Julho das pretas: celebração da nossa realeza

O julho das pretas não é só sobre colocar cartazes com fotos bonitas de mulheres negras no hall de um shopping chique e falar de Tereza de Benguela nos materiais didáticos das escolas particulares. É também sobre exaltar as mulheres negras reais, e reacender a chama ancestral da nossa memória coletiva e afrocentrada, nossa memória de resistência, cultura e realeza.

Por Clara de Assis Andrade

Saúdo todas as Mulheres Negras Latino americanas e Caribenhas do presente, do passado e do futuro.

Existe dia 25 de janeiro, 25 de fevereiro, de março, abril, 25 de dezembro … mas também existe o 25 de Julho! E não é só mais um dia 25, é uma data símbolo de resistência das mulheres negras, latinas e caribenhas.

A colonialidade e dominação do povo negro e latino se dá pela internalização e reprodução dos valores brancos ocidentais e pela criação de uma única narrativa sobre a colonização, sendo legitimada pelo projeto de branqueamento, pelo qual a população preta sofre um apagamento sistêmico de suas histórias.

Os chicotes até tentaram apagar, mas nos corpos negros permanece resquícios de memórias que se manifestam através da resistência diária, da cultura, da oralidade, dos dialetos, dos costumes e da ancestralidade. Esses resquícios e resgates de memória nos ajudam a recontar nossas histórias e recriar nossos caminhos.

Quando as mulheres negras foram roubadas de África, foram separadas de suas filhas, mães, avós, famílias e histórias. 

Quando os territórios das mulheres que habitavam as “Américas” foram invadidos, essas mulheres foram separadas de suas filhas, mães, avós, famílias e histórias.

O fato é que houve uma grande ruptura na vida das mulheres negras roubadas de África e das mulheres que habitavam o território que se tornou a América. E até hoje, após séculos de exploração e sexualização dos seus corpos, essas mulheres seguem tendo seus corpos explorados, sexualizados e sofrendo com o luto da perda precoce de seus familiares, vítimas do racismo estrutural que envolve a violenta estratégia de branqueamento da população.

Diante da criação desse imaginário branco do nosso mito de origem, nos contam sobre a hipersexualização e sobre a exploração das mulheres negras e latinas, mas não nos contam que essas mulheres foram Rainhas e Princesas, tentando apagar o legado de resistência que essas mulheres deixaram em território latino.

Eles não nos contam, mas nossas memórias ancestrais não nos deixam esquecer; eles não nos contam, mas a história de resistência negra no Brasil é tecida com a participação de mulheres na linha de frente contra a escravidão e a colonialidade.

E falando em Rainhas, Princesas e mulheres negras na luta contra a colonialidade em território latino, se faz presente a grandiosa Tereza de Benguela.No Brasil, o dia 25 de julho é oficialmente o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, a partir da Lei 12.987/2014, sancionada pela então presidenta Dilma Roussef.

Tereza de Benguela ou Rainha Tereza foi uma grande líder quilombola, estrategista militar e dirigente política que governou o Quilombo de Quariterê durante duas décadas. O quilombo que abrigou negros e indígenas estava localizado em um ponto de difícil acesso no Mato Grosso, local ideal para Rainha Tereza comandar a estrutura política, administrativa e econômica do quilombo, além de estabelecer um ótimo sistema de defesa.

O Quilombo de Quariterê existiu de 1730 a 1795 e a liderança de Tereza resistiu até 1770, quando foi capturada pelo estado, esse mesmo estado que continua subjugando, oprimindo e matando as mulheres negras.

Ter um dia dedicado a Tereza de Benguela é reforçar a história de uma mulher que se tornou símbolo do poder e da mulher preta intransponível pelos açoites da história. Nós, mulheres negras, carecemos de heroínas negras que reforcem o orgulho de nossa história, então ter um dia dedicado a Tereza de Benguela é reforçar uma luta, reconhecer a força dessa liderança quilombola e reacender uma memória de resistência e realeza feminina

A invisibilidade dessas histórias é um dos braços do racismo que legitima a opressão, a exploração e o apagamento físico, mental, político e simbólico das nossas mulheres pretas e latinas.

Mas a mulher preta nunca está só, ela carrega consigo a ancestralidade, a imortalidade e a eternidade.

Para além do dia 25 de julho, existe a movimentação do JULHO DAS PRETAS, que dá visibilidade para a fala, para a luta e para a agenda de mobilizações do movimento de mulheres negras em todo Brasil. E é dentro dessa proposta que encerro o mês trazendo essas reflexões.

Mas pra que Julho das Pretas?!

Julho das Pretas para lembrarmos de não esquecer que nossa resistência vem de tempos além-mar. 

Julho das Pretas para lembrarmos que nos invisibilizar é uma estratégia colonial.

Julho das Pretas para refletirmos sobre esse mito de origem europeu da “descoberta” das américas. 

Julho das Pretas para aceitarmos o convite de recriarmos e recontarmos a história do território latino americano e caribenho a partir da perspectiva das mulheres negras. 

Julho das Pretas para fortalecermos as organizações de mulheres negras, criar e apoiar estratégias de enfrentamento ao racismo, feminicídio e desigualdades. 

Julho das Pretas para darmos visibilidade para outras mulheres pretas, que assim como Tereza de Benguela, resistem diariamente. 

Julho das Pretas pra gente se aquilombar.

E aqui trago aquelas mulheres negras que com intensidade deixaram um legado para nossa história: salve Tereza de Benguela, Dandara, Luisa Mahin, Carolina Maria de Jesus, Lelia Gonzales, Chica Xavier, Mariele Franco, Ruth de Souza, Antonieta Barros, Maria Firmina Reis, Aqualtune e tantas outras mulheres grandiosas!

E trago também as muitas mulheres pretas que talvez nem saibam da existência do Julho das Pretas e do 25 de julho.

O julho das pretas não é só sobre colocar cartazes com fotos bonitas de mulheres negras no hall de um shopping chique e falar de Tereza de Benguela nos materiais didáticos das escolas particulares.

É também sobre exaltar as mulheres negras nas comunidades, nas quebradas, nas favelas, nas estações de trem, nos terminais de ônibus. Se são nesses espaços onde muitas mulheres negras ainda estão resistindo, então são nesses espaços que precisamos reacender a chama ancestral da nossa memória coletiva e afrocentrada, nossa memória de resistência, cultura e realeza. Entender que o mito de origem que contam sobre nós é diferente do Orí que nos guia.

“Ser mulher negra para mim é uma celebração, porque estou em comunhão permanente com o que sou, de onde vim e para onde devo ir. Além disso é um compromisso, porque sinto que ser mulher negra hoje me coloca na tarefa de convidar outras mulheres negras a terem consciência de que ser uma mulher negra é uma fortaleza”.

Solcire Pérez, professora de Letras na Universidad Central de Venezuela

Um salve para as minhas referências!

Reprodução Revista Azmina

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