Em Montenegro, 95 crianças abandonaram as suas atividades escolares em 2020

Problemas com internet e mudanças de cidade estão entre as principais causas. Especialista aponta defasagem de aprendizagem que pode durar até quatro anos

Por Marielle Gautério*

Trabalhar fora, cuidar da casa e do bem-estar dos filhos, não possuir internet ou telefone compatível. Essa é a realidade de diversos brasileiros (a) que em 2020 se depararam com a pandemia do novo coronavírus, trazendo mais preocupações e responsabilidades. “Foi muito difícil, porque eu não tenho wi-fi, não tenho internet, e era um telefone para quatro crianças, e vinham todas as atividades por ali, e a gente não sabia”, conta a montenegrina Maria (nome fictício), de 29 anos.

Maria é uma das milhares de brasileiras que no último ano teve seu trabalho em casa redobrado. Com quatro filhos em idade escolar: dois meninos de 14 e 8 anos e duas meninas de 11 e 6 anos, a dona de casa não conseguiu auxiliar os pequenos como gostaria. “Eles ficaram sem entregar atividades, iam até chamar o Conselho porque eu não estava entregando as atividades. Teve um tempo que ficou muito difícil mesmo, porque além de ter um telefone só, o pai deles tinha que sair pra trabalhar e eu tinha que me virar com os quatro”, explica.

Segundo dados do Conselho Tutelar de Montenegro, em 2020, 321 crianças e adolescentes abandonaram as suas atividades escolares. Após contato e notificação do órgão, 226 retornaram às tarefas, entretanto 95 tiveram seus casos encaminhados ao Ministério Público de Montenegro por abandono escolar.

Esse é um fenômeno que também foi visto no país. Segundo o estudo “Enfrentamento da cultura do fracasso escolar”, do Unicef, no ano passado 1,38 milhão (3,8%) de alunos, com idades entre 6 e 17 anos, abandonaram as instituições de ensino no Brasil. A taxa é superior à média nacional de 2019, quando ficou em 2%, segundo dados da Pnad Contínua. 

Também sem acesso à internet e com apenas um celular para quatro crianças, Bruna (nome fictício), de 34 anos, decidiu que seus filhos não estudariam em 2020. “Com medo da pandemia, mais preocupada com isso e com a questão financeira, eu deixei de lado a escola, eu decidi que naquele ano eu não ia fazer nada. As professoras até tentaram mandar em folha impressa, mas quando elas começaram a mandar o ano já estava quase no fim, então não adiantava mais. Na minha cabeça eu pensava que no ano seguinte eles retomavam de onde tinham parado, mas aí não deu”, diz ela.

Adaptação das escolas

Na Escola Estadual de Ensino Fundamental Dr. Jorge Guilherme Moojen, logo que as aulas presenciais foram canceladas, no dia 19 de março de 2020, teve início o ritmo das aulas à distância, com atividades através do Whatsapp. “Nem todos os nossos alunos tinham internet, nem todos os nossos pais tinham telefones compatíveis para o sistema do Whatsapp, e isso foi bastante difícil aqui na comunidade”, fala a diretora Simone Nunes. 

À frente da coordenação da escola desde 2016, Simone relata que a instituição abarca crianças e adolescentes da zona rural e urbana, e muitos não têm acesso à internet ou estão em situação de vulnerabilidade social. “Nós tivemos bastante ajuda dos nossos oficineiros da escola aberta, que levaram muitas vezes os trabalhos impressos nas casas dos alunos”, comenta.

Porém essa não foi a experiência de todos os brasileiros. Ainda de acordo com a pesquisa da Unicef, 4,12 milhões de alunos (11,2%) não receberam nenhuma atividade escolar, apesar de matriculados e sem estar em período de férias. “Entregaram (escolas) um pouco de atividades presenciais e um pouco era pelo telefone; e muitas coisas não eram feitas porque eram entregues pelo telefone, Classroom, mas nem isso eu não sei baixar e nem sei o que é, e muitas coisas não eram feitas que eram entregues por ali”, declara Maria.

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Cinco de Maio, a maneira de ensinar também teve de ser adaptada. “Os professores tiveram que reorganizar a metodologia para atender através do Whatsapp, de materiais impressos; tentar com que houvesse o aprendizado de forma à distância, e isso foi um grande desafio”, conta a diretora Taciana Nunes de Azevedo. Assim como no Moojen, não são todos pais e responsáveis da Cinco de Maio que tem acesso a internet e em diversos também foram disponibilizadas atividades impressas.

Busca ativa dos alunos

Desde que iniciou a pandemia o antigo instrumento – FICAI – Ficha de Comunicação de Aluno Infrequente – que era utilizado para monitoramento e recuperação de alunos que paravam de frequentar o ambiente escolar deixou de ser utilizado no município. De acordo com a psicóloga da Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SMEC), Melissa Lopes de Araujo, foi buscado junto a Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente uma parceria, que estabeleceu um outro fluxo de trabalho.

Caso o aluno não desse retorno a escola, a instituição esgotava todas as suas possibilidades de contato com a família, encaminhava o caso para SMEC, que em parceria com Assistente Social da Saúde realizava visita domiciliar para verificar o que estava ocorrendo e realizar orientação para buscar a escola. Em caso da família não estabelecer contato com a escola após a visita, o Conselho Tutelar era acionado. “Neste formato muitas crianças retornaram para escola, o que ocorreu foi que famílias mudaram de município e não providenciaram a transferência de escola”, diz Melissa.

