Galera Repórter: Música que vem da floresta

A banda de música popular amazonense Tucumanus conta sua trajetória até alcançar espaço nos palcos do Brazillian Day

Jhony Abreu e Elizabeth Lucena, do Virajovem Manaus (AM)*

A equipe virajovem de Manaus conversou com o guitarrista Denilson Novo e o vocalista Clóvis Rodrigues, da banda amazonense Tucumanus, que representou o Estado do Amazonas no Brazillian Day, maior festival de música brasileira fora do País. Acontece em Nova York, nos Estados Unidos. Em 28 anos de festival, esta é a primeira vez que uma banda de Manaus consegue esse feito.

Os músicos contaram sobre a trajetória da banda, que surgiu ainda na década de 1990, com o filósofo Maurício Pardo. O projeto não era necessariamente musical, mas sim uma ideia de valorização do cantor e da cultura regional que, a pedido do filósofo, foi reforçada pelo quadrinheiro e desenhista Adriano Furtado, criando assim o Universo dos Tucumanos – desenhos de seres com corpo de homem e cabeça de tucumã.

Tucumã é uma fruta regional do Norte do País, muito comum nas feiras de Manaus. É encontrada com facilidade na floresta amazônica. Nessa época, a fruta estava explodindo na cidade com suas várias utilidades, que variam desde o sanduíche (conhecido na cidade como X-caboquinho) até o sorvete, e Maurício vislumbrou uma nova utilidade para ela. Desde então, começou a tratar os caroços e, com três em cada uma das mãos, saía pelos corredores da Universidade Federal do Amazonas fazendo um som que parecia uma matraca.

Em 2001, surgiram as primeiras músicas, tocadas apenas em churrascos de fins de semana. A formação oficial da banda aconteceu mesmo em 2006, depois que Clóvis Rodrigues assumiu os vocais do grupo e a banda fez sua primeira apresentação no Teatro Chaminé, em setembro deste mesmo ano. Confira a entrevista:

Como surgiu a idealização do projeto?

O conceito surgiu com a ideia de valorizar a cultura regional. O Maurício estava no interior do Ceará e o dono de um bar, depois de saber que ele era amazonense, pôs para tocar um disco do Teixeira de Manaus. Quando ele voltou, começou a delimitar o olhar dele para essa questão da valorização do que é regional. Na época ele começou a escrever sobre a decadência da Zona Franca de Manaus e foi justamente o momento em que os produtos da nossa terra começaram a sair dos muros do Mercado Municipal e ganharam espaço nas ruas. Começaram a aparecer as barraquinhas de café da manhã, o x-caboquinho (sanduíche regional a base de tucumã) e as banquinhas de camelôs davam mais espaço para os produtos daqui. Nessa época, o tucumã ganhava espaço na cidade, então ele investiu na ideia de fazer algo novo com a fruta, e assim surgiu o som que ele fazia com os caroços e ainda O Universo dos Tucumanus.

E a ideia de montar uma banda?

Depois de ter criado O Universo dos Tucumanus, ele começou a desenvolver frases e textos e me chamou para musicar isso. Na época eu já tocava em algumas bandas e ele acompanhava esses shows e conversava com os músicos sobre os projetos dele. Como nós sempre nos encontrávamos em churrasco nos fins de semana, um dia sentamos juntos e conseguimos fazer, de cara, umas três ou quatro músicas, que ficaram muito legais, e a partir daí, os churrascos, que eram frequentes, começaram a ter um público maior. O pessoal ia e pedia pra gente tocar as nossas músicas. Isso aconteceu em meados de 2001 e teve essa repercussão. Com o tempo, o projeto foi amadurecendo. Nós não tínhamos voz para cantar, mas queríamos montar uma banda, então, depois da chegada do Clóvis e dos outros integrantes, em 2006, começamos a nos apresentar.

E como surgiu a oportunidade para tocar no Brazilian Day?

O Brazilian Day foi uma surpresa pra gente. Tudo começou com o Gláucio Penalbert, que trabalhava aqui com merchandising de marketing e foi morar em Nova York. Lá, ele conheceu os organizadores do Brazilian Day e falou do nosso trabalho. O diretor geral do evento se interessou em ver o nosso material, até porque nunca havia levado ninguém do Amazonas para tocar lá. Enfim, eles adoraram o material e estavam estreando um palco alternativo no evento, daí houve o convite para a banda.

Como foi a receptividade fora do País?

A receptividade lá foi muito boa, a gente saiu como destaque do palco alternativo. A coordenadora do palco onde nós tocamos estava junto com a gente e pediu para que prolongássemos o show, pois o tempo era muito restrito para cada apresentação. Como ela estava gostando, pediu pra gente tocar mais uma música e começou a chorar porque, naquele momento, ela sabia que tinha feito a aposta correta em ter nos levado para tocar lá. Nessa viagem, a gente também conseguiu fazer um show no Subs, que é uma das principais casas de shows de world music em Nova York, e tivemos o mesmo feedback, a casa estava lotada. A gente pôde perceber que o nosso som é muito diferente de tudo o que toca por lá, então a aceitação por conta disso é muito grande. A gente tocou na rua, no metrô, no Central Park, na Times Square e as pessoas paravam para ouvir, dançar. Fizemos imagens de tudo isso e essas imagens estão no clipe Churrasco de gato. Tudo isso deu um histórico muito legal pra banda.

E quanto à receptividade no Brasil?

Em 2012, tivemos muitas conquistas. Começamos participando do festival de música do Sesc com mais dez bandas, todas com estilos muito diferentes do nosso. Só de termos participado já estava bom. Aí, ganhamos o festival e fomos representar o Amazonas no sul do País, em Maringá (PR), no Festival de Música Cidade Canção (Femucic). Quando surgiu a proposta para Nova York, a gente precisava tirar o visto. Fomos para São Paulo, porque as oportunidades de shows eram maiores também. Então, entramos em contato com o pessoal da casa Fora do Eixo da Amazônia e eles articularam um show em uma excelente casa, que é o Studio SP, a casa lotou de amazonenses residentes na cidade, que estavam com saudades da banda. O pessoal ficou surpreso com o tamanho do público reunido para ver uma banda amazonense tocar e dessa forma os nossos laços foram se estreitando.

 

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