ENTREVISTA: Acesso aos direitos básicos ainda é um obstáculo para pessoas trans

| Por: Moises Maciel, agente de prevenção do Viva Melhor Sabendo Jovem – São Paulo

Data pra marcar no calendário e no coração, com muito amor: dia 29 de janeiro é o dia da Visibilidade Trans. Em visão da data e seguindo o tema de representatividade, abordaremos a problemática da sociedade quando se trata de pessoas transexuais e travestis.

A data comemorativa foi criada no ano de 2004 para firmar a representatividade e ressaltar a importância do respeito às pessoas transexuais e travestis. Mesmo porque, ainda hoje, mais de dez anos depois da criação da data, o grupo ainda enfrenta dificuldades relativas ao acesso à saúde, segurança, educação e acesso ao trabalho.

Por isso, não é apenas durante a data que é comemorado o dia da Visibilidade Trans que devemos lembrar de todo o contexto social em que vivem, muito menos a única data em que devemos respeitá-las. A visibilidade e respeito devem ser exercidos todos os dias, e não é preciso ser transexual ou travesti para lutar pela causa!

As pessoas transexuais e travestis ainda estão lutando por algo SUPER básico: o respeito! Lutam pelo direito de andar livremente pelas ruas sem ser incomodadas e discriminadas. Em uma sociedade marcada pela intolerância e falta de amor ao próximo, é necessário, antes de mais nada, criar espaços seguros para que mulheres e homens trans e travestis tenham voz e acesso à educação, trabalho, segurança e saúde, direitos garantidos pela Constituição.

O Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis no mundo. Entre 2008 e 2014, foram registradas 689 mortes de pessoas trans e travestis. Em 2016, uma pesquisa feita pela Rede Nacional de Pessoas Trans no Brasil registrou 144 mortes, além de inúmeros casos de violações contra pessoas trans.

A expectativa de vida de homens e mulheres trans no país é de 35 anos, sendo que para resto da população brasileira a expectativa é de 73 anos. O preconceito e a falta de acesso aos direitos básicos estão por traz dessa violência.

Para iniciar o debate e melhor compreender os obstáculos enfrentados pela população trans no Brasil, a AJN conversou com as jovens mulheres trans Isabella Santorinne, secretária da Rede Paraense de Pessoas Trans, e Lucrécia Borges.

Isabella Santorinne, Secretária da Rede Paraense de Pessoas Trans

 

AJN: Como é ser trans no serviço de saúde?

Isabella: Olha, é bem complicado, porque quando a gente vai no serviço de saúde, logo no atendimento eles não querem respeitar nosso nome social! Querem nos chamar pelo nome civil, então a gente já chega lá sendo desrespeitada. E quando entra no consultório do médico, da médica, enfermeira, não importa, é outra confusão, porque eles não respeitam a gente, descriminam a todo momento.

 

AJN: E para você Lucrécia, como é sua experiência no serviço de saúde?

Lucrécia: No meu estado, Tocantins, você é reconhecido como você se apresenta. Se você está com aparência masculina, você é reconhecido como menino, tudo isso porque eles não respeitam o nome social. Agora se você está toda “feminina” já com a terapia hormonal, silicone, cabelos grandes, eles ainda questionam se na verdade é um “homem”. Acham que estamos brincando de ser mulher, que agora todo mundo quer virar trans, virar mulher.

Lucrécia Borges, 24 anos

 

AJN: E o que é ser trans para você?

Lucrécia: Ser trans é ser forte! É ser uma pessoa determinada nessa sociedade machista, heteronormativa, hegemônica e cheia de padrões arcaicos e antigos. Posso dizer que ser trans é ser guerreira! É bater de frente, correr atrás dos direitos, se auto afirmar, estar sempre encarando o preconceito, encarando a transfobia.

 

AJN: Você falou de preconceito. O que é transfobia para você?

Lucrécia: A transfobia não se caracteriza somente pela agressão física, mas naquele preconceito, sabe, naquela piadinha tipo: ah é homem, é mulher, tem pênis, não tem vagina.

 

 

AJN: E vocês têm algum recado para dar aos leitores da AJN?

Isabella: Quero dizer que todos nós somos seres humanos, merecemos respeito e dignidade, sendo cis, sendo trans, ou sendo o que for, as pessoas têm que respeitar umas às outras. A mensagem que quero passar é respeito ao próximo. Vamos fazer amor, vamos nos beijar, vamos se abraçar, vamos transar, vamos ser feliz! Mais amor, menos transfobia!

Lucrécia: Primeira coisa, NÃO DEIXE DE ESTUDAR! Busque a qualificação profissional, porque isso pode proporcionar a ascensão social. Busque seus direitos, a gente consegue exigir direitos quando a gente sabe, quando a gente tem conhecimento, a partir da educação. A educação pode sim mudar toda sua realidade, pode buscar políticas públicas. Então o recado que eu deixo é esse: estude, se qualifique, tenha contato com ONGs, com movimentos sociais, seja engajada.  As trans que têm que ser visíveis e têm que ter seu lugar na sociedade.

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