Jujuba, uma palhaça no trânsito pelo Brasil

Conheça a história de Miss Jujuba, Julieta Hernández, migrante venezuelana que enfrenta desafios sociais para viver de arte no Brasil. Conheça sua história e mais sobre a peça “América 2”

Por Demis Menéndez Sánchez, do Núcleo de Migrações da AJN

Deixou de ser incomum, nas grandes cidades brasileiras, encontrar grupos de palhaços e artistas de circo trabalhando nos faróis, alegrando instantes no trânsito para nos encher de sorrisos e surpresas. Muitos desses artistas de rua, hoje em dia, são caravanas de migrantes coloridos que irrompem nosso tempo parados. Para alguns, esta é uma atividade pouco reconhecida, porém, a realidade é de que muitos artistas, de fato, usam o espaço público para manifestação artística e sustento de suas famílias.

Sobre essas e outras histórias, entrevistamos à Jujuba, ou deveríamos de chamar de Miss Jujuba, ou com suas próprias palavras: “Miss é Miss, porque sou venezuelana, e a indústria da beleza marca muito nossa cultura”, referindo-se à longa lista de nomes de mulheres venezuelanas que se destacam nestes concursos, “então primeiramente sou Miss, Miss Jujuba”. Mesmo que o nome real seja Julieta Hernández, a palhaça nela é procura de um estado de espírito, um processo cotidiano de busca e desafios da sua criança interior.

 cada palhaço e palhaça é única, e sempre pode estar mudando, como nós mesmos, Miss Jujuba é minha mestra.

Miss Jujuba começou nos semáforos em 2009 na Venezuela, e fez um percurso por Bolívia, Chile, Argentina y Paraguai, tudo isso antes de chegar ao Brasil em 2016, onde começou trabalhando nos trens do Rio de Janeiro.

Depois trabalhou com pessoas em situação de rua no Projeto Ruas, na capital carioca, e em São Paulo, com Flávio Falcone, médico psiquiatra e palhaço, na região da Cracolândia. Também cooperou junto com a ONG Doktor Klovn em hospitais, em abrigos, com o Ateliê do Sorriso e participou de festivais de palhaçaria feminina, entre outros eventos no centro-oeste do Brasil. 

A propósito, sua passagem recente por Vitória, no Espírito Santo, antes da quarentena por causa do coronavírus, fez surgir o espetáculo “América 2”, num encontro com uma amiga Vanessa Darmani, e do reencontro com o Espaço cultural “Árvore Casa das Artes”. O espetáculo faz uma viagem musical pela América Latina após o retorno de uma turnê de duas palhaças pelo continente.

 “América 2” é uma troca que nos manteve saudáveis e ativas espiritual e mentalmente nestes meses de quarentena, uma experiência de trabalho coletivo entre duas mulheres: direção, roteiro, pesquisa musical, atuação tudo nosso; é um mergulho profundo e engraçado num tema que sentimos necessário para nós: nos reconhecer irmãs! 

A estreia de “América 2” foi no começo de agosto, com uma plateia de cinco pessoas muito distanciadas, num espaço aberto. O espetáculo logo depois foi aprovado no Edital Emergencial da Secretaria de Cultura (SECULT) de Vitória, e foi transmitido (gravado) no canal aberto “TVE Espírito Santo”, e no Facebook da SECULT no dia 27 de setembro de 2020.

O nome do espetáculo presta homenagem ao grupo América 4, que é de Vitória. A dupla começou fazendo música e “palhaçada” nos ônibus de Vitória com um repertório em espanhol e em português, que Vanessa chamou de América 2 para homenagear o grupo que já existia.

Foi uma constante pesquisa motivada pela curiosidade de Vanessa em conhecer o resto deste nosso continente e a necessidade de se reconhecer parte dele, coisa que sinto que é uma dificuldade para os brasileiros, isso somado a minha vontade também de mostrar nossos países e de falar de mim com a minha palhaça, de falar alto pra todos e todas as brasileiras que somos latino-americanas vivendo a mesma exploração há séculos, com culturas e histórias parecidas, que somos iguais

A definição “artista de circo” é muito ampla. Existem artistas de circo tradicional que trabalham em lona, artistas mais contemporâneos e artistas que trabalham na rua. Ainda, dentro do mundo do circo, existem muitas categorias.

