Estudantes de São Gonçalo (RJ) usam teatro para discutir violência e transformam ambiente escolar

Abordando temas delicados, grupo usa arte e sensibilidade para tornar a escola um lugar acolhedor e menos violento

Por Solon Neto | Edição: Helisa Ignácio

Em um dos saudosos prédios dos CIEPS no Rio de Janeiro, um projeto de estudantes e professores ecoou, por meio do teatro, o espírito da experiência idealizada por Darcy Ribeiro, nos anos 1980, ao criar o modelo de instituição pública de ensino no estado.

Entre as paredes do Centro Integrado de Educação Pública (CIEP) 240 Professor Haroldo Teixeira Valladão, no município de São Gonçalo (RJ), um grupo de 22 alunos do 2º e 3º ano do Ensino Médio se reuniu sob orientação de quatro professores para discutir temas como bullying e discriminação por meio da arte. Nasceu, assim, o projeto Entre Nós: Escuta e Acolhimento na Comunidade Escolar, finalista da mais recente edição do prêmio Desafio Criativos da Escola.

A ideia surgiu dos próprios adolescentes como parte das aulas da disciplina de Projeto de Pesquisa e Intervenção (PPI). Os estudantes realizaram um levantamento dos casos de violência vividos tanto dentro como fora da escola e, após análise, perceberam temas recorrentes como homofobia, racismo, gordofobia, intolerância com pessoas com deficiência e bullying com os “nerds”. Diante disso, os estudantes se engajaram em uma solução criativa e produziram apresentações teatrais seguidas de rodas de conversa com as turmas da escola.

Igor Porto, de 18 anos, um dos alunos que participou no projeto de ponta a ponta, recorda que as apresentações geraram mudanças no comportamento de seus colegas.

“A nossa turma mudou muito nesse sentido. No sentido de respeitar mais, no sentido de demonstrar mais que se importa, de demonstrar mais carinho, de dar mais apoio. Isso mudou muito a forma como a turma se relacionava”, afirma o ex-estudante do CIEP 240.

Inês Petereit, uma das professoras que orientou o projeto, explica que o trabalho com alunos já vinha de antes, o que facilitou o envolvimento com a nova atividade.

“Essa turma já vinha lidando com o tema da empatia pela arte desde o ano anterior, quando nós trabalhamos com a temática do racismo. Eles já vinham nessa pegada”, recorda Inês.

Alunos e professores do CIEP 240 que participaram do projeto Entre Nós em São Gonçalo (RJ), em 2019/Divulgação

O protagonismo dos estudantes no processo foi fundamental para gerar a empatia necessária e as transformações pessoais dos envolvidos, segundo Igor, que aponta que o mesmo não seria possível caso partisse apenas dos professores.

“Tem um afastamento porque a gente sente que os professores não vão entender as questões de nós adolescentes, nós estudantes. Mas quando são alunos, pessoas como a gente, por assim dizer, a gente sente uma conexão”, recorda.

Keylaine Siqueira, de 18 anos, que também integrou o Entre Nós, reforça essa visão, e aponta que aprendeu uma nova forma de se comunicar com o projeto.

“Eu vi que muita gente conseguiu compreender tudo aquilo que nós passamos sem ter um quadro atrás da gente, sem ter um professor explicando. Foi por meio de uma peça, de uma comunicação, que foi passado tudo isso para turmas desde a 6ª série até o 3º ano. Foi algo muito incrível, algo que eu nunca tinha pensado que iam passar na escola para mim”, relata.

De estudante para estudante: teatro e empatia 

Os alunos se dividiram em dois grupos para as apresentações do projeto. Uma delas criou o roteiro teatral “Entre Nós”, que se apresentou a cada uma das turmas, abrindo uma roda de conversa em seguida. Para gerar envolvimento, a narrativa misturou depoimentos colhidos na escola com depoimentos achados na mídia. 

“Nós trabalhamos com uma linha narrativa que fica entre a realidade e a ficção. Nós tínhamos uma matriz narrativa que vinha dessas referências que nós buscamos nos periódicos, mas nós misturamos com trechos de relatos que foram colhidos”, aponta a professora.

Além da peça, a intervenção “Confissões ao Pé do Ouvido” levou trechos de relatos para serem lidos em cabines e expostos em varais pela escola, aproximando-se dos estudantes.

Igor recorda que criar um ambiente seguro para que os alunos se abrissem foi algo desafiador.

“Esse foi um dos maiores desafios para a gente: conseguir criar esse ambiente de conforto e segurança para os alunos poderem se abrir e se sentirem tocados pela nossa intervenção”, conta.

Em São Gonçalo (RJ), os então estudantes Igor Deni Pereira Porto e Keylaine El Carih da Silva Siqueira participam de atividade no CIEP 240, em 2019/Divulgação

Keylaine lembra que, apesar da proximidade com os demais estudantes, houve problemas para conquistar a escuta dos colegas.

“Essa parte de aluno para ouvir aluno ficou por um tempo como a nossa maior dificuldade. Outra coisa foram os materiais, porque a gente era estudante de escola de pública e a verba não colabora muito”, relata a estudante, que ressalta que apesar dos percalços “no final deu tudo certo”.

A professora Inês pondera que, apesar de dificuldades de falta de apoio e de estrutura para o projeto, o impacto da iniciativa também nos professores a motivou a levá-lo a outros colégios e a inscrevê-lo no Desafio Criativos da Escola. Um dos motivos foi o próprio impacto gerado nos professores.

“No final era isso: as pessoas se abraçando, chorando. Tanto que isso gerou um movimento por parte dos professores de repensarem a própria prática. ‘O que nós estamos fazendo aqui nos atendo a tantos conteúdos quando existe um sofrimento, existe uma necessidade de expressão emocional que esses jovens estão tendo que tem lugar na escola?’”, conta Inês.

Mudança para a vida toda

O impacto duradouro da experiência pedagógica também foi sentido entre os alunos que trabalharam no projeto. Igor conta que sentiu sua própria atitude ser transformada e que os efeitos permaneceram em sua personalidade.

“Agora que a gente está em isolamento social, sempre um amigo meu está precisando conversar, precisando se abrir sobre um problema. E eu vejo que hoje eu estou mais preparado para conseguir conversar com pessoas mais próximas sobre esses assuntos e mais preparado para me entender e entender o que está acontecendo dentro de mim”, explica o jovem.

Já Keylaine, que após deixar a escola passou no vestibular e entrou na universidade pública, sente que o projeto a preparou para esse caminho e acredita que toda escola deveria adotar experiências como essa.

“Eu pude perceber que, se cada escola tiver um espaço mínimo de duas vezes na semana para acontecer, isso vai melhorar muito o ambiente. Como eu disse, lá na escola melhorou totalmente. Então, creio que se fosse em outras escolas também, seria muito melhor” finaliza.

Texto originalmente publicado no blog dos Criativos da Escola, iniciativa do Instituto Alana, parceiro de conteúdo da AJN.

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