EXISTÊNCIA ATRAVÉS DA RESISTÊNCIA!

O IMPACTO DA PANDEMIA NA COMUNIDADE VILA RESISTÊNCIA

Por Leticia Therezinha Prates dos Santos*

“a periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor.

Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune.

Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado.” – SÉRGIO VAZ

Passados mais de um ano de pandemia e com mais de 500 mil mortes por Covid-19 no Brasil, a Vila Resistência segue ainda mais resistente frente a todas as implicações que se somaram às dificuldades cotidianas. O acesso à educação e ao mercado de trabalho tem sido duas questões que afetaram diretamente os moradores da região.

PANDEMIA, SAÚDE, EMPREGO

Sandra chegou do Uruguai faz 3 anos e meio e mora em uma casa da Vila Resistência.  Conta que em sua casa chove, mas já está em melhores condições do que quando chegou, pois o terreno era um banhado. Tudo era muito úmido e os moradores arrumaram as ruas.

A situação sempre foi difícil, mas acredita que com o princípio da pandemia as pessoas se tornaram mais sensíveis e passaram a receber mais colaboração para as famílias. “A gente não passava tanto trabalho como antes,  pois chegava muita colaboração”, conta. No entanto, com o passar do tempo, a situação ficou muito difícil, pois quase não chega mais colaboração.

Letícia (LT) – o que mais impactou a comunidade?

Sandra (S) – Tá difícil conseguir trabalho e com isso ninguém tem de onde tirar. Eu sou uma pessoa de 55 anos. Vou arrumar trabalho onde? Uma pessoa como eu, com problemas de saúde. Assim como eu um monte de gente! – Eu coloquei mercadinho mas não tô vendendo nada. Tem pessoas que tão fazendo reciclagem, mas até isso parou bastante porque antes tinha festa por todos os lados e as pessoas faziam reciclagem. Juntavam as latinhas, faziam seu troco e agora não tem mais tudo isso aí. Tá tudo muito difícil. 

LT – E como está o atendimento em saúde?

S – Me vacinei no Uruguai, mas a saúde é difícil ainda que nos atendam agora na t.nevez (bairro próximo). Não queriam nos atender por causa do comprovante de endereço.  A gente não tem, né? Então não tinha como consultar. Um dia uma pessoa da prefeitura falou que conseguiria no postinho, mas só pros recém nascido. Agora estamos recebendo atendimento. 

A saúde pública agora, com tudo isso, é pior. Esses dias eu estava mal da pressão. Doente, mas não tinha como ir no postinho. Na entrada ali, tu entra e todo mundo que tá com Covid tá ali na entrada com a marcação na mão direita. Então prefiro ficar em casa, Estou sem os medicamentos, sem as coisas e sem dinheiro pra comprar e lá é mais perigoso do que ficar aqui em casa sem o medicamento. Também falta trabalho, falta educação.

COMO AS PESSOAS DE FORA PODEM CONTRIBUIR?

”Só dar as coisas para as pessoas não adianta, eu acho que de repente as pessoas poderiam se tivesse algum meio de comprar os panos de prato, comprar um quadro meu tem gente que produz aqui, até quem recicla que as pessoas ajudassem desse jeito, dando valor para o trabalho que as pessoas tem aqui dentro porque tem quem é pedreiro, o outro que é pintor.”

A Vila Resistência é uma ocupação ativa desde outubro de 2016. São famílias ocupam uma área da prefeitura de Santa Maria, RS, na luta por moradia digna. As famílias da ocupação são oriundas de processos de despejo no Bairro Parque Pinheiro. Sem condições de alugar imóveis, se instalaram no local, que estava a mais de 20 anos sem definição de funcionalidade social. Com organização e autogestão, as famílias defendem e buscam melhorar a qualidade de vida no território.

*Leticia Therezinha Prates dos Santos é bolsista na região Sul do projeto Jornalismo e Território, realizado pela Énois Laboratório de Jornalismo, com foco em investigações sobre cultura e território.

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