Especialistas discutem o protagonismo sem fronteiras da Educomunicação

Por: Bruno Ferreira (SP), Evelyn Araripe (SP) e Jackson Boaventura (RJ), da Renajoc e da Agência Jovem de Notícias

A primeira mesa redonda do IV Encontro Brasileiro de Educomunicação foi marcada por excelentes diálogos sobre as tecnologias da informação e o papel da educomunicação nos espaços educativos e também no debate sobre cultura. Intitulada “Educomunicação: Protagonismos sem Fronteiras”, a mesa contou com a presença do professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Muniz Sodré, o diretor de projetos educacionais da Fundação Padre Anchieta, Fernando José Almeida, a presidente do Comitê Gestor da Internet no Brasil, Tatiana Jereissati e do professor do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo, Ismar Soares. A professora da licenciatura em Educomunicação da ECA/USP, Maria Immacolata Lopes, foi a mediadora da mesa.

Muniz Sodré aproveitou o tema para questionar o que de fato é a cultura. “Nós estamos cansados de ouvir falar da cultura como uma palavra sócio-semântica, uma palavra onde parece que vale tudo, mas a questão é muito mais ampla”, disse. Segundo o professor, a cultura é muito diversa e a as tecnologias da informação aparecem para expressar essa diversidade. “A informatização revalorizou a forma de um saber vivo no trânsito cotidiano.”

Sodré, numa tentativa de contextualizar e definir Educação e Cultura, afirmou que “Educação não se confunde com ensino, nem com instrução pura e simples”.  Para o professor da universidade carioca, a sociedade atual não é educativa, mas sim instrucional, valorizando conteúdos em vez de priorizar cognições afetivas para a construção da autonomia dos indivíduos. Muniz Sodré destacou o papel da informática e da Internet na valorização da cultura cotidiana e do saber não formal, o saber da experiência. Ao mesmo tempo, defende o conservadorismo da educação. “A conservação é um valor de preservação da ética, da crise. A internet entra como um fator de ebulição e agitação de um discurso de conservação social”, afirmou.

Sobre as redes sociais, não acredita que a simples existência desses espaços garante pluralidade e democracia. “É preciso redefinir a palavra voz. Há um outro sentido para voz. Ter voz é a capacidade que se tem de falar criticamente, criativamente e de um modo autônomo. Nada me garante, por exemplo, que o palavrório das redes sociais seja uma voz de autonomia dos jovens. Isso é simplesmente livre expressão. Falar livremente (apenas) não configura democracia”, afirmou o Muniz Sodré nos bastidores, à nossa equipe.

O professor, muito aplaudido pela plateia de 300 participantes, finalizou a sua fala dizendo que “a Educomunicação é um pretexto histórico para reformular e estruturar a noção central de cultura, que é o que as tecnologias da informação trazem: a diversidade, não só de tecnologias, mas a diversidade territorial e a diversidade simbólica. Não é só o tecno, é a logia, que significa um novo tipo de lógica.”

Após a fala de Sodré foi a vez do professor Fernando José Almeida, diretor de projetos educacionais da Fundação Padre Anchieta, compartilhar a experiência de sua instituição com a TV Cultura. Almeida falou sobre a busca por conteúdos que contemplem a educação de forma democrática e como as tecnologias podem atravessar algumas bases do sistema de educação do Brasil. Ele lembrou que a tecnologia também é humana e como ela é possível caminhar junto com a aprendizagem.

“O que o computador faz para ajudar um aluno a trabalhar? Enquanto ele (o aluno) não souber o que um computador faz, ele não fará. Os desafios que se colocam para as secretarias de educação e para o MEC é definir qual a real contribuição das tecnologias para a aprendizagem. Eu diria, como o professor Muniz Sodré falou, que é para criar seres críticos, cidadãos participantes, pessoas que compreendam e interpretem a realidade”, disse em entrevista, nos bastidores, à nossa reportagem.

Na sequência, Tatiana Jereissati apresentou a pesquisa TC Kids Online, criada na Inglaterra e adaptada para a realidade brasileira. A pesquisa, feita em 2012, mostrou alguns hábitos de crianças e adolescentes e suas famílias na internet. Por exemplo, 82% das crianças e adolescentes brasileiros usam a internet para fazer trabalhos escolares e quase metade tem a escola como principal local de acesso à internet. “Isso mostra que a escola pode ser a porta de entrada da criança e do adolescente na internet”, disse Tatiana.

O professor Ismar Soares finalizou a mesa comparando as três apresentações anteriores. Ele disse que todas mostraram a importância da educomunicação e das tecnologias na teoria e na prática. O professor destacou a importância de estudar educomunicação para ampliar as pesquisas da área. “A pesquisa é importante para sabermos quem é quem”, disse. Segundo Ismar Soares, “a educomunicação não é necessariamente uma didática, mas uma metodologia em busca de novos paradigmas. Por isso mesmo, ela não é fechada, está sempre aberta para novas formas de criar. Na educomunicação temos condições de dialogar”.

 

Evelyn Araripe é jornalista e educadora ambiental. Foi educomunicadora na Viração Educomunicação entre 2011 e 2014. Atualmente vive na Alemanha, onde é bolsista do programa German Chancellor Fellowship for tomorrow’s leaders e administra o blog Ela é Quente, que conta as histórias de vida de mulheres que estão ajudando a combater os efeitos das Mudanças Climáticas ao redor do mundo.

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