Ao chegar no Conselho Tutelar, o caso é distribuído e é realizada visita ou conversa com conselheiro, momento em que o pai ou responsável recebe advertência por escrito alertando a necessidade do retorno as atividades. “Nós ainda temos a ferramenta do Ministério Público, então se informa o Ministério Público, e a promotora vê a melhor maneira. Se nós não conseguimos, ela tenta novamente e toma as medidas cabíveis”, detalha a coordenadora do Conselho Tutelar de Montenegro, Leila Ternes.

Segundo a promotora de Justiça, Rafaela Hias Moreira Huergo, à frente da Promotoria de Justiça Especializada de Montenegro, quando o Conselho Tutelar também não obtém sucesso, o Ministério Público inicia um procedimento para buscar esse aluno em sua casa, além de uma notificação extrajudicial. “Se mesmo com essa tentativa extrajudicial a gente não consegue demover essa família do intento de não participar das atividades escolares a gente pode acionar judicialmente as famílias para promover a garantia do direito à educação de todos os menores”, explica Huergo.

De acordo com a Rede, todo o interesse está em garantir o conhecimento e o bem-estar social dessas crianças e adolescentes. “A educação é um direito, e é para a criança e adolescente; e em contrapartida é um dever do pai manter na escola, acompanhar a educação. Não basta somente ir lá e fazer a inscrição do filho, tem que acompanhar o desenvolvimento dele para o crescimento”, completa o conselheiro Marcelo Claro.

Defasagem idade-série

Uma das consequências do abandono escolar e da pandemia do novo coronavírus é a defasagem idade-série, aponta a professora Drª Susana M. Speroni, coordenadora do Curso de Pedagogia EAD e Presencial da Universidade de Santa Cruz do Sul, mestre em Educação e doutora em Desenvolvimento Regional. “Sim, a evasão aumentou muito, sim a defasagem de aprendizagem é grave, e sim já há uma estimativa que vamos demorar quatro anos para recuperar as perdas provocadas pela pandemia. […] Eu terei distorção ano-série, crianças que completaram o segundo ano sem saber ler vão passar, porque estão sendo automaticamente passados para a série seguinte, mas com defasagem no processo de alfabetização”, diz a professora.

Segundo ela, essa defasagem gera um desânimo nas crianças e adolescentes, o que pode fazer com que muitas reprovem várias vezes, ou abandonem a escola. “Quando elas voltam, elas vão ter uma idade muito maior do que se esperaria, por exemplo, por 4º ano; seria a distorção ano-série”, reflete Speroni.

Para o filho mais velho de Maria, essa é uma dificuldade já observada pela mãe. “Ele acabou passando pro oitavo ano, mas ele nem sabia o sétimo. Isso gera até hoje uma briga entre nós, porque eu quero que ele faça, e as professoras me incomodam que ele tem que fazer e entregar as atividades, só que ele não sabia nem do sétimo”, desabafa. 

Com o menino de seis anos, o problema é a alfabetização. “Ele está na terceira e não sabe nem o nome dele, eu explico, ele chora, acho que fica desesperado”, diz. Já Bruna tem dois meninos de 11 e 7 anos e duas meninas de 9 e 2 anos de idade, e encontra dificuldades semelhantes. “Com os meus dois guris está sendo difícil, principalmente o menor, porque ele não foi alfabetizado, e a matéria que vem vindo é tudo matéria pra criança que já sabe ler e escrever. O que eu fiz é que eu mesma tô passando o alfabeto pra ele, mas como eu trabalho fora, são quatro crianças e tem a casa eu não consigo ser regular”, conclui.

No ensino remoto da pandemia, crianças disputam o celular da família para conseguir estudar

Aprovação automática dos estudantes

A doutora Speroni explica que uma das orientações da rede de ensino no último ano, com a pandemia do novo coronavírus, foi à flexibilização da presença e aprovação automática dos alunos. “Quando eu estou no ensino presencial basta eu ir à escola que eu dou conta do desafio legal que é cumprir com a frequência obrigatória. Agora com o ensino remoto, como que eu faço para fazer o controle? O que serve de controle de frequência para todos alunos e não tenham diferenças é realizar as atividades”, afirma.

Maria revela que questionou as professoras e diretora do seu filho o porquê foi passado se ele não sabia os conteúdos, e foi dito “que daqui pra frente vai ser só assim”. Para Bruna essa atitude é um desrespeito com a sociedade, e essa devia ser uma decisão tomada pelas mães. “Eu não me importaria se os meus filhos perdessem esse ano, eles iam ter que estudar um ano a mais no futuro, mas eles iam acrescentar isso. Porque foi um ano perdido, tanto em sentido que eles não tiveram aula, como eles foram passados”, completa Bruna.

Desafios para 2021

Desde janeiro, o Município já registra em suas duas redes de ensino 43 casos de abandono escolar que foram encaminhados ao Conselho Tutelar. Segundo a psicóloga Melissa, os professores estão focados em atender as necessidades pedagógicas de seus alunos da melhor maneira possível. “Toda a Rede de Proteção está envolvida em fazer a Busca ativa dos alunos para que não ocorra um aumento expressivo nos números de evasão escolar”, diz.

A Drª Susana Speroni declara que todos esses problemas exigem investimento e coordenação do Ministério da Educação. “Não tem como a gente pensar em um novo modelo de crescimento do país se a gente não tiver investimento na educação. […] Que via formação continuada em um trabalho coletivo às redes e os grupos menores consigam resolver esse problema, que será o problema do futuro dos próximos dois/três anos”, finaliza a professora.

Assista essa reportagem:

* Marielle Gautério é bolsista na região Sul do projeto Jornalismo e Território, realizado pela Énois Laboratório de Jornalismo, com foco em investigações sobre infância.

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