HQ Maus: Ratinhos e gatinhos nada fofos

Imagine uma história em quadrinhos cujos personagens são ratos, gatos, porcos e cachorros que pensam, falam e agem como humanos. Esse recurso foi utilizado desde os primórdios para compor narrativas normalmente associadas ao universo infantil como as fábulas e os contos de fadas e popularizadas mundo afora por personagens fofinhos como o camundongo Mickey, o pato Donald, o coelho Pernalonga, o gato Garfield e inúmeros outros.

Agora, tente imaginar cada nacionalidade ou grupo étnico humano sendo representado como uma espécie animal e que uma delas, em especial, fosse exposta a um tratamento cruel, enviada para campos de concentração, submetida às mais abjetas humilhações e executada em massa em câmaras de gás.

Pois é exatamente isso que o autor ArtSpiegelman fez em sua obra Maus. Trata-se de uma HQ biográfica que traz relatos de vida do autor e, principalmente, de seus pais judeus, Vladek e Anja, que sofreram a perseguição nazista, durante a Segunda Guerra Mundial. Na história, os judeus são retratados como ratos, os alemães são gatos e os poloneses, porcos. Muito diferentes dos bichinhos simpáticos e de formas arredondadas dos estúdios Disney, os de Spiegelman são versões nada animadas, de traços nervosos e contornos duros. O autor, de forma irônica, usou os estereótipos da época do nazismo quando os judeus eram considerados ratos que devoravam a economia do país.

O fio condutor da narrativa é a história do autor e seu relacionamento conflituoso com o pai. Nas conversas entre os dois, é resgatada a biografia de Vladek e de Anja, que se suicidara anos antes. Os momentos mais dramáticos, obviamente, se referem aos relatos referentes ao período em que o casal foi enviado para o campo de concentração de Auschwitz. Desencontros, fugas e o constante medo de ser enviado para as câmaras da morte marcam as ações de Vladek, sempre pensando numa estratégia para se manter vivo. O relato mostra como ambos sobreviveram ao confinamento e conseguiram se reencontrar e reconstruir suas vidas, mas as lembranças daquele período terrível geram pesadas consequências ao casal.

maus_perseguicao-nazista

 

 

O holocausto judeu é uma das passagens mais contundentes e cruéis da história da humanidade e Spiegelman chegou a ser criticado por usar “bichinhos” para tratar de um tema tão polêmico. No entanto, o livro ganhou repercussão mundial e tem sido reverenciado como uma obra importante que rompeu, inclusive, os limites dos quadrinhos, atraindo leitores de outros gêneros.

Editada em um único volume com mais de 400 páginas, a primeira parte da história foi originalmente publicada em capítulos no gibi de vanguarda Raw, nos Estados Unidos. Não se trata, portanto, de uma leitura fácil, mais recomendada para adultos ou para leitores que tenham uma certa maturidade para compreender a profundidade do tema.

maus_campo-concentracao

Porque é legal ler: A narrativa de Spiegelman é densa e marcada por conflitos de grande dramaticidade. Isso torna a leitura intensa. Uma história que queremos acompanhar ansiosamente para chegar ao final.

Porque é importante ler: Maus é considerada uma das mais importantes obras em quadrinhos já produzidas. Em 1992, recebeu o prêmio Pulitzer, o mais prestigiado da imprensa americana, sendo a primeira história em quadrinhos a obter essa conquista.

Para ler e refletir: Sempre é tempo de relembrar uma das maiores atrocidades já testemunhadas pela humanidade, pois, uma sociedade que esquece os erros do passado corre o risco de repeti-los.

 

Nobu Chinen
Publicitário e professor universitário. Docente da Faculdade de Comunicação e Design Oswaldo Cruz; da Universidade São Judas e da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Pesquisador de histórias em quadrinhos. Membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP e da comissão organizadora do Troféu HQMIX. Autor dos livros “Linguagem Mangá. Conceitos Básicos” (2015) e “Linguagem HQ. Conceitos Básicos”, (2011), e outros títulos sobre quadrinhos e comunicação. Coorganizador das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo; e das Jornadas Temáticas de Histórias em Quadrinhos, na Unifesp, campus Guarulhos.

Ver +

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *