Esse argumento é realmente seu?

As coisas que sabemos, as verdades em que acreditamos – e também as nossas memórias – podem sofrer influências externas? A resposta é SIM.

Por Victor Augusto Capellari

Eu sempre fui uma criança muito energética, nunca fui de ficar parado – o que dificultava para quem quisesse me vigiar. Numa das minhas fugas, quando tinha cerca de um ano e pouco, eu acabei me machucando e levei cinco pontos na parte superior do lábio.

Foi um grande evento traumático, podemos concordar. E com o passar do tempo eu comecei a me lembrar dele, tinha nitidamente a imagem de uma criança cambaleando com uma lata de milho verde que roubou num momento de descuido.

Só que às vezes a lata de milho virava uma lata de ervilha, e mesmo sendo um evento traumático era estranho eu conseguir lembrar de algo tão novo, ainda por cima minha lembrança era de alguém vendo a cena e não através dos meus próprios olhos.

Então conheci a professora Elizabeth F. Loftus, uma psicóloga cognitiva, que através de seu trabalho com distorções da memória demonstrou como podemos ser influenciados – no meu caso pela história contada pelos meus parentes – e criar memórias falsas sobre um acontecimento.

A memória inteira não precisa ser falsa, pode ser apenas um detalhe, como por exemplo a placa na gravação de um acidente de trânsito, durante um experimento da professora, alguns lembravam dela como Preferencial, outros como de Pare.

Tudo por causa de um estímulo escrito, mas também pode ser um estímulo auditivo, como um tio que lembra da lata de ervilha e outro que lembra da lata de milho – o que mostra como nossa memória pode ser manipulada.

Ainda mais quando nossa hierarquia do conhecimento foi completamente abalada. Acreditamos em dados que um indivíduo qualquer colocou no facebook sem apresentar nenhuma pesquisa, basta falar que 70% fizeram isso ou aquilo.

Misturamos as esferas de saber: religiosa com científica por exemplo. São duas esferas de conhecimento importantes e até mesmo complementares para nosso entendimento de realidade, mas são coisas diferentes.

O que reforça o risco das famigeradas fake news e a importância da validação de dados, mas não quero focar nesse assunto, pois acredito que já tem muita gente falando, o que me interessa e a associação de argumentos e ideias a pessoas.

Afinal quem nunca ouviu que Darwin falava que viemos do macaco ou que Paulo Freire queria que a população inteira permanecesse analfabeta. Sem fazer juízo de valor sobre a obra desses dois autores, como você chegou a sua conclusão sobre o trabalho deles? Já tentou ler nem que seja as primeiras páginas de algum livro deles?

Pode ser difícil lembrar de onde vieram suas interpretações sobre um certo tema, principalmente se for algo que reforça o que já acreditamos, e que temos mais chances de aceitar sem muita reflexão.

Personificamos uma versão do discurso do autor segundo o que esperamos e reforçamos esse entendimento seguindo nossos estímulos, seja um amigo, vídeo no Youtube ou página do Facebook.

Outro reflexo do extremismo ideológico no que chamamos de paradigma da dominação: Se alguém pensa um pouco diferente de mim eu preciso derrotar ele, porque só pode haver um vencedor.

Só que não é assim que funciona:

além da nossa versão – tese – precisamos conhecer os verdadeiros argumentos de quem pensa diferente – antítese – para refletir sobre o tema e construir nossa própria interpretação do mundo – síntese – através desse embate.

Essa é a importância de ler um livro, principalmente do autor que você discorda, pois é assim que um debate funciona – eu garanto que é muito emocionante, mesmo sem tocar turn down for what.

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