Bloco das Mulheres na Luta Contra a Violência do Estado – Belo Horizonte – 08_03_2013

Especial 8M: Mulheres no front

Neste 8M, conversamos com 5 mulheres trabalhadoras com diferentes trajetórias sobre os medos e desafios do “ser mulher” e trabalhadora durante a pandemia no Brasil das desigualdades de gênero

Texto: Luiza Gianesella e Monise Berno | Revisão e edição: Juliane Cruz

A emergência sanitária provocada pela covid-19 aumentou as desigualdades no mundo todo. Questões estruturais como a falta de acesso a direitos básicos, o racismo e o genocídio do povo preto, as desigualdades de classe, o machismo e a violência contra pessoas LGBTQIA+  alcançaram níveis altíssimos, ao mesmo tempo em que a crise financeira agravada pelas políticas neoliberais e pela precarização do trabalho – impostas ao Brasil e ao sul global desde antes da pandemia – aprofundaram e muito as distâncias entre os ideais das lutas populares e a realidade de fome, subemprego e medo do contágio.

O povo brasileiro está, há séculos, tentando sobreviver neste cenário, antes já incerto e cheio de percalços, agora agravado pela crise do coronavírus. É inegável que os impactos atingem a todos, mas são bastante diferentes para homens e mulheres.

Desigualdade que vem antes da pandemia

A pesquisa Outras Formas de Trabalho da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgada em 2019 pelo IBGE, já trazia dados importantes sobre a realidade de mulheres brasileiras quando se trata de tarefas não remuneradas/domésticas/de cuidado.

As mulheres que participaram do levantamento dedicaram, em média, 21,3 horas por semana com afazeres domésticos e cuidado de pessoas em 2018, quase o dobro do que os homens gastaram com as mesmas tarefas – 10,9 horas. Estimou-se ainda que 87% da população com 14 anos ou mais realizaram afazeres domésticos e/ou cuidado de moradores ou de parentes em 2018, o que representa 147,5 milhões de pessoas. Essa incidência era maior entre as mulheres, 93%. 

Os dados também mostraram que, mesmo morando com maridos, namorados e companheiros, as mulheres trabalhavam mais em tarefas domésticas, chegando a alcançar 97,7% delas. Cozinhar foi a tarefa com a maior diferença entre os sexos, com incidência de 95,5% entre as mulheres e 60,8% entre os homens. Apenas sobre “fazer pequenos reparos no domicílio” – as respostas ficaram em 59,2% de homens e 30,6% entre mulheres.

A situação empregatícia pouco impactava na jornada doméstica feminina. Mesmo trabalhando fora, a mulher cumpria 8,2 horas a mais em obrigações domésticas que o homem também ocupado.

Nas cinco atividades pesquisadas que envolviam cuidado de pessoas, que leva em conta a responsabilidade por crianças, idosos ou enfermos, as mulheres também foram maioria. A diferença entre homens e mulheres era maior em atividades como auxiliar nos cuidados pessoais e educacionais, e menor em ler, jogar ou brincar e transportar ou acompanhar em escola, médico e exames.

Com o coronavírus, as diferenças se tornaram abissais

No dia 8 de março de 2021, chegamos, no Brasil, à triste marca de 11.019.344 casos e 265.411 mortes por conta da pandemia de COVID-19. Como sabemos, culpar o vírus é reduzir de maneira simplista a discussão, uma vez que muitos desses casos e mortes poderiam ter sido evitados caso não estivéssemos passando pela pandemia sob um governo negacionista, anticientificista e neoliberal que não apenas não tem agido no sentido de controlar a pandemia como tem também, direta e indiretamente, contribuído para o seu agravamento.

Sabemos também que, dentro desse verdadeiro projeto de genocídio da população brasileira, alguns grupos são mais diretamente afetados pela falta de políticas públicas e pelo descaso dos governantes. Como de costume, as populações marginalizadas e empobrecidas são as que mais adoecem e morrem, com ênfase na população preta periférica.

A pesquisa Sem parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia, realizada pelas organizações Gênero e Número e Sempreviva Organização Feminista, traz dados detalhados sobre o impacto do coronavírus na realidade das mulheres brasileiras. Segundo a pesquisa, que contou com 2.641 respostas, 50% das mulheres passaram a cuidar de alguém durante a pandemia, no caso das mulheres negras, a taxa sobe para 52%.

