Educomunicação ajuda a superar trabalho infantil no CE

A fotografia com a proposta educomunicativa lança um olhar sobre as problemáticas e potenciais sociais em comunidades do interior do Ceará

Um clique. Dois, três cliques. Lançar um olhar para si e para o outro por meio da fotografia tem sido um exercício de crianças e adolescentes que fazem uso de tecnologias da informação como instrumento de participação, mobilização e prevenção ao trabalho infantil no sertão do Ceará. São meninos e meninas de 7 a 17 anos, localizados na zona urbana e rural, que se apropriam e promovem seus direitos por meio da educomunicação.

Para termos uma ideia da real situação do trabalho infantil no Brasil e no Ceará, vejamos alguns dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, de 2014, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): no nosso país, são cerca de 3 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos que trabalham, meio milhão tem menos de 13 anos e mais de 60%, trabalha no campo, com agricultura.

No Brasil, o aumento de crianças e adolescentes em situação de trabalho foi de 4,5%. Uma notícia boa é que no estado do Ceará houve uma redução de trabalho infantil nos últimos cinco anos. Segundo essa mesma pesquisa do IBGE, o estado reduziu de 293 mil para 146 mil, entre 2010 e 2014. Com estes resultados, o Ceará saiu da terceira posição e atingiu a 16ª no ranking das unidades da federação com maior incidência de exploração do trabalho infantil.

Resultados como esses vêm sendo obtidos pelas intervenções e ações de instituições públicas, privadas e do terceiro setor. Um dos exemplos é o Projeto Ponto de Vista, que acontece no município de Bela Cruz, região norte do Ceará. O projeto acontece por meio da parceria do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente (CMDCA) e apoio da Fundação Itaú Social.

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No Projeto, a garotada é atendida por orientadores sociais que realizam diariamente atividades lúdicas de educomunicação, além do lazer, com o objetivo de possibilitar um espaço de convivência comunitária e também assistência social as suas famílias, evitando assim que esses meninos e meninas venham ficar na rua ou em situação de trabalho infantil, seja no campo ou na cidade.

Os resultados são vistos na prática. Segundo dados das Ações Estratégicas de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (AEPETI), realizado pelo Centro de Referência Especializada da Assistência Social (CREAS), identificou que em 2014 cerca de 330 crianças e adolescentes estavam em situação de trabalho infantil no município de Bela Cruz. Este número caiu para 187, no primeiro semestre de 2016.

Educomunicação e transformação social

As atividades de educomunicação acontecem no contra turno escolar com meninos e meninas, na faixa etária de 7 a 17 anos, na sede do município e em mais nove comunidades rurais. Uma dessas localidades é Cajueirinho, que fica a 42 km da sede. Conhecida como um lugar pacato e com vida simples, a comunidade tem apenas uma creche e uma escola de nível fundamental. E ainda o Espaço CRIAD, onde acontecem atividades no contra turno escolar com crianças de 7 e 9 anos, promovidas pelo Projeto Ponto de Vista. De segunda a quinta, a orientadora social Selma Freire promove atividades lúdicas com as crianças, utilizando brincadeiras e jogos, que estimulam o corpo e a mente para sua formação social. E ainda, uso de tecnologias da informação, como a fotografia, para possibilitar um maior desenvolvimento humano e intelectual.

Selma Freire relata como a técnica da fotografia foi trabalhada com a turma que, ainda em seus primeiros passos para o mundo tecnológico, começa a percorrer a comunidade, por meio dos celulares e câmeras fotográficas. “A fotografia foi trabalhada da forma mais simples, por elas serem crianças. Procurei uma maneira de apresentá-la, explicando e exemplificando alguns tipos (de fotografia). Na parte prática, fomos para a rua fotografar os pontos principais da comunidade, escolhidos por eles. E teve ainda o ensaio feito só com fotos deles mesmos, fotografando o colega para fazer os perfis”.

Ainda de acordo com Selma, tem ainda um jornal mural, construído com a participação deles no início do projeto e atualizado. E para fechar a prática, com a produção do varal de fotos, foi feita uma exposição com todo esse material produzido e coletado na comunidade.

Assim como Selma, outros oito orientadores sociais que fazem parte do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos no município de Bela Cruz recebem formação mensalmente e acompanhamento semanal para ampliar o leque de opções de ações para fortalecer a prevenção e combate ao trabalho infantil no município e região.

 

Rones Maciel, 31 anos, é comunicólogo, educomunicador, empreendedor social e filho de agricultores do Assentamento Muxuré Velho – Quixeramobim/CE. Desde 2005 participa, articula, mobiliza e promove ações e intervenções na linha dos Direitos Humanos por meio da Educomunicação no estado do Ceará. Desenvolve ações com organizações do terceiro setor e públicas por meio de parcerias como o CEDCA, Coordenadoria de Juventude do Estado do Ceará e MPT- CE.

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