Encontro de mídia livre no RJ discute a necessidade de enfrentar o avanço do conservadorismo no Brasil

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Bruno Ferreira, enviado da AJN ao Rio de Janeiro | Imagens: Jéssica Santos/CCJ Recife

O Brasil está em crise. Essa afirmação dissemina-se com a velocidade de uma bala de revólver na sociedade. O que a primeira vista parece ser um disparo não intencional tem, na verdade, um destino certeiro: ferir o Estado Democrático de Direito. A grande mídia é a arma responsável pelo disparo. E o resquício da pólvora respinga na sociedade, que assimila o ódio pulverizado em notícias sobre adolescentes envolvidos em crimes, (especialmente o preto e pobre da periferia), sobre os  “escândalos de corrupção”, envolvendo a maior empresa estatal do País, a Petrobrás, e sobre medidas econômicas impopulares.

Mas, no último final de semana, no Rio de Janeiro, os cerca de 100 participantes do Encontro de Midialivrismo e Juventude, promovido pela Secretaria Nacional da Juventude e pela Secretaria de Cidadania e Diversidade do Ministério da Cultura, identificaram uma crise de outra natureza: a hegemonia do discurso conservador e a necessidade de disseminar narrativas que questionem e desconstruam valores reforçados pela grande mídia e que pautem outras questões, invisíveis a sociedade, em razão da omissão da grande impressa.

A discussão acerca de políticas públicas de comunicação e juventude esteve presente no auditório da Escola de Artes Visuais do Parque Laje, no Jardim Botânico, local do encontro dos midialivristas de todas as regiões brasileiras. Puxado pela jornalista e ativista Bia Barbosa, integrante do Coletivo Intervozes, e por Ângela Guimarães, presidenta do Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE), esse debate aconteceu na tarde de sexta-feira (15/05).

Mídia livre, internet e juventude

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Bia orientou sua fala a partir de um questionamento: “Como, necessariamente precisamos articular coletivos de comunicadores e midialivristas a uma agenda mais ampla de luta no Brasil? Qual o papel do Estado nesse processo?”.

A  jornalista apresentou um panorama das comunicações no Brasil, destacando a importância de discutir a ampliação do acesso à internet e universalização da banda larga no contexto da mídia livre. Bia destacou ainda a necessidade de acompanhar políticas propostas por Dilma Rousseff quando candidata à reeleição e chamou a atenção para a possível parceria entre o governo federal e o Facebook, que não ampliará o acesso à internet no país. “Esse é um acesso restrito, não livre. Trata-se apenas do acesso ao Facebook e outros sites associados. Não é essa a internet que queremos”, explicou Bia.

Ela ainda pontuou a necessidade de respaldo do Estado na construção de um sistema de comunicação em que a mídia alternativa tenha espaço na disputa de sentidos na sociedade e lembra que, em 2006, o governo federal poderia ter ampliado o espaço da mídia alternativa na TV aberta, mas a escolha foi outra: “Hoje poderíamos ter quatro vezes mais canais na TV aberta, mas a opção foi fazer das emissoras que já têm espaço uma televisão de alta definição. A mídia alternativa não foi chamada para este debate”, critica.

A presidenta do CONJUVE, Ângela Guimarães, disse que o debate em torno do direito à comunicação se faz num contexto maior, de construção de uma realidade mais justa, de ampliação de direitos. “Estamos vivendo um momento delicado e agudo da realidade brasileira. Esse encontro serve como impulsionador para um campo de ideias para barrar os retrocessos que hoje estão em pauta”, afirma Ângela.

Ela ainda destaca que informações relevantes sobre a Juventude brasileira não são divulgadas pela grande mídia, cuja narrativa reforça o ideário de criminalização do negro, associando a juventude preta e pobre ao crime e autoria de violências. Por isso, Ângela afirma a necessidade de desconstruir esse discurso que ainda é hegemônico na sociedade e que relega à invisibilidade a questão que envolve o extermínio da juventude negra no Brasil. “Precisamos tirar a venda que nos impede de ver os corpos negros que se amontoam e que problematizemos essa questão como uma questão nacional”, disse.

Bruno Ferreira
Jornalista, professor e educomunicador. Responsável pelos conteúdos da Agência Jovem de Notícias e Revista Viração.

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