A diferença entre brancas e negras fica mais evidente nas estatísticas de desemprego, segundo as quais 58% das mulheres desempregadas são negras, ante apenas 39% das brancas.

As estatísticas sobre violência doméstica no período também demonstram que a questão afeta as mulheres de maneira desigual: 8,4% afirmam ter sofrido alguma violência e 91% acreditam que a violência doméstica aumentou ou se intensificou durante o período de isolamento social. Novamente, há destaque para as mulheres negras:

O estudo Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, publicado pelo IBGE na última quinta-feira, traz também alguns dados que explicitam essa tendência. A diferença entre homens e mulheres em relação à taxa de participação na força de trabalho total vinha diminuindo desde o início da série histórica, em 2012, indicando que, ainda que lentamente, as mulheres estavam se desvencilhando do papel tradicional de mantenedoras do lar. Em 2020, no entanto, a diferença voltou a crescer, atingindo 19,7 pontos percentuais, ante 19,2 em 2019 (em 2012 a diferença era de 23,1%). 

Um dos motivos é a necessidade, surgida com a pandemia, de cuidar das crianças em casa devido ao fechamento das escolas, cuidado esse que recaiu majoritariamente sobre as mulheres.

É muito significativo notar que tudo isso se dá apesar de as mulheres possuírem maiores níveis de educação que os homens. Elas estudam mais (19,4% têm ensino superior, ante 15,1% dos homens), mas têm salários menores na mesma função (ganham 77,7% do que ganham os homens) e com mais frequência têm trabalhos em tempo parcial, muitas vezes na informalidade (29,6% das mulheres ante 15,6% dos homens), o que também tem conexão com a dupla jornada de trabalhar fora e ser a principal responsável pelos cuidados com a casa e com a família.

E o fato de serem sub representadas em espaços de poder, com destaque para o poder público (só 14,8% dos deputados federais são mulheres, menor proporção da América do Sul), não ajuda no estabelecimento de políticas públicas que ajudem a transformar esta realidade. A desigualdade de raça mais uma vez se faz presente: mulheres pretas, apesar de serem 9,2% do total das mulheres, foram apenas 5,3% das vereadoras eleitas em 2020, conforme destaca matéria recente no UOL sobre o estudo do IBGE.

Para as mulheres cientistas, a sobrecarga provocada pelo acúmulo das atividades acadêmicas com o trabalho doméstico, os cuidados com filhos (alimentação, higiene, educação, saúde física e mental das crianças) e todas as questões materiais e emocionais diretamente ligadas à pandemia despencaram a produção de mulheres.

Um levantamento feito pelo projeto brasileiro Parent in Science mostrou, entre outros dados, que 40% das mulheres sem filhos não concluíram artigos sobre suas pesquisas acadêmicas, contra 20% dos homens; 52% das mulheres com filhos não conseguiram concluir a escrita de seus artigos, contra 38% de homens.

O estudo conclui ainda que, especialmente para submissões de artigos, mulheres negras (com ou sem filhos) e mulheres brancas com filhos (principalmente com idade até 12 anos) foram os grupos cuja produtividade acadêmica foi mais afetada pela pandemia. A produtividade acadêmica de homens, especialmente os sem filhos, foi a menos afetada pela pandemia.

As mulheres no front

Ao longo dos meses de enfrentamento da pandemia em 2020, conhecemos através da imprensa histórias de mulheres trabalhadoras da ciência e da saúde que estiveram envolvidas diretamente no enfrentamento da crise sanitária – são médicas, enfermeiras, cuidadoras, auxiliares, trabalhadoras de serviços de limpeza hospitalar, pesquisadoras como as que sequenciaram o genoma do coronavírus. Em outras tantas publicações e estudos, a dimensão do impacto da pandemia sobre as mulheres brasileiras ficou evidente.

No 8M, historicamente marcada por atos que celebram e provocam reflexões sobre as lutas das trabalhadoras do Brasil e de todo o mundo, apresentamos relatos de mulheres com diferentes trajetórias sobre os medos e desafios do ser mulher no ano da pandemia.

Perguntamos a 5 mulheres trabalhadoras em diferentes posições, sobre o impacto da pandemia em suas rotinas, como foi trabalhar em meio ao avanço da doença e quais as esperanças delas para um futuro pós covid-19.

Para Amanda Pellini, educadora social e professora do ensino médio e técnico, o impacto da chegada do covid-19 foi grande. Ela conta que, apesar de reconhecer seus privilégios, nunca esteve preparada para “viver em uma zona de guerra”:

sou desprovida emocionalmente para viver em uma zona de guerra. Mimada e protegida. Aliás, ninguém deveria ser provido disso, ninguém deveria ser provido de viver o caos causado por mãos humanas, não deveriam existir guerras, violências contra seres; porém, naquele momento todos do mundo tínhamos sido sequestrados de nossa própria vida, mas antes disso já não existiam pessoas no cativeiro? Dentre eus e não eus, e dilemas de ego típicos da classe média, haviam hiatos de massacres, que vieram antes de um vírus global; eu tinha que me manter sã, mesmo que meu transtorno generalizado de ansiedade e meu diagnóstico de pânico vivessem à tona, minha mãe estava com COVID-19, e nesse momento eu é quem estava lá. Cuidei da minha mãe, ela sim muito mais forte, pela noite ela também professora não fora dispensada das aulas. Tinha medo, por se tratar de uma instituição particular, de ser mandada embora, fato esse que não iria acontecer em primeiro lugar por ela estar com COVID-19 e em segundo lugar por ter acabado de se aposentar.

Ela conta que voltou a ter crises de Transtorno Obsessivo Compulsivo pela necessidade de higienização constante, e que não conseguiu se isolar completamente por ser companheira da mãe: “assim que tive que voltar a pegar metrô e ônibus a situação de lotação era tão absurda que acho que criei um mundo que só funcionava na minha cabeça, onde eu era imune à doença, pois mesmo com toda a proteção possível, o distanciamento no transporte público era impossível.”

Amanda Pellini (@prof_amandacmp) é educadora social e professora do ensino médio e técnico na cidade de São Paulo – SP. Co-fundou e integra o coletivo sanga de educação criativa e democrática.

Ela ficou sem emprego durante a pandemia, e passou a dar aulas de robótica em uma organização para crianças. Participou de um projeto de construção de um respirador mecânico para o tratamento da covid-19, junto com um amigo, É um hardware livre, iniciativa para tentar ajudar a situação que também poderia ter sido a da minha mãe caso ela não tivesse se curado.

Cleide Agostinho é Auxiliar de Serviços Gerais da Viração Educom.

Cleide Agostinho definiu a chegada e a expansão do vírus em uma palavra: medo. Para ela, não entender o que estava acontecendo e ter que sair de casa, para trabalhar e resolver pendências, gerou pânico: O impacto de continuar trabalhando foi assustador, porque devido ao fato de você saber que tudo dependia de você e você não poder fazer nada, se eu vou continuar empregada, sabendo que você tem uma casa, uma família pra alimentar, pra cuidar… então, o impacto [da pandemia] foi muito grande.

Thaís Nozue (@thanozue) é fotógrafa, arte educadora, mãe e trabalhou em uma unidade dos centro de assistência social de São Paulo durante a pandemia

Os desafios da pandemia para mulheres são muitos. Para mulheres mães, as dificuldades são ainda maiores. Para Thaís Nozue, fotógrafa, educadora e trabalhadora da assistência social de são Paulo em 2020, ter que se dividir entre o trabalho, os cuidados com a filha, os estudos e com as tarefas domésticas foi assumir sobrecarga mental e física por pensar e administrar tudo, mesmo recebendo colaboração do companheiro:

Eu sou mãe de uma criança de 11 anos, moro com ela e meu companheiro, com quem tenho 7 anos de convivência. Tive que sair pra trabalhar em alguns momentos e era a pior parte, pois os dois exigem muito de mim, principalmente atenção. Quando estou em home office, não compreendem que preciso de espaço e silêncio. Ele colabora, faz muitas coisas aqui em casa, mas a responsabilidade de colocar minha filha na aula remota, fazer comida, conferir lição, educar sem violência, enfim, é toda minha. Ele está desempregado e eu quem estou pagando as contas. Março de 2020 foi o último mês em que ele recebeu um cachê e cada vez está mais pesado para mim. Além de tudo, estudo. Ter que dar conta da casa, da família, do trabalho, da cachorra e de estudar está cada dia mais pesado. Eu tive covid em junho de 2020. Fiquei muito debilitada por 23 dias, não conseguindo ficar em pé na frente do fogão para fazer um arroz. Contei com ajuda de amigos e familiares. Foi terrível! Não desejo para ninguém.

