Indígenas e afrodescendentes dão aula em universidade do RS

Imagem: Jéssica Delcarro/Acervo Revista Viração

Encontro de Saberes. Esse é o nome da disciplina que sábios indígenas e afrodescendentes foram convidados a ministrar, junto com outros professores, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, nesse segundo semestre de 2016. O componente faz parte do Curso de Música, mas qualquer aluno de graduação da instituição pôde se inscrever como componente extracurricular. As aulas da disciplina iniciaram no início de agosto desse ano. Na disciplina são trabalhadas matrizes ameríndias e africanas, a partir de quatro módulos de 16 horas/aula cada um: Módulo Alimento e Rito, Módulo Plantas e Espírito, Módulo Artes Aplicadas e Módulo Sociedades e Cosmovisões.

De acordo com informações divulgadas no site da UFRGS, essa é a primeira vez que a Universidade oferta o componente curricular. Tal iniciativa começou a ser discutida no universo acadêmico do país em 1999. Atualmente, além da UFRGS outras instituições públicas de ensino superior já colocaram em prática propostas semelhantes, como a Universidade de Brasília, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Estadual do Ceará, Universidade Federal de Juiz de Fora, Universidade Federal do Pará e Universidade Federal do Sul da Bahia. A Pontifícia Universidad Javeriana, na Colômbia, também é outro exemplo.

Nesse semestre, entre os mestres e mestras da disciplina Encontro de Saberes, estão: Jorge Domingos, cantor de samba, morador do bairro Restinga; Maria Elaine Rodrigues Espíndola, ativista ligada às culturas afro-brasileira, quilombola e coordenadora do Ponto de Cultura Mocambo, no bairro Cidade Baixa; Iracema Rã-Nga Nascimento, liderança espiritual Kaingang; Maurício Messa de Oliveira, Guarani-Mbyá conhecedor das sementes sagradas e dos modos de vida próprios dos Guarani. Além de um grupo de professores da instituição, das áreas de Letras, Artes, Filosofia, Comunicação, Educação, Ciências Econômicas e Agronomia.

Essa iniciativa é um exemplo de valorização da diversidade de saberes e culturas que constituem o nosso país. Até então, estamos acostumados a conhecer ações da universidade com relação à comunidade no que se refere ao desenvolvimento de pesquisas e projetos de extensão, por exemplo. Mas há pouco espaço para a comunidade vir até o espaço acadêmico e ainda ter um lugar de protagonismo, como é o que está ocorrendo na disciplina Encontro de Saberes. Logo, com a ideia, se está criando uma ponte entre o saber científico e o saber tradicional, para que o diálogo entre esses resulte em conhecimentos ricos à sociedade. Além de plantar mais sementes para o cultivo de uma cultura que olhe para as diferenças com o grau de preciosidade que elas merecem, não com aversão.

Você conhece alguma iniciativa semelhante? Sim? Então, conte pra gente! Afinal, práticas como essas devem ser compartilhadas para que inspirem mais iniciativas de valorização da interculturalidade.

 

Araciele Maria Ketzer é jornalista, tem 24 anos e é mestranda em Comunicação Midiática pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

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