2010, apenas 47% da vegetação nativa do Cerrado e cerca de 60% da Caatinga ainda continuam em pé. Quando olhamos para a Amazônia e região pantaneira, a situação é mais alarmante: somente nos últimos 20 anos foram desmatados mais de 700 mil km2.

Olhemos para as questões legais acerca disso: até 2012 o desmatamento, em especial na Amazônia, estava diminuindo, e isso se deve principalmente ao investimento em órgãos de fiscalização, avanço científico para detecção de desmatamento e aumento do número de fiscais.

A expectativa era de que, a partir de 2012, com o novo Código Florestal brasileiro, aumentasse ainda mais esses investimentos em todas as questões relacionadas ao meio ambiente, por se tratar de um código mais rígido em termos de conservação. Contudo, essa diminuição não ocorreu e a retomada do desmatamento voltou em passos curtos, a priori, e junto com ele o desmanche de órgãos como Ibama e ICMbio.

A partir de 2018, após eleição do presidente Jair Bolsonaro, que por sua vez sempre defendeu a expansão da fronteira agrícola sobre a Amazônia, o desmatamento voltou a crescer em altas taxas. Além disso, o avanço do desmonte dos órgãos ambientais brasileiros, com diminuição de verbas, cortes efetivos de fiscalização, tentativas de manipular e mentir sobre esses dados, e até a exoneração de chefes destes órgãos, como é o caso do então presidente do Inpe, Ricardo Galvão, logo após a divulgação feita pelo instituto de dados reais sobre o desmatamento que apontavam a responsabilidade do governo federal.

Fonte: G1

Em 2021, garimpeiros tentam invadir terras indígenas (protegidas por lei) a fim de expandir seus domínios na Amazônia.  A situação é tão alarmante que até mesmo a ONU se pronunciou diante do ocorrido.  Também em  2021, está tramitando um projeto de lei que visa dispensar o licenciamento ambiental, permitindo a autodeclaração de que está tudo correto em termos ambientais.

Todos os ex-ministros do meio ambiente que atuaram na pasta pós ditadura militar no Brasil repudiaram tal projeto e declararam que seria um retrocesso para o Brasil e abriria precedentes para o aumento do desmatamento em qualquer bioma nacional. 

Outro ponto importante que deixa a situação no Brasil mais alarmante é que o próprio ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é investigado (em 2021) por um dos maiores crimes ambientais do país, e tudo começou com a tentativa de dispensar, por meio de um despacho do Ibama, a obrigatoriedade de autorizações para exportação de madeira. No entanto, o STF revogou este despacho.

Com tantos ataques contra aqueles que lutam pela preservação e manutenção sustentável do meio ambiente ou que apenas divulgam informações sobre a sua degradação, se faz ainda mais urgente a contínua atuação da sociedade civil para garantia dos direitos ambientais. Nesse sentido, a juventude vem, cada vez mais, se conscientizando sobre a necessidade de um ecossistema equilibrado para a garantia de um futuro saudável e sustentável. Organizados em grupos e espalhados mundo afora, esses jovens cobram, dos poderes públicos e privados, ações efetivas de combate à degradação dos biomas e a destruição da saúde planetária.

A seguir, iremos trazer algumas iniciativas de jovens ativistas no Brasil.

Jovens ativistas do clima no Brasil: organizações, mobilizações e perfis

Por Amanda da Cruz Costa

Em 2018, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) lançou o Relatório Global warming of 1.5°C, trazendo uma profunda pesquisa sobre as possíveis catástrofes que acontecerão no planeta Terra, como secas, enchentes, migrações, poluição atmosférica, alagamentos das cidades costeiras, morte marítima devido ao embranquecimento dos corais e tantas outras mais caso a meta de manter a temperatura em até 1,5ºC não seja atingida.

Infelizmente, não há um engajamento satisfatório dos governantes e dos tomadores de decisão frente às alterações climáticas. Tal fato fez com que as juventudes de diversas partes do globo se articulassem em mobilizações para buscar soluções que garantissem a equidade intergeracional e a justiça climática.

No Brasil, algumas organizações e movimentos são referências na temática, como o Engajamundo, Fridays for Future Brasil, Perifa Sustentável, Muvuca e a própria Agência Jovem de Notícias. Vamos conhecer um pouco mais sobre elas:

Engajamundo

Jovens participantes do Engajamundo / divulgação

O Engajamundo surgiu em 2012, após a participação de um grupo de jovens na Conferência da ONU em Desenvolvimento Sustentável, a RIO+20. Feito de jovens para jovens, a organização tem a missão de conscientizar os jovens brasileiros de que mudando a si mesmo, o seu entorno e se engajando politicamente, eles podem transformar a sua realidade.

Para isso, são utilizadas metodologias de educação, mobilização, participação e advocacy com o intuito de fornecer as ferramentas burocráticas para que o jovem tenha um papel ativo nos espaços de diálogo e de tomada de decisão, sejam estes a nível local, nacional ou internacional.