Para Lara Santos Rocha, professora, poder contar com sua companheira que divide as tarefas domésticas é um privilégio e ajudou muito a manter qualidade de vida na pandemia. Enquanto professora da rede pública, os desafios também foram imensos:

Lara Santos Rocha é professora de Língua Portuguesa da Rede Municipal de São Paulo.

Precisamos nos reinventar e bolar estratégias não só para desenvolver aulas online, mas também para conseguir contatar a(o)s estudantes, que muitas vezes não têm acesso à internet e por isso não conseguem realizar as atividades. Assim, nossa angústia era ocasionada por diversos fatores: os atravancos que a educação a distância impõe, a preocupação com o vírus e a incerteza sobre a segurança de nossas crianças, já que não tivemos contato com parte significante das turmas. Junta-se a isso também a incerteza sobre o retorno, já que o estado assumiu uma estratégia cruel ao longo de 2020, informando sempre apressadamente que retornaríamos em breve, mesmo sem nenhum preparo para isso – o que, ainda bem, não ocorreu. O que percebemos foi que além de nossas aflições pessoais, havia um desespero pela ausência de políticas públicas de preparo e organização das escolas para um retorno seguro. O ano passado poderia ter sido dedicado a isso, assim talvez poderíamos colher outros frutos nesse momento, ao invés de precisarmos brigar por condições dignas de trabalho.

Já a Irmã Marlene Montano Machado, religiosa e migrante residente no Brasil, a pandemia trouxe muitos desafios, tanto na esfera pessoal quanto em seu trabalho social:

Irmã Marlene Montano Machado é migrante boliviana vivendo há 13 anos no Brasil. Atualmente é presidente do Centro de Convivência Santa Doroteia.

Esta pandemia colocou à luz todas as fragilidades já existentes de nossa sociedade egoísta, com políticas públicas injustas,  onde os ricos são mais ricos e os pobres são mais pobres. Esta situação se fortaleceu em mim, que hoje mais que nunca, temos que trabalhar para construir estruturas solidárias, redes que se convertam em prol da vida e principalmente da vida mais fragilizada de nossas periferias. Como mulheres, temos o dom de sentir e perceber a vida que sofre e temos a graça de acolher e cuidar da vida que é  colocada no dia a dia em nossas mãos, que se tornam mãos de uma mãe que cuida do filho/a que lhe foi encomendado por Deus.

Esperanças de um futuro pós covid

A irmã Marlene deposita suas esperanças de futuro na solidariedade, com uma sociedade que valoriza a vida, e não a economia:

A minha esperança no futuro pós pandemia, é que a sociedade acorde a uma solidariedade, fraternidade, onde todos possam pensar no outro, cuidar do outro, que as famílias possam cuidar mais de seus filhos, estar junto deles e aprendam a conviver como família. Que como sociedade possamos nos organizar para construir novas redes de convívio social em contraposição da rede capitalista que gera mais pobreza.

Para Lara, é difícil elaborar esperanças enquanto ainda “estamos tentando não nos afogar” diante do cenário brasileiro:

Depois de 1 ano de COVID-19, estamos quebrando recordes de mortalidade e encarando a institucionalização de certas práticas que ignoram esses dados, como a reabertura irresponsável das escolas. Minha esperança diante desse contexto, então, é que nossos governantes enxerguem o perigo que estamos correndo e tomem medidas efetivas de controle, para que a população possa prosperar (..) Espero também, num plano mais amplo, que o Estado fortaleça o financiamento das políticas sociais, como a saúde, a educação e a assistência social. 

Já Amanda reúne forças e se inspira nas esperanças que vê na sua mãe e em outras mães organizadas, como as Mães da Favela da CUFA:

Vendo a força que minha mãe fez para se manter esperançosa, vendo o coletivo de mães unidas, vendo a ação de encararmos todos os filhos como filhos nossos, e isso que a mãe terra é, ela está sendo abusada. A terra está em uma relação abusiva com “O” ser humano. Temos que retomar a relação de cuidado, de afeto, de amor; amor esse que julgo não ser só das mães, mas todes nós temos que ser mães independente do que somos

Bloco das Mulheres na Luta Contra a Violência do Estado – Belo Horizonte – 08_03_2013

Este especial foi produzido com a colaboração de Pedro Neves, da equipe de comunicação da Viração Educom. Agradecimentos especiais às entrevistadas.

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