II Acampamento da Juventude discute ações de enfrentamento à violência

Por Diego Teófilo e Larissa Rayane | Agência de Notícias Jovens Comunicadores da Amazônia.

Em Belém (PA), assim como em várias outras cidades brasileiras, temos vivido uma insegurança generalizada. No caso da capital paraense, nunca sabemos quando os ditos “carros pretos”, “carros prata” e “motoqueiros encapuzados” irão aparecer, provocando mais uma chacina nas periferias da cidade.

Os últimos acontecimentos têm ceifado a vida de crianças, jovens e adultos. Porém, é preciso resistir e sensibilizar a sociedade sobre a importância de estar organizado e enfrentar a repressão, mesmo que seja um processo longo. e cobrar do poder público respostas a curto, médio e longa prazo, para o problema da violência na cidade.

Do dia 30 ao dia 02 de julho adolescentes, jovens, lideranças populares e familiares que tiveram seus filhos mortos, vítimas das chacinas na Região Metropolitana de Belém, estiveram reunidos na sede do Movimento República de Emaús. A ocasião foi o II Acampamento da Juventude, que teve como tema “Jovem Negro Vivo: a periferia existe e resiste!”, e refletiu sobre a atual conjuntura  com o apoio da rede Direitos Humanos, Contra a Violência e Pela Vida – DHAVIDA, e do próprio Emaús.

A educadora do Emaús, Lucia Barreira, destaca a proposta do acampamento.  “Fortalecer a participação e organização pelos direitos fundamentais da juventude, um espaço onde estavam conhecendo os seus direitos para depois reivindicar condições para a garantia do direito à cidadania, a partir de troca de conhecimentos entre jovens de vários espaços de discussões”.

O evento contou também com oficinas, como oficina de percussão. O educador e músico Diego Vattos, além de orientar os participantes acerca das técnicas necessárias para a utilização de instrumentos durante a oficina de percussão, chamou a atenção para alguns elementos simbólicos, como a associação dos instrumentos trabalhados a características históricas e culturais de resistência, , entre elas a cultura africana.

Jamilson Campelo, de 19 anos,  acredita que momentos de encontro como o propiciado pelo Acampamento é um espaço de reafirmação da luta e resistência. “Na periferia existem algumas pessoas incomodadas com o contexto de violência (…), e  encontrar pessoas que se sentem da mesma forma e que podem se expressar, que podem dar sua opinião, e descobrir que a luta não é sozinha, é extremamente gratificante. Chegar em um evento em que todas as pessoas vêm com esse propósito, que quer esse poder de mudança”, conta.

Celinha Hamoy, advogada do Centro de Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes – Cedeca/Emaús, comentou que “o trabalho específico que fazemos no Cedeca/Emaús é dar apoio a crianças e jovens vítimas de violência e suas famílias. O Cedeca trabalha no enfrentamento da violência, a partir de uma perspectiva de buscar não uma responsabilidade em si, mas buscar a conscientização por uma vida melhor para a juventude, por uma organização social dessa própria juventude, por um respeito à vida desses meninos”.

De acordo com o Atlas da Violência, o estado do Pará registrou, em 2005, 1.082 homicídios entre jovens de 15 a 29 anos. Em 2015, foram registrados 1.936, um aumento de 78,9%. Infelizmente, o suporte do poder público não cresceu exponencialmente como o número das vítimas.

Hamoy destaca a ineficiência do Poder Judiciário.  “Hoje, temos em torno de 70 processos judiciais, processos em que os jovens foram vítimas de homicídios em conflito violento”. Segundo a advogada, o trabalho do Cedeca não é apenas oferecer suporte legal para as famílias das vítimas, mas também promover fortalecimento, a partir da valorização das vidas das juventudes das periferias.

“Não existe uma separação daqueles que podem ser mortos e daqueles que devem viver. Todos merecem viver. (…) Por isso trabalhamos muito na organização dos adolescentes a partir da compreensão do que é direito, não de uma perspectiva legalista, mas de compreensão da sua importância dentro  sociedade”.

Ao final do acampamento, os participantes realizaram rodas de conversa nos bairros da periferia, escolas e espaços comunitários,  envolvendo adolescentes, jovens e suas famílias. Além disso, participantes  marcharam junto às famílias de vítimas das chacinas de Belém em 2014.  O próximo acampamento ocorrerá em uma comunidade tradicional quilombola, no interior do estado paraense.

Jefferson Rozeno
21 anos, estudante de jornalismo, estagiário de comunicação e marketing

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