O Engajamundo é dividido em 5 Grupos de Trabalho (GTs): Clima, Gênero, Biodiversidade, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e Cidades e Comunidades Sustentáveis. Cada grupo tem reuniões semanais de formação, articulação e mobilização, para aprofundar o debate ambiental e promover a incidência política de forma estruturada.

O GT Clima acompanha as negociações climáticas internacionais desde 2016, quando foi estruturado. Desde então, acumula experiências na COP 22 – Marraquexe (Marrocos), COP 23 – Bonn (Alemanha), COP 24 – Katowice (Polônia) e COP 25 – Madrid (Espanha).

Assista esse vídeo de Raquel Rosenberg na COP 21:

Porta-vozes:

Fridays for Future Brasil

Ato ‘Greve Pelo Clima’. Fridays for Future Brasil/Twitter
A jovem Greta Thunberg / reprodução internet

Iniciado em agosto de 2018, pela ativista sueca Greta Thunberg, o Fridays for Future é um movimento popular que tem o objetivo de aumentar a consciência climática nos cidadãos e mobilizar jovens para pressionar os tomadores de decisão, exigindo medidas eficazes para manter o aquecimento do planeta abaixo de 1,5ºC.

O movimento está em 156 países e mobiliza jovens em mais de 2267 cidades no mundo! Esse grande alcance é resultado de um intenso trabalho nas mídias sociais, principalmente as redes do Twitter, Tiktok e o Instagram.

Essa articulação tem o intuito de aproximar a juventude dos seus respectivos governos, estreitando os laços com os formuladores de políticas públicas para que ouçam os cientistas e tomem medidas mais ambiciosas contra a crise do clima.

O movimento chegou ao Brasil em Março de 2019, quando alguns grupos de diferentes regiões se conectaram e começaram a organizar a primeira Greve Global. Desde então, diversas atividades já foram realizadas, como ações sustentáveis de empoderamento juvenil e formações em educação climática em escolas públicas e privadas.

Porta-vozes:

Perifa Sustentável

Reunião do Perifa Sustentável / Acervo pessoal

O Perifa Sustentável foi criado em 2019 pela ativista climática e jovem embaixadora da ONU Amanda Costa, que tinha o desejo de democratizar a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável para as periferias e favelas brasileiras. 

Incubado pelo United People Global, uma organização internacional que tem a missão de capacitar pessoas para que criem um mundo melhor, o Perifa se tornou uma rede de jovens ativistas comprometidos com o futuro do planeta.

Através de uma atuação transversal, o movimento forma jovens periféricos para se posicionarem como líderes nos campos ambiental e climático.

Através de estratégias de educomunicação, ações comunitárias e participação política, o Perifa Sustentável está empoderando juventudes racializadas para mobilizar redes, articular com atores estratégicos e pressionar tomadores de decisão para que incluam a juventude em processos consultivos e deliberativos da área socioambiental.

Porta-vozes:

Muvuca

O Muvuca é um programa de ativismo climático que busca fortalecer jovens lideranças com trajetórias de destaque na área socioambiental no Brasil.

Criado pela organização Nossas, uma rede de ativismo que desenvolve tecnologias, compartilha metodologias e articula pessoas para apoiar o ativismo democrático e solidário, o programa tem o objetivo de engajar ativistas do clima na construção de campanhas para fortalecer a proteção ambiental.

Com estratégias de advocacy, jovens pretos e indígenas têm acesso a formações online com os maiores especialistas do Brasil, desenvolvem campanhas de mobilização para incidir em políticas públicas com foco em justiça climática e recebem treinamentos em liderança, gestão de mídias sociais e incidência na imprensa.

Porta-vozes:

Agência Jovem de Notícias

A Agência Jovem de Notícias (AJN) é um programa da Viração Educomunicação que acredita na potência do jornalismo educomunicativo independente como ferramenta de transformação social e defesa dos direitos humanos. 

Criada em 2005 durante o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, a AJN está presente no Brasil, Itália, Argentina e Colômbia e produz conteúdo em quatro idiomas (Português, Italiano, Espanhol e Inglês), com publicações nas áreas de juventudes, educomunicação, meio ambiente, direitos humanos,  diversidade, ciência e tecnologia, política e cidadania, trabalho, arte e cultura e saúde.

A AJN já realizou mais de 50 coberturas no mundo, como a COP 25 – Madrid (Espanha), a COP 24 – Katowice (Polônia), COP 23 – Bonn (Alemanha), COP 22 – Marraquexe (Marrocos), COP 21 – Paris (França) e COP 20 – Lima (Peru).

Porta-vozes para questões do clima:

Todos esses jovens e organizações atuam para garantir um presente e um futuro ambientalmente justo e saudável para todos.

Por isso se faz de extrema importância fortalecer organizações juvenis que trabalham com a emergência de se pensar a crise climática e suas causas e efeitos devastadores a curto, médio e longo prazo.

É preciso que os jovens se engajem cada vez mais na luta pelo seu futuro, articulando com diferentes atores e participando ativamente da construção de um mundo inclusivo, colaborativo e sustentável! 

Não se esqueça: não existe mudança sem mobilização!

Leia este texto em inglês: Youth and the environment: the Brazilian Dossier

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