HOMOFOBIA: DE ONDE SURGE E COMO MUDAR

Neste texto, vamos pensar a homofobia enquanto adversidade cultural.

Por Lívia Gariglio

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O QUE É HOMOFOBIA?

A palavra homofobia, tomada em sua morfologia literal, significa “medo de iguais” e é irônica, porque geralmente o desconhecido e o diferente é que são passíveis de medo. Entretanto, a gente sabe que, na verdade, homofobia se refere a atos que visam diminuir, desumanizar ou discriminar pessoas homossexuais (LGBTQIA+ no geral), seja sutil ou escancaradamente.

ISSO SEMPRE FOI ASSIM?

Não. Durante muito tempo, várias sociedades conviveram de forma neutra ou favorável à bi e a homossexualidade (embora seja difícil transpor essas denominações, já que não eram chamados assim na época), assim como existiram outras que eram hostis a isso.

Há registros na China (tanto de relacionamentos homossexuais masculinos e femininos); na Grécia (com a pederastia); na África, como em Lesoto (há relatos de relacionamentos sáficos) e no norte do Congo (entre guerreiros e jovens); nas Américas antes da colonização europeia (centrada, algumas vezes, na figura dos dois-espíritos); na Oceania, como em Papua Nova Guiné, até o meio do século passado (com a difusão do cristianismo, a hostilidade com o tema cresceu); entre outros – vastos, detalhados e peculiares de cada localidade.

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Isso exemplifica o assunto tratado neste texto: A homofobia é uma adversidade cultural.

COMPORTAMENTOS HOMOSSEXUAIS SÃO CONTRA A NATUREZA?

Também não. Só em 1999, existiam cerca de 1500 espécies animais em que comportamentos homossexuais foram documentados e 500 delas de uma forma mais detalhada. É algo comum dentro do reino Animalia, portanto, não é “anti-natural”.

Segundo Petter Bøckman, o assessor científico da exposição Against Nature em 2007: “Não foi encontrada qualquer espécie em que o comportamento homossexual não demonstrou-se existente, com exceção de espécies que nunca fazem sexo, tais como ouriços e aphis”.

Várias pesquisas apontam que comportamentos homossexuais são mais comuns na natureza do que se imagina.

Dois leões. Reprodução site Mega Curioso
ENTÃO… DE ONDE SURGIU ESSE PRECONCEITO (E COMO ELE SE MANTÉM)?

Não há um consenso a respeito de como surgiu, já que existem vários fatores a serem considerados. Dentre eles:

Religião

Bem, imagine a seguinte situação na Europa: Muitas mortes (alta mortalidade), poucos nascimentos (baixa natalidade), logo, crescimento vegetativo negativo. A Igreja Católica se preocupava com essa situação (e tentava a evitar) porque com poucas pessoas vivas, há menos fiéis (e menos arrecadações também).

Reprodução Wikipedia

Essa instituição era a mais forte na época medieval e ditava grande parte da vida social da comunidade, seus hábitos e costumes. Então era vantajoso tentar controlar a sexualidade das mulheres e dos homossexuais, os discriminando e perseguindo, tentando fazer com o sexo visasse procriação.

Daniel Borrillo afirma em seu livro “Homofobia: história e crítica de um preconceito” que um dos grandes fatores de propagação dessa discriminação foi justamente a ascensão de religiões judaico-cristãs.

Atualmente, a interpretação literal de versículos bíblicos ainda é polêmica, já que descontextualiza a obra de seu tempo (o que é totalmente anacrônico) sem levar em consideração esse contexto que você acabou de ler. (Aliás, será que somos capazes de julgar quem vai entrar no céu e quem não?)

Charge de Latuff. Reprodução portal Justificando

Além disso, o Papa Francisco é a favor da legalização da união civil de indivíduos do mesmo gênero – que no Brasil é legalizada (em 2011, foi declarada como legal pelo Supremo Tribunal Federal e em 2013, o Conselho Nacional de Justiça permitiu o registro de casamentos homoafetivos pelos cartórios).

Evangélicos marcham contra a homofobia na parada gay de 2015. Reprodução Jornal Opção / Twitter

Medicina e ciência

Depois do renascimento, a ciência recebeu um papel de destaque. De fato, várias descobertas foram feitas, mas pseudociências (que eram validadas em suas épocas) também existiram.

Apenas em 1990 a OMS considerou que a homossexualidade não era uma patologia e dois anos depois ratificou isso.

Reprodução portal Veganagente

Inclusive, a denominação “homossexualismo” é COMPLETAMENTE incorreta, justamente por considerar como doença. Várias pessoas homossexuais passaram por situações horrendas, como castração, terapia de choque e lobotomia, por causa desse preconceito.

Com a explosão de casos de AIDS no século XX houve, mais uma vez, a estigmatização salutar de pessoas que não são hetero-cis-normativas e isso acontece até hoje, infelizmente.

Segue o exemplo de uma manchete extremamente preconceituosa que retrata bem essa situação:

Reprodução do documentário “Carta para além dos Muros” / internet

Em 2017, ocorreram vários protestos sobre a “cura gay” – que não existe, pois não é uma enfermidade para ser curada. Atualmente, terapias de “cura gay” são proibidas no Brasil.

