Jovens do campo e da floresta apresentam carta com demandas de políticas públicas

Os jovens presentes no 1º Seminário de Juventude Rural e Políticas Públicas, que acontece desde o dia 21 e se encerra hoje em Brasília, produziram uma carta coletiva, sintetizando as  considerações e reivindicações para uma política nacional de juventude do campo e da floresta. A carta foi lida no encerramento do encontro e entregue à secretária nacional de Juventude, Severine Macedo.

Entre os pontos tratados na carta estão a ampla e massiva reforma agrária, bem como demarcação das terras indígenas e quilombolas; educação no campo; fim do trabalho escravo e fomento para projetos da juventude do campo e da floresta. Para Maciel Cover, da Pastoral da Juventude Rural (PJR), a carta é resultado de um amplo diálogo e sintonia entre os movimentos de juventudes rurais. “Ela mostra que existe uma unidade entre as organizações e movimentos que atuam com as juventudes do campo e da floresta, tanto na leitura da situação e de denúncia do agronegócio e seu projeto de destruição ambiental e degradação da força de trabalho, quanto na proposição de políticas públicas para reverter esse quadro. Há unidade na luta, sabemos que só vamos avançar se ficarmos unidos e fazendo pressão”, avalia.

Para ele o seminário foi um momento importante de avaliação e formulação das políticas públicas. “Conseguimos mapear os pontos ineficazes das atuais políticas e ouvir, a partir da juventude rural, as reais demandas. Agora basta o governo investir nas propostas. Afinal se ele desse à juventude do campo e da floresta, o mesmo tratamento que dá às grandes empresas, a realidade seria outra”, conclui.

 

Confira a carta na íntegra:

Carta do I Seminário Nacional Juventude Rural e Políticas Públicas

Nós, jovens rurais, agricultores familiares, camponeses, assentados da reforma agrária, assalariados, sem-terra, quilombolas, indígenas, ribeirinhos, extrativistas, oriundos das diferentes regiões do país, reunidos no I Seminário Nacional Juventude Rural e Políticas Públicas, afirmamos a necessidade de construção de uma política nacional de juventude do campo e da floresta.

Vivemos num momento histórico marcado pela hegemonia de um modelo de desenvolvimento agrícola e agrário adverso, que dá centralidade ao agronegócio,  baseado na concentração de terra e riquezas naturais; na produção de commodities para exportação; no uso desenfreado de agrotóxicos; no alto índice de exploração dos trabalhadores; que gera êxodo rural, desigualdade social e violência no campo.

Neste contexto, convivemos com estatísticas que nos apontam que a cada dia 10 escolas são fechadas no campo; que a cada ano 80 mil jovens precisam deixar o meio rural para buscar condições de trabalho e estudo nas cidades, condições estas insustentáveis para garantir relações mais justas e qualidade de vida para os povos do campo e da floresta, especialmente os/as jovens.

As desigualdades de gênero, raça e etnia também compõem este cenário social em que a juventude rural está inserida, nos mostrando que superar relações de preconceito, machismo e racismo são desafios permanentes para a construção das políticas publicas e de novos padrões culturais igualitários.

A partir da luta dos jovens rurais organizados foi possível quebrar a invisibilidade e pautar o estado frente à construção de políticas publicas de juventude rural. Neste sentido, reconhecemos a disponibilidade do governo em promover diálogos para a construção de proposições, porém ainda há muito o que se fazer , por isso afirmamos  que para a juventude ter vida digna no campo é necessário:

– Acesso a terra e ao território, através de uma ampla e massiva reforma agrária, demarcação das terras indígenas e quilombolas, que valorize a juventude rural como sujeito estratégico para a dinamização e desenvolvimento do campo.

– Educação do campo e no campo, em todos os níveis, desde a superação do analfabetismo, passando pelos ensinos fundamentais e médios e com cursos superiores nas diferentes áreas de conhecimento.

– Políticas agrícolas voltadas para a juventude rural, assegurando  ATER, ATER Indígena, financiamento, apoio na comercialização e fomento para que a juventude possa produzir alimentos numa perspectiva agroecológica.

– Eliminar o trabalho degradante e em condições análogas a escravidão que os jovens rurais são submetidos nos latifúndios do agronegócio

– Acesso a políticas de cultura, esporte, tecnologias de informação e comunicação, possibilitando novas sociabilidades e a vivência da condição juvenil no campo.

– Geração de renda agrícola e não agrícola, tornando o campo um espaço de oportunidades para que a juventude rural possa trabalhar dignamente no setor de serviços e em agroindústrias familiares, permanecendo assim no campo.

Os resultados obtidos neste I Seminário são fruto de uma construção coletiva dos diferentes atores sociais que atuam com a juventude rural, nos ensinando que a unidade das forças que representam os trabalhadores rurais, camponeses, sem terra, ribeirinhos, indígenas, extrativistas e quilombolas é um eficaz caminho para construir propostas de políticas bem como para cobrar sua implementação.

Brasília, 24 de maio de 2012

Vania Correia

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