Estudantes dão aula de cidadania nas ocupações do RS

Professor em greve lutando pela qualidade da educação. Aluno de pijama em casa aguardando de braços cruzados o retorno das aulas. Esse é um cenário que por muitos anos desenhou o contexto de mobilizações contra os problemas do sistema público de ensino. Além dos cadernos e livros, frutos da missão de promover o conhecimento, o professor também carrega em sua mochila a eterna missão de pleitear por direitos básicos.

Mas esse ano o desenho ganhou novos traços que renovaram essa obra pintando mais esperança na luta pela educação. Em vez de ficarem na comodidade de seu lar, os estudantes trouxeram pra escola o pijama, a touca, as pantufas, a escova de dente, sua voz e suas reivindicações. Ao ocupar o espaço escolar, os estudantes secundaristas fizeram história no Brasil.

A semente foi plantada a partir do final de 2015 em São Paulo, depois se espalhou por outras regiões do país, como Rio de Janeiro, Goiás e Ceará, manifestando-se de forma também significativa no Rio Grande do Sul. No estado, foram mais de 100 instituições ocupadas, em sua maioria entre os meses de maio até junho de 2016, quando os estudantes acordaram em começar a desocupar, após a conquista de parte de suas reivindicações.

Em Santa Maria, na região central do estado, oito escolas estaduais participaram do movimento, tendo adesão relativa entre 15 a 40 estudantes por escola. Cinco delas, estão entre as últimas do estado a realizarem a desocupação, feita nessa primeira semana de julho. Foram mais de 30 dias de um intenso trabalho de superação, de aprendizagem, de convívio em grupo, de provar habilidades culinárias, de organização, de amizade. Além de reivindicar a derrubada de Projetos de Lei, como o PL44 de 2015 (que propõe uma espécie de “privatização” do ensino público) e o PL190 de 2016 (escola sem partido), os estudantes buscavam melhorias na infraestrutura da escola e o efetivo repasse de verbas públicas.

 

Uma visita às escolas ocupadas

Conhecer o movimento através das telas midiáticas é bem diferente de conhecê-lo ao vivo e em cores. Durante o período das ocupações, visitei seis escolas estaduais ocupadas em Santa Maria/RS. Em nenhuma delas saí pelo portão do mesmo jeito em que entrei. As observações que fazia e as conversas que tinha com aqueles jovens, sempre receptivos, me surpreendiam. Na primeira visita que realizei, ao colocar meus pés no portão da escola, vi cerca de cinco meninos, entre 14 e 16 anos, com uma vassoura de palha na mão, tirando as folhas caídas sobre o pátio escolar. Uma cena linda de jovens que se apropriaram de um espaço que sempre foi seu, ou melhor, de todos, mas que até então assim não era visto. Uma frase presente na fala de grande parte desses jovens é que existiam duas escolas: uma antes e outra depois das ocupações. Ao morar por alguns dias na escola, finalmente, a escola passou a ser um lugar onde eles se sentem “em casa” e o qual querem cuidar e fazer crescer. Um sentimento que nenhum currículo escolar fechado, como o que temos atualmente, iria conseguir plantar no coração desses jovens cidadãos.

A timidez é um comportamento que passa longe desses engajados adolescentes. Sempre prontos a conversar e explicar a sua luta. O surpreendente em todos os diálogos que fiz com diferentes estudantes, é a sua segurança, seu discernimento, sua exímia articulação de argumentos e avaliações sobre o sistema de ensino. Palavras que são poesia para os ouvidos de quem ainda acredita em uma educação libertadora. Aliás, Paulo Freire, lá de cima, deve estar muito realizado e orgulhoso desses estudantes. Afinal de contas, ele dizia: “… a escola não transforma a realidade, mas pode ajudar a formar os sujeitos capazes de fazer a transformação, da sociedade, do mundo, de si mesmos…”.

