Grito dos excluídos: uma agenda por inclusão, respeito às diferenças e por justiça social

Por Augusto Ramos*

O ultimo dia 07 de setembro foi marcado por manifestações por todo o país, protagonizadas por segmentos que historicamente são excluídos da sociedade. Fui instigado a escrever sobre minhas impressões acerca do “Grito dos excluídos”, pois a manifestação se configurou neste ano, especialmente, em uma grande expectativa de mobilização por justiça, inclusão, contra a corrupção e outras pautas que foram desnudadas ao longo do mês de junho e julho por uma geração que até aquele momento estava desacreditada e rotulada como acomodada em relação aos rumos e decisões tomados no centro de poder do estado brasileiro.

Desde a concepção desta agenda nascida no seio da Igreja Católica por meio de suas pastorais, espacialmente a pastoral social, com a promoção da “Campanha da Fraternidade”, sempre foram trazidos temas que repercutem e interferem diretamente na vida de milhares de pessoas. Somam-se aí os apelos da 2ª Semana Social Brasileira, realizada nos anos de 1993 e 1994 também por setores da igreja, contando com a colaboração de pensamentos diferentes, porém com objetivos comuns às demais Igrejas do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) e os movimentos sociais, entidades e organizações que integraram esta pauta.

O fato da agenda nacional oficial do 7 de setembro contar com uma programação que mobiliza todos os brasileiros e brasileiras no sentido de refletir sobre a simbologia do patriotismo nacional mascara um conjunto de problemas gerados pela irresponsabilidade administrativa e a malversação dos recursos públicos que seguramente colabora para o enfraquecimento de nossa crença nas instituições políticas constituídas. Em todo caso, o “grito” mobiliza uma grande parcela da sociedade, e promove oportunamente uma verdadeira avenida para que apresentemos as pautas prioritárias que precisam ser enfrentadas pelo estado para a superação das desigualdades e por justiça para tod@s.

Como todo movimento organizado e planejado, o “Grito dos Excluídos” também representa um acúmulo, sentido em sua agenda ao longo de seu processo histórico:

• Denunciar o modelo político e econômico que, ao mesmo tempo, concentra riqueza e renda e condena milhões de pessoas à exclusão social;
• Tornar público, nas ruas e praças, o rosto desfigurado dos grupos excluídos, vítimas do desemprego, da miséria e da fome;
• Propor caminhos alternativos ao modelo econômico neoliberal, de forma a desenvolver uma política de inclusão social, com a participação ampla de todos os cidadãos.

Infelizmente ao longo da ultima década, por uma séria crises, dentre elas a mais notável a de identidade, este movimento passou por um refluxo lamentável em que não se fazia nem ouvir, porque o “grito” ficou escondido, sufocado, e cedeu lugar a um murmúrio vergonhoso. Mas como todo processo histórico de evolução serve e colabora para a maturidade, ao que tudo indica voltaremos a ter um fórum onde possamos discutir, refletir e superar diferenças para caminhar em “comunidade de sentido” ou seja, para pactuarmos agendas comuns.

O desafio da construção coletiva nos exige profunda reflexão acerca de nossa identidade política, maturidade no sentido de acolher e receber todos os movimentos que compartilhem dos princípios e sentido desta agenda. Podemos observar que o espaço ocupado historicamente por este campo dos movimentos sociais estivera órfão de nossa inteligência política e fora vitima de nossas vaidades políticas intransigentes, ou seja, ao que tudo indica recuperamos parcialmente nossa centralidade de ação coletiva, mas precisamos é preciso estar alerta para que possamos corrigir equívocos e ajustar as estratégias para seu fortalecimento e ampliação.

É preciso que as pautas trazidas no levante promovido a partir de junho pela indignação do povo brasileiro sejam catalisadas e responsavelmente discutidas por nossas organizações, transformadas em bandeiras e instrumentos de pressão para que as instituições políticas acordem, porque foram estas instituições que dormiram e ainda não acordaram; nós permanecemos e permaneceremos atentos e vigilantes para que “O grito dos excluídos colabore para a construção de uma agenda que viabilize a inclusão como condição prioritária de superação das desigualdades, o respeito às diferenças como valor imprescindível as relações humanas e a justiça social como critério para o desenvolvimento humano de nosso país”.

* Administrador, diretor executivo do Instituto Amazônico de Comunicação e Educação Popular – IACEP. E-mail: admsomar@gmail.com

Historiador, educador do Instituto Universidade Popular e membro do Instituto Amazônico de Comunicação e Educação Popular - IACEP.

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