Reprodução: site da Central Única dos Trabalhadores

Controle e poder

Neste tópico vamos filosofar, com base no pensamento de Foucault. Segundo esse pensador, a sociedade vai criando ferramentas de disciplinarização dos corpos, ou seja, em qualquer lugar a gente está sendo controlado e observado (como um panóptico gigante) com base no que é posto como “norma”.

Reprodução Centro Universitário FAESA

Se a norma é a intolerância com a diversidade sexual, esse reflexo será visto nos mais diversos ambientes: nas escolas, em casa, na rua…

No ocidente, o primeiro código penal que punia a homossexualidade que se tem registro foi em 1533, na Inglaterra (já na Idade Moderna, porque antes esse controle era feito pelas instituições religiosas) e Portugal adotou isso 20 anos depois, em 1553, tanto em forma de lei, quanto por meio da Inquisição.

Há até pelo menos 2 anos atrás, contávamos 70 países que ainda criminalizavam essa parcela da população, seja com prisão ou com até pena de morte. O Irã, por exemplo, condena pessoas homossexuais ao enforcamento e Arábia Saudita, ao apedrejamento.

No Brasil, até 1830 a homossexualidade era criminalizada. No entanto, a partir de 2019, a homofobia começou a ser criminalizada (sim, ser homofóbico é CRIME).

Contudo, ainda somos um dos países que mais mata LGBTQIA+ no mundo, infelizmente.

Projeção

De acordo com a Psicologia, a projeção é um mecanismo de defesa no qual alguém projeta pensamentos ou características indesejadas a outra pessoa. Dessa forma, alguém que não é heterosexual mas não quer se aceitar por decorrência de processos internos ou externos, pode ter tendência a praticar homofobia. Traduzindo, muitos homofóbicos são gays (ou bi, pansexuais…) mal resolvidos e enrustidos.

Reprodução: Clínica Ciulla

Machismo e masculinidade tóxica

Há algum tempo, surgiu-se a necessidade de conversar sobre masculinidade tóxica. Muitas pessoas falam que os homens não podem ser feministas: e isso não podia estar mais errado (embora isso não signifique roubar o protagonismo da luta feminista, que fique claro).

O machismo é extremamente prejudicial aos homens também, tanto que a maior taxa de suicídio é deles, uma vez que o papel social esperado é do de alguém que não pede ajuda, que não chora, que não fala sobre sentimentos e é cobrado a todo instante ser “forte”, ser o provedor, ser “o macho alpha”.

Agência de Notícias das Favelas – ANF / Reprodução

Isso cria uma masculinidade frágil, com baixa autoestima, em que qualquer ato que não vá de acordo com esse estereótipo é visto como ameaça. Assim, é necessário sempre se auto afirmar, uma das razões para homens serem muito mais acometidos por mortes violentas. (Para quem se interessar pelo tema, recomendo o documentário “O silêncio dos homens”).

E isso se reflete na homofobia também, já que ser gay é visto como não ser homem, em cobranças como “vira homem, pô, larga de ser um viadinho”, o que nem faz sentido, porque gays são homens que se relacionam com homens. A falta que educação sexual não faz.

Na cidade onde eu atualmente resido, existe um grupo masculino chamado Arsenikos, cujo intuito é a desconstrução dessa masculinidade tóxica. Iniciativas como essa são imprescindíveis, pois o diálogo é a chave.

Resumindo…

A homofobia é um fenômeno cultural que não faz mais sentido nos dias de hoje: a situação demográfica possui meios mais eficazes para se resolver; as religiões pregam o amor, não o ódio ou a aversão; nossas instituições públicas tem condições de lidar com a homofobia (embora frequentemente não o façam); ser homossexual não é enfermidade e nem traz inerentemente doenças e para projeção e/ou masculinidade tóxica, há terapia.

A homofobia é, ainda, um empecilho que impacta em outros problemas sociais. Quer entender melhor? Então dá uma conferida nesse texto que escrevi recentemente aqui na Agência Jovem sobre pessoas moradoras de rua.

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COMO MUDAR A HOMOFOBIA?

Um problema cultural se resolve em múltiplas frentes, para ser duradouro.

Individualmente, a auto análise é fundamental. Rever os seus conceitos, suas atitudes, suas falas, seus posicionamentos, tentando compreender comportamentos homofóbicos (explícitos ou sutis), porque você os cometeu e como você pode mudar. Caso esteja isso seja difícil, é indicado procurar um terapeuta.

Caso você veja uma situação de homofobia, não se cale. Não seja conivente. Não seja cúmplice, ativamente ou pelo seu silêncio.

Coletivamente, apoiar o movimento LGBTQIA+, bem como cobrar do governo medidas práticas de conscientização, prevenção e aplicação da lei de criminalização da homofobia, são algumas das opções. Participar de grupos e coletivos que visam essas temáticas também é muito válido, já que é melhor prevenir do que remediar, como diz o ditado.

Não se esqueça: a mobilização é FUNDAMENTAL para a mudança acontecer!

Quer saber mais? Dá uma olhada nessas fontes e referências:

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