No caso dos palhaços, na Venezuela existe um movimento de palhaços tradicionais, organizados numa rede de palhaços venezuelanos de rua, maioria vinculados aos malabares. Geralmente, a palhaçaria tradicional é trabalhada por homens, há relativamente pouco tempo mulheres palhaças tem entrado aos picadeiros dos circos:

O movimento de palhaçaria feminina, que é o que me representa mais, é muito forte e está inspirando a muitas outras mulheres palhaças em outros países do continente, inclusive Venezuela, onde já temos nossa própria rede, a ‘Red de Payasas Venezolanas’, que está aberta para ser integrada por várias palhaças venezuelanas, onde for que elas estiverem, para conhecer, trocar, aprender e visibilizar os nossos trabalhos

A realidade de muitos migrantes não é distinta para quem é artista migrante, além dos desafios comuns de desemprego, a falta de oportunidade para viver de arte, obrigam a ter que se virar com serviços temporais ou bicos. Muitas vezes, o trabalho do artista de rua não é reconhecido pelas autoridades e nem pela população, o que dificulta muitas ocasiões. 

Eu sou artista de rua, acostumada a viajar com meu trabalho, em 2016 decidi ficar no Rio de Janeiro e essa decisão me fez cair a ficha: eu sou migrante. Não sempre deu para viver de minha arte, a gente precisa pagar contas, e aí tive que trabalhar com outras coisas, geralmente é assim.

Outro desafio que todo artista migrante enfrenta é o burocrático, que muitas vezes encontra cais em pessoas solidárias, que se disponibilizam a participar dessa ponte cultural com o Brasil: “A gente, como artista migrante, precisa se juntar, criar redes, ser coletivo, criar vínculos, se juntar com pessoas que nos dão dicas, que nos dizem quais portas tocar e, aos poucos, a gente pode achar alguns caminhos, só que  a gente precisa aprender os jeitos de escrever projetos e, no mesmo tempo, tem que estar trabalhando pra sobreviver”, compartilha.

No final de 2016, Julieta soube da existência da “Escola Livre de Palhaços: ESLIPA”. Uma escola para aperfeiçoar os estudos de palhaçaria com mestres palhaços do Brasil e de todo o continente.

A Julieta foi aceita na turma em 2017. Uma semana por mês, por nove meses, estudou e aplicou o aprendizado nas ruas: “A escola me possibilitou conhecer muita gente no Brasil vinculada à minha profissão, e entendi que era como uma grande irmandade, uma grande rede que gera redes e encontros. Graças à ESLIPA, conheci amigos e amigas com quem fui trabalhar nos trens, espaços culturais por todo o  Brasil”.

Eu tô viajando pra Venezuela, com toda a disposição de me reencontrar com a minha mãe e com o meu país. Com a necessidade e a paciência de levar pra lá tudo o que tenho visto e aprendido no Brasil. Cheia de ideias, de redes, de vontades, com a certeza de que vai ser toda uma aventura e mais uma luta, mas que é o que eu desejo e necessito, que a arte chegue onde a precisem. 

Julieta, além de palhaça, é bonequeira, o que a tem conectado com outras redes e feito enxergar outras possibilidades:

Ser migrante no Brasil não sempre foi fácil, mas aqui ganhei grandes amores, parte importante de quem sou agora, cresci e cresço muito nessa troca, acho que os e as brasileiras que se dão o tempo de trocar respeitosamente com migrantes também crescem, amplificam a sua visão deles mesmos, de seu país e do mundo

Em Cuba, Demis publicou os livros “¿Como le crecen los senos a las niñas?”, “El niño puede” e, em São Paulo, publicou o livro “Gizamundo” a quatro mãos, com Auro Lescher. No Brasil, atuou nos projetos Quixote, Centro É de Lei e Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD). Conheça mais em https://entreduaslinguas.wordpress.com/

Imagens: Julieta Hernández/Acervo pessoal

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1 Comentário

  • Gostei muito de JuJuba.!!! Bom ter histórias de artistas migrantes por aqui!!! Amei Demis e suas duas línguas!!

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