Infância: o óculos da vida

É preciso entender o que são essas lentes, porque talvez os medos, a repressão de determinados desejos, frustrações, ou até mesmo os discursos de ódio, não diz do outro, mas de uma lente que criamos para enxergar o diferente, o estranho e o mundo.

Por Reynaldo de Azevedo Gosmão

Na semana em que é comemorado o dia das crianças, é muito pertinente levantar as problemáticas que envolvem o infantil. O infantil não pode ser resumido apenas a uma cronologia, um período da vida, fazer 5, 12, 30, 50 ou 80 anos.

Por um lado, com efeito para construções de políticas públicas, dividimos a vida humana em períodos, em etapas de vida, o que hoje no Brasil, consideramos a infância entre o nascimento e a adolescência, de 0 a 12 anos. Sendo assim, a infância pode ser compreendida como o período cronológico, porém o infantil está além de um dado momento da vida. 

A partir da psicanálise, o infantil não é algo que se abandona ao sair da infância (período cronológico), pelo contrário o infantil é o que dá sentido a constituição do sujeito e reverbera na fase de adolescente, adulto ou na velhice. 

Neste primeiro momento de vida dos sujeitos, de forma singular, o sujeito constrói para si um “óculos”, ou seja, uma lente própria que permite a representação de si e do mundo, inclusive nessa forma de enxergar e dar sentido às coisas do mundo. O sujeito mantém o foco em algumas coisas, que são as recordações de infância, ou finge que não viu outras coisas que é a infância esquecida, reprimida e recalcada. 

Essas nuances entre o que pode ser lembrado, ou o que deve ser esquecido, representa a função de atribuir significados e valores para as experiências. Mas como nem tudo o que foi experimentado é lembrado, através de uma realidade psíquica, alguns recortes do que foi visto criam marcas através das fantasias. Como aponta Christian Dunker:

“a fantasia oferece para as crianças um material imaginário e uma gramática de simbolização para o seu próprio desejo e para o desejo do outro.”  

Para exemplificar: algumas vezes em almoço de família dizemos alguma memória da infância, e às vezes somos desmentidos – “isso que você disse não aconteceu dessa forma”, ou até mesmo “isso nunca aconteceu”; não se trata de dizer que é uma verdade ou uma mentira, mas o que dessas memórias imaginárias se extrai da lente que foi criada pelo sujeito para lidar com a vida. Podemos extrair dessas fantasias diversos conteúdos: “o filho que foi sabotado pelos irmãos”, “a menina que não fazia bagunça para não desagradar os pais”, “a menina que fazia de tudo para ter atenção dos pais”.

Esta lente que são as fantasias se torna eixo central da engrenagem para todas as fases da vida.

Como diz Freud: “toda análise passa pelo infantil”; é preciso entender o que são essas lentes porque talvez os medos, a repressão de determinados desejos, frustrações, ou até mesmo os discursos de ódio, não diz do outro, mas de uma lente que criamos para enxergar o diferente, o estranho e o mundo. 

Em tempos de grande consumo, a infância não deve ser resumida a ganhar brinquedos e objetos; talvez uma boa prática de comemorarmos essa data, seria nós adultos, nos propormos a falar sobre nossas marcas infantis, sobre os medos, desejos, impasses para que as crianças também tenham possibilidade de falar das próprias experiências sem tantas depreciações ou juízos de valores. 

O infantil é amplo, com as mais variadas lentes, uma aventura que pode ser revisitada por nós adultos.

Imagem destacada: Rene Bernal on Unsplash

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