Interno da Fundação Casa é finalista de concurso nacional de poemas

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Por Geledés | Imagens: G1

Um interno de 17 anos que cumpre medida socioeducativa em uma unidade da Fundação Casa, em São Paulo, foi classificado na quinta-feira (30/10) como finalista da Olimpíada de Língua Portuguesa, na categoria poema. A olimpíada reúne alunos de escolas públicas de todo o país e é promovida pelo Ministério da Educação e pela Fundação Itaú Social. Para participar da segunda etapa do concurso (a semifinal, em Belo Horizonte), ele teve autorização judicial para viajar de avião pela primeira vez, na terça-feira (28/10), acompanhado pela professora de português Maria da Penha Silva e um agente de segurança.

É a primeira vez que um adolescente da Fundação é classificado neste concurso. Na edição deste ano, 53.706 textos foram enviados por estudantes do Brasil todo nas quatro categorias (além de poema, a olimpíada seleciona textos de memória literária, artigo de opinião e crônica). Nesta quinta, a semifinal da categoria poema contou com 125 participantes, e 38 foram selecionados para a última etapa –entre eles o interno de São Paulo. A grande final da competição vai ser no dia 1º de dezembro, em Brasília.

O jovem, que cursa o 6º ano do fundamental, escreveu um poema sobre como é morar na Fundação Casa. É a terceira vez que ele cumpre medida por tráfico de drogas: sua primeira infração aconteceu aos 13 anos.

Apesar de já ter 17 anos e idade para cursar o ensino médio, o jovem ainda está no 6º ano. Ele havia abandonado os estudos antes de chegar à Fundação. A distorção entre idade e série é uma realidade comum entre os adolescentes das 149 unidades. Segundo dados do mês de setembro, a maior parte dos adolescentes (6.324 alunos) cursa o segundo ciclo do ensino fundamental. No ensino médio estão 2.496 adolescentes infratores, 517 no primeiro ciclo do ensino fundamental e apenas 34 já concluíram o ensino médio. A maioria tem idades entre 15 e 17 anos e, nas unidades, eles são obrigados a frequentar as aulas.

Incentivo

O incentivo do jovem veio da professora Maria da Penha, da rede pública do estado de São Paulo, que leciona nas unidades da Fundação Casa há 12 anos. A professora trabalhou técnicas de produção de poemas para que o jovem participasse da semifinal da olimpíada, na qual os concorrentes podem aprimorar os poemas. Mas, independente do resultado, ela considera que esta é uma vitória na história da Fundação Casa.

A olimpíada ocorre a cada dois anos e premia as melhores produções de alunos de escolas públicas de todo o país. Esta quarta edição do concursou mobilizou 46.902 escolas públicas nos 26 estados e no Distrito Federal, onde 5,1 milhões de alunos concorrem com poemas, memórias literárias, crônicas e artigos de opinião. O tema de todos os gêneros é O Lugar onde Vivo.

Leia a seguir o poema do jovem interno:

Vida em Transição

Viver na Fundação não é bom
Bom é ser livre em toda situação
Mas tenho minha opinião
Sobre esse período de transição
Que muitos dizem ser prisão.

Nesse lugar, maldade…
Que ao mesmo tempo é saudade
Por estar privado de liberdade
Mas tem um lado positivo
Nessa realidade
Estou me reabilitando para a sociedade.

Acordo e vejo grades
Meu peito dói de verdade
Só quem passou
Por isso sabe
De todas as realidades
E crueldades…
A maior necessidade
É a Liberdade!

Aqui lições de vida transmitem
Muitas coisas boas
Reconhecimento como pessoa
Que errar é humano
Mas aprender é a melhor coisa.

Atrás desses momentos tem algo impressionante
Hoje me tornei um estudante
Descobri que sou inteligente
Produzi este poema e me sinto importante.

 

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