Enem: desistência e incerteza são maiores entre os jovens indígenas

Enquete da plataforma U-Report Brasil mostrou que jovens indígenas estão numa situação bastante pior que os outros grupos raciais. Conheça outros dados da pesquisa

Por Silvana Salles

A pandemia de Covid-19 atrapalhou os planos de todo mundo. Mas, para os jovens indígenas que estavam se preparando para o Enem e outros vestibulares no fim do ano, a frustração parece ser maior que a de outras pessoas.

Dados de uma enquete da plataforma U-Report Brasil revelam que, entre os adolescentes e jovens indígenas de 13 a 25 que pretendiam prestar as provas para ingressar na faculdade, 52% desistiu ou está em dúvida se conseguirá fazer alguma delas.

Os indígenas são o único grupo racial autodeclarado da enquete no qual menos da metade dos jovens e adolescentes se mantiveram firmes em seus planos para o vestibular. Eles somam 48%, em contraste com 62% dos jovens negros e 64% dos jovens brancos.

A maioria optou por não contar por que desistiu ou está em dúvidas sobre fazer o Enem e outras provas. Porém, os que contaram indicaram que os principais problemas têm a ver com dinheiro: alguns não sabiam se conseguiriam pagar a taxa de inscrição e outros, além da falta de dinheiro, também estavam lidando com a falta de ânimo e a dificuldade para estudar durante a pandemia.

 “Fica mais difícil aprender sozinho”, contou um menino indígena de 15 anos que participou da enquete. Ele vive no Ceará e continuou estudando em casa para a escola. É um dos jovens começaram o ano com a intenção de tentar o Enem. Agora, está em dúvida.

A situação é parecida de outro jovem participante da enquete. O rapaz de 19 anos mora no Amazonas e estava matriculado para estudar quando o coronavírus chegou ao Brasil. A incerteza atravessou os planos para o vestibular e o levou até mesmo a desistir do ano na escola. “Eu não sei se ainda vai ter o vestibular”, declarou ele em resposta à enquete.

Vale lembrar que, por causa da covid-19, as provas do Enem foram adiadas para o começo de 2021. Segundo os editais atualmente em vigência, as provas do Enem 2020 impresso acontecerão nos dias 17 e 24 de janeiro de 2021. O Enem 2020 digital terá provas nos dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro.

Falta de dinheiro e de ânimo

Os dados da enquete indicam que, além do problema do Enem, os indígenas foram os mais prejudicados também em outros aspectos relacionados aos estudos. Eles foram os que mais desistiram do ano letivo (7%, contra 4% dos brancos, grupo que teve o menor índice de desistência). Também são um dos grupos em que mais pessoas pararam de estudar durante a pandemia, mas pretendem voltar quando as coisas melhorarem (20%, empatado com os negros). Além disso, só 1,79% disseram que suas escolas permaneceram abertas desde que a pandemia chegou ao Brasil.

Os números foram extraídos dos resultados da enquete do U-Report Brasil realizada online no dia 18 de junho. A plataforma é um projeto do escritório de inovação global do Unicef, implementado pela Viração e funciona como uma ferramenta de participação social no meio digital, por meio de chatbots e outras formas de interação.

Do ponto de vista da estatística, a amostra da pesquisa não representa um retrato fiel da população brasileira. No entanto, como os participantes são de todos os estados do país, as respostas permitem identificar algumas tendências. Dessa vez, o objetivo da enquete foi mapear de que forma a pandemia está afetando os estudos dos jovens brasileiros. Foram realizadas outras duas enquetes temáticas no mês de junho, uma sobre trabalho e outra sobre renda.

A enquete sobre estudos contou com quase 4 mil participantes. Do total de respostas válidas, 94% vieram de pessoas que tinham entre 13 e 25 anos – entre elas, 65% eram meninas e 35% eram meninos. Os estados mais ativos na enquete foram o Ceará e a Bahia, ambos na região Nordeste. A grande maioria dos participantes estava estudando em uma escola ou faculdade antes da pandemia de coronavírus.

Os dados mostram que, passados três meses de incertezas, medo e medidas de distanciamento social, 50% desses jovens continuavam estudando em casa para a escola ou faculdade. Outros 14% decidiram voltar a estudar quando as coisas melhorarem, 5% passaram a estudar por conta própria e 4% desistiram deste ano. Outros 4% disseram na enquete que suas escolas não fecharam.

Quanto ao Enem e outros vestibulares, 42% responderam que eles estavam nos planos antes da pandemia. Quando perguntados sobre o que mudou, parece que venceu a incerteza: 59% desses jovens optou por não responder à questão, enquanto 17% disseram que vão fazer o Enem e 7% afirmaram que vão fazer o Enem e outro vestibular.

Outros 2% vão fazer apenas outros vestibulares. Por outro lado, 12% já não sabem se vai rolar de fazer o Enem e 3% desistiram. Assim como foi o caso entre os jovens indígenas, no grupo geral o principal motivo para desistir do Enem é uma mistura de falta de grana e ânimo com a dificuldade para estudar.

Você pode fazer parte do U-Report através do Facebook ou do WhatsApp.

Foto Destaque: Agência de Notícias do Paraná/Divulgação

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *