Escolas de samba protestam na Sapucaí

Por: Jefferson Rozeno da Agência Jovem de Notícias/Foto: Sputnik Cris Dias

Entre a beleza dos carros alegóricos e alegria dos foliões, a crítica social se mostrava grandiosa nos dois dias de desfile do grupo de acesso das escolas de samba do Rio de Janeiro. Desfilando uma em cada dia, curiosamente as campeãs, Beija Flor de Nilópolis, que ostenta o título de vencedora, seguido da escola Paraíso de Tuiuti, que ficou em segundo lugar por dois décimos de diferença, mostraram aquilo que ninguém esperava: protesto e indignação.

A vice-campeã apresentou o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?” que abordava os 130 anos da Lei Áurea e fazia duras críticas à política brasileira, principalmente à reforma trabalhista.

A escola abordou a escravidão negra africana vivida duramente nas senzalas, trazendo para o futuro outras formas de escravidão, a chamada escravidão moderna, uma relação de “trabalho” abusiva, nas quais pessoas são forçadas a exercer uma atividade contra sua vontade, sob a ameaça de indigência, detenção, violência ou mesmo morte.

Carnaval Rio 2018 – Desfile na Sapucaí – Paraíso do Tuiuti – Grupo Especial – Gabriel Nascimento | Riotur

Além deste recorte, a ala “Guerreiros da CLT” mostrava foliões fantasiados de carteira de trabalho, fazendo uma alusão ao trabalhador sobrecarregado. A ala “Manifestoches”, de nome sugestivo, antecede o maior e polêmico destaque da escola, o carro alegórico “Neo-tumbeiro”, que tinha como detalhe foliões vestidos de “fantoches batedores de panela” e de “vampiro neoliberalista”, uma figura de terno e gravata que carregava uma faixa presidencial, representando Michel Temer, uma referência às manifestações populares e ao impeachment ilegal da ex-presidenta Dilma.

Sputnik / Magalhães

Já a atual campeã Beija-flor, falou de corrupção na avenida. Com o enredo “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, uma associação entre o Frankenstein, personagem que completa 200 anos, e os “monstros nacionais”: a corrupção, as agressões à natureza, o uso indevido de impostos, a intolerância de gênero, o racismo, entre outras problemáticas sociais estruturais enfrentadas no Brasil.

Briga familiar, esquemas de corrupção, violência urbana e intolerância religiosa foram alguns dos temas abordados no sambódromo. Com destaque nas figuras de Jojo Todynho, que representou a luta contra a discriminação racial, e Pabllo Vittar, que representou a luta contra a LGBTfobia no país que mais mata LGBTs no mundo.

Carnaval Rio 2018 – Desfile na Sapucaí – Beija-flor – Grupo Especial – Gabriel Nascimento | Riotur

O último ano foi marcado pelo conservadorismo e pela perda de direitos. Ver um movimento tão amplo e representativo como o carnaval abordar esta temática em ano de eleição e vencer uma das competições mais disputadas do país, mostra a necessidade de debater participação política no Brasil. As escolas vencedoras mostraram que é possível fazer um espetáculo e “botar o dedo na ferida” ao mesmo tempo.

 

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