É interessante observar que eles mesmos se questionavam até que ponto a comunidade, a sociedade em geral, está informada sobre as principais problemáticas da educação. Quem sabe o que realmente diz o PL44, por exemplo? Será que as notícias sobre educação interessam às pessoas? Ou será que elas querem que as aulas voltem e ponto? Para eles, muitos encaram a greve dos professores, e agora, a ocupação nas escolas como um problema, uma perturbação social. E veem dessa forma porque não conhecem a fundo as pautas que estão sendo discutidas.

A impressão que dá é que educação não é um assunto que deve ser pensado por todos. É uma pauta marginalizada. Que só “entra na boca do povo” quando tranca o trânsito e, ainda assim, é só para receber críticas. E claro, a receita para organizar essa “desordem” é spray de pimenta a gosto. Somente quando esse descaso com a educação for diluído e a qualidade do ensino for encarada como uma responsabilidade de todos nós, é que a luta pela educação vai se fortalecer. Essa adesão histórica dos estudantes é um passo fundamental rumo a esse sonho.

Ainda mais quando essa adesão for um legítimo exercício de cidadania. Isso pode ser observado ao conhecer a forma de organização dos estudantes nas ocupações. Cada um tem uma tarefa: preparar refeições, monitorar o portão, lavar a louça, limpar a escola, gerenciar a Fan Page. Não há representantes, lideranças, tudo é decidido em grupo.  É só chegar em uma escola pra perceber isso.

Relações horizontais, trabalho em grupo, resistência, reinvindicações em defesa da educação pública, postura crítica em relação aos meios de comunicação hegemônicos, exímia organização, promoção de rodas de conversa e oficinas, produção independente de conteúdo para as mídias sociais, apoio à luta dos professores, protagonismo juvenil com um discurso sólido, seguro, cidadão.

Esses são apenas alguns dos inúmeros aspectos positivos que podem ser evidenciados e sentidos ao conhecer de perto as ocupações de estudantes secundaristas de Santa Maria. E não apenas aqui. Essas características aparecem também no contexto do movimento em outras regiões do país.

Por aqui, as ocupações terminaram. Mas, nem os estudantes nem a escola ou professores jamais serão os mesmos. Com essa experiência social inédita aprendemos que os jovens também são e querem ser responsáveis pelos espaços onde vivem. E que a resistência ao sistema imposto dá resultados. Além de adiar a votação dos Projetos de Lei, por exemplo, eles conquistaram a abertura de um Fórum permanente de educação para a região central do estado, onde todo mês irão se reunir junto com representantes do poder público para discutir essa questão. Ou seja, eles conquistaram um importante lugar de fala, de valorização social, de emancipação. Afinal, como eles mesmos dizem: “quem melhor pra discutir o que rola na escola e dentro da sala de aula do que nós mesmos, que estamos aqui todos os dias?”.

Diante disso tudo, cabe parar por um instante e pensar: quem de nós, se engajaria em um movimento como esse? Que passaria os dias mais gelados do inverno dormindo em uma cama improvisada no piso da escola? Que varreria o pátio e limparia um espaço público sem receber dinheiro em troca? Que abriria mão do videogame, da novela, do sofá, da comida de casa? Que trocaria uma tarde agradável de sol, perfeita para dar uma volta de bicicleta com os amigos, por uma participação em assembleia de governo para defender a escola pública? Você faria isso? Ao refletir dessa forma, não restam dúvidas sobre a importância e o valor do ato notável realizado por esses jovens.

Quem deu aula, dessa vez, foram eles, os estudantes. E não precisaram nem de quadro negro, nem de giz, nem de livro didático para passar uma lição que vai ficar pra história desse país. “O que a gente fez vai ficar pra sempre e servir de exemplo para as próximas gerações”, destaca um estudante. Ensinaram com exemplo uma lição que dá luz à esperança de que tem uma geração linda por aí, pronta para inovar, transformar e lutar por um mundo, de fato, melhor.

Araciele Maria Ketzer é jornalista, tem 24 anos e é mestranda em Comunicação Midiática pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *