Estudantes da Vila Sônia ocupam escola há duas semanas

Desde quando os estudantes da rede estadual de São Paulo começaram o movimento de ocupar suas escolas em protesto à medida autoritária do governo em fechar 92 instituições de ensino da região metropolitana, a galera da Agência Jovem de Notícias/Viração se entusiasmou em oferecer oficinas sobre Direito Humano à Comunicação e Democratização da Mídia. Após algumas tentativas, visitando pessoalmente duas escolas para oferecer nossa “aula”, surgiu o convite de Letícia Cardoso, uma jovem estudante de Gestão de Políticas Públicas da USP e ex-participante dos nossos processos de formação.

A escola onde Letícia se formou no ensino médio foi ocupada há duas semanas. Assim que soube, aproximou-se dos atuais estudantes e articulou uma oficina para ser dada por nós no Nicão, apelido que os estudantes deram à Escola Estadual Andronico de Mello, localizada na Vila Sônia, zona oeste de São Paulo. Topamos o convite de cara! E foi muito gostoso passar uma tarde com essa turma.

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A oficina aconteceu na última terça-feira, 1º de dezembro. Cheguei à escola às 13h. Lá, encontrei com Sabrine, de 18 anos, estudante do 3º ano, com quem combinei data e horário da atividade. Ela me acompanhou até o pátio da escola, onde cerca de 30 estudantes estavam dedicados a várias atividades: um grupo preparava o almoço do dia, outro jogava pingue-pongue, enquanto outra galera produzia cartazes de protesto ou para divulgar as atividades culturais e oficinas que aconteceriam ao longo da semana.

Sabrine estava inquieta. A oficina, marcada para as 13h atrasaria. Desculpou-se comigo envergonhada, explicando-se: “Pela manhã, tivemos uma Assembleia em que discutimos muitas coisas e tomamos muitas decisões e isso acabou atrasando o almoço”. Eu a tranquilizei. Não me incomodei em nada com o atraso. Pelo contrário. Observar a galera se organizando e atribuindo um novo sentido àquele espaço me emocionou muito e foi importante para estabelecer vínculo com aqueles estudantes antes de começar a atividade, que foi um bate-papo muito rico com cerca de 30 estudantes e outros adultos apoiadores da ocupação.

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Enquanto a galera comia, trocava ideia com alguns deles, especialmente com Washington, de 17 anos, mais conhecido como Wash, apelido dado a ele pelos colegas do Nicão. Contou-me sobre seus interesses profissionais e pessoais. Quer cursar moda, considera-se autodidata e uma pessoa de múltiplos interesses. E temos algo muito especial em comum: paixão pela arte das drag queens e pelo reality show RuPaul’s Drag Race, uma competição entre drag queens, exibida pelo canal estadunidense Logo TV! <3

Em seguida, começou a oficina. O que era para ser um bate-papo sobre Democratização da Mídia foi uma conversa cabeça sobre muitas outras questões: racismo, homofobia, sexualidade. Mas sem perder de vista a questão dos meios de comunicação e a representação desses temas nos grandes veículos. Aprendi muito com essa turma!

Mudança de paradigma

Antes de começar a atividade, a galera ia chegando aos poucos na sala onde aconteceu a oficina. Foi nesse momento que um(a) aluno(a) da ocupação me falou sobre a dificuldade de apoio ao movimento dos estudantes por parte da gestão da escola e de alguns professores. “A diretora da escola, no início, parecia apoiar a ocupação. Mas pouco depois veio com a dirigente regional para tirar a gente daqui, mas não conseguiu”, afirmou. O nome do(a) aluno(a) não será divulgado por questões óbvias. Ele(a) complementa, após alguns minutos de conversa, que a experiência de ocupar a escola foi a mais marcante e significativa vivida no Nicão.

E a tentativa de dissuadir os estudantes, no entanto, continua em escala maior. No início desta semana, os Jornalistas Livres divulgaram um áudio estarrecedor de Fernando Padula Novaes, assessor direto do secretário estadual de educação Herman Voovald, durante reunião com 40 dirigentes regionais de ensino. Nesse contexto, o representante do governo afirmou que estariam elaborando um “plano de guerra para desqualificar e desmoralizar o movimento”. Enquanto isso, temos acompanhado o governo do estado tratando essa questão como caso de polícia, que tem intimidado e agredido estudantes adolescentes em algumas das 196 escolas ocupadas no estado.

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Ainda nesse contexto, Padula anunciou aos dirigentes de ensino que a reorganização aconteceria por decreto. No entanto, até agora, o decreto não saiu. Alguns meios de comunicação já anunciam que o governo do Estado voltou atrás na decisão e Alckimin deve anunciar logo mais, no começo da tarde de hoje (04), a desistência pela reorganização.

A Defensoria Pública do Estado posicionou-se contra a reorganização na última quarta-feira, 03 de dezembro, por meio de uma Ação Civil Pública (ACP), em que pede a suspensão da reorganização para 2016 e a manutenção dos estudantes em suas escolas e turnos.

Bruno Ferreira
Jornalista, professor e educomunicador. Responsável pelos conteúdos da Agência Jovem de Notícias e Revista